Crítica | Nós

“Nós somos americanos.”

Em Jeremias 11:9, uma das passagens que antecede aquela a ser reiterada tantas vezes no segundo longa-metragem de Jordan Peele, o Senhor diz: “Há uma conspiração entre o povo de Judá e os habitantes de Jerusalém.” Tanto Corra!, grande sucesso do gênero de horror e que concorreu ao Oscar, quanto Nós, nova empreitada do cineasta, são obras que lidam com conspirações absurdistas, marca eterna dos Estados Unidos e da paranoia social de que a nação estaria envolvida com as mais macabras realidades do mundo. Uma das personagens do filme apontará uma teoria de que a água que os americanos bebem é usada para controlar as suas mentes. O engraçado é que não precisamos de conspirações para os diagnósticos promovidos pelas obras, das contradições e dos esquemas perversos que permeiam esses territórios norte-americanos, serem verdadeiros.  Membros de uma família, americana, combaterão a eles mesmos.

Rejeitando uma ótica mais restringida, Nós avança sobre as profundezas da América, quilômetros e mais quilômetros de contradições e esquemas perversos que se encontram aos pés de todos os americanos. O grande inimigo desses cidadãos é enfim diagnosticado, sendo eles mesmos, inimigos do mundo. Os Estados Unidos e suas raízes vis, perpetradas por governos e governos, gerações e gerações, são naturalmente transgressoras do espaço, assim como são os doppelgängers apresentados, pacientemente dando margem a um plano enigmático. Na premissa do longa-metragem, surgindo abruptamente em frente à casa do grupo, esses antagonistas, cópias dos protagonistas, uma família aparentemente como qualquer outra, transgridem a propriedade privada deles. Esse é um estudo, no horror, de uma área mais ampla àquela explorada em Corra!, agora com o tamanho de um continente e dos seus machucados,  que continuam a estar expostos.

Nada mais americano que banalizar a violência, como serão as mortes encenadas em Nós, por razões mais específicas que uma mera brincadeira com os gêneros. Aos olhos de Jordan Peele, eis a América grandiosa novamente. Grandiosa novamente? Mas será que um dia fora grandiosa, para ser novamente? Como não, só resta a paz, a grandiosidade, tão almejada em lemas presidenciais, ser alcançada assim, pelo vermelho que traja esses “clones” dos personagens, um representante do sangue dos ancestrais mortos. As casas que antes estavam ocupadas serão esvaziadas. Uma grandiosidade caótica e ácida. E que abraçará, em um primeiro momento, extremamente assustador, o sub-gênero de invasão a residências. Os motivos, no entanto, são o que tornará tudo ainda mais preocupador. “Somos americanos”, responde a versão maligna da mãe à pergunta de quem eles são.  É uma exposição óbvia,  mas sintomática dos males propostos.

Jordan é mais esperto quando, ao invés de expor “gratuitamente”, sugere os seus temas, o que acontece em grande parte de Nós. A exceção encontra-se no último ato, tão extraordinário quanto desengonçado. Ótimas reviravoltas estão presentes, o roteiro ganha uma coesão até, embora por meio de um modo verborrágica demais. Há uma cena que nos pede para sentarmos em uma carteira e ouvirmos uma explicação. Mora, agora em Jeremias 11:10, os erros capitais da América: Eles retornaram aos pecados de seus antepassados, que recusaram dar ouvidos às minhas palavras e seguiram outros deuses para prestar-lhes culto.” Os deuses das armas. Os deuses da guerra. Os deuses da conquistas. Os deuses da invasão e do massacre. Curioso que esses antagonistas, tão amedrontadores em seus uniformes – iconograficamente, é marcante também -, não trajem armas, mas tesouras. Eis a reconquista de uma América “grandiosa”, aquela que mata.

Em outra instância, o que Jordan Peele promove com os personagens, os evoluindo com calma, é competente. Movimenta-os para serem mais importantes e maiores ao argumento que uma noção de família qualquer, mais rotineira, como Corra! era. O escopo desse terror anterior de Peele, pautado numa trivialidade, diferencia-se bastante da pretensão de Nós, que não calca-se em uma ideia mais comum, já nascendo no absurdo. Os personagens, então, são rupturas à ordem, como a comédia será uma ruptura, esporádica, ao horror. Fonte de um mistério, Adelaide (Lupita Nyong’o) já teve contato com a sua doppelgänger, por exemplo, quando ainda era uma garotinha, como apresenta o começo do longa-metragem. Nos dias atuais, casada e com duas crianças, a mulher enfrentará essa ameaça de um modo provocativo – começando pelo clássico pavor e estranhamento -, que se unirá progressivamente à vertente cômica de Peele, mudando a sua obra.

Sem saberem a natureza desses personagens com semblantes tão assustadores – e vividos com maestria pelos seus intérpretes, em atuações animalescas e ofensivas à natureza humana -, os espectadores estarão à serviço de mais informações a serem dadas pelo cineasta, mudanças comportamentais nesses antagonistas, possivelmente abraçando a carnificina que presumem. Pelo contrário, Peele oferece mudanças comportamentais justamente aos protagonistas. Renega, em consequência, uma esperança de salvação para a América. São personagens que assumem o assassinato como uma constante a ser aceita, uma invasão de espaço que não significa mais nada. São personagens que contentam-se com uma nova, mas ainda assim tão antiga, ordem. A ordem do massacre. A ordem da invasão. A ordem do roubo de identidade. E assim, a direção, com uma imensa graduação de tom, estará naturalizando esse ambiente vil previamente criminoso.

Quando o terror desponta, em vista da apresentação dos vilões, o gênero é concretizado de uma maneira mais sóbria que posteriormente será, onde brincará com canções irônicas, mescladas à trilha sonora enervante. Enquanto a tensão aumenta, os planos vão se fechando, aproximando-se mais e mais das feições dos personagens. Os atores, novamente ao que já tinha acontecido com Daniel Kaluuya em Corra!, precisam trabalhar os seus rostos como representações cruas do horror. Mais tarde, com a subversão comportamental, certas mortes tornarão-se incômodas – e até causar risos, portanto – por serem um tanto secas, como se não importassem. Isso é acompanhado pelas excelentes atuações dramáticas de Nyong’o e Shahadi Wright Joseph, o gracioso senso cômico de Winston Duke, e a desnorteação de Evan Alex. Também pela fotografia de quem trabalha com David Robert Mitchell, Mike Gioulakis, ótimo com noção de espaço, enquadramentos atmosféricos.

Ao mesmo tempo, o enredo guarda várias surpresas, aumentando continuamente o pensamento conspiratório, e igualmente conseguindo amarrar-se dentro de um raciocínio próprio, no mundo absurdista desse horror. Ignoram-se as coincidências como sendo meras coincidências narrativas, entretanto, pensamentos deterministas do que está acontecendo, de fato, nesses Estados Unidos, quem está sobrevivendo e quem está morrendo. É mais do que um joguinho de aparências, porém, uma cruel abordagem da desistência de Deus. Chegamos à Jeremias 11:11, passagem retomada tantas vezes durante o longa: “Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar a mim, eu não os ouvirei.” Tão determinista é esta passagem, prenunciando – o famoso foreshadowing – um julgamento final, que Deus desistiu dos americanos e da sua América. Roga a eles uma praga apenas, e não dez – os próprios, suas cópias inumanas.

Os menos atentos ao nome original do longa, máxima ao seu simbolismo tão rico e provocador, conduzido com tanta apreensão, irão perder um jogo de palavras extremamente significativo, em que “Us” também significa essa nação cheia de contradições: “United States“. Não é o medo do outro – os mexicanos, os árabes -, mas o medo de nós, dos americanos, capazes de exterminar e roubar e invadir, como qualquer um. Pois o que os seus antepassados foram capazes de fazer? O que os seus representantes são capazes de fazer? Não é um outro, num sentido de ser uma ameaça externa aos Estados Unidos, mas uma ameaça interna. O mais novo projeto de Jordan Peele é um filme de terror como todos aqueles que expurgaram as contradições de uma nação que, agora, nem Deus, o seu “Deus” próprio, interessa-se em salvar. Corra desses Estados Unidos!

Nós (Us) – EUA, 2019
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Evan Alex, Shahadi Wright Joseph, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Kara Hayward, Darrel Cherney, Anna Diop, Yahya Abdul-Mateen II, Duke Nicholson
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.