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Crítica | Nossa Senhora do Nilo

por Luiz Santiago
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Ruanda é um dos poucos países do continente africano que possui apenas um grande grupo cultural e linguístico, o Banyarwanda. Esse grande grupo divide-se em três povos distintos: hutu (a maioria), tutsi e twa (este último, um povo pigmeu, formado por apenas 1% da população). Os fortes embates étnico-políticos entre tutsis e hutus datam do período de colonização belga, que basicamente criou esse princípio de separação à semelhança de castas para controlar melhor certas regiões do país. Entre o final da dominação europeia e o início da independência de Ruanda, em 1962, essa briga se intensificou e o que vemos aqui em Nossa Senhora do Nilo é uma semente do horror que ainda estava por vir, o chamado Genocídio Tutsi que assolou o país entre abril de julho de 1994, encabeçado por milícias hutus.

Adaptando o famoso livro da escritora Scholastique Mukasonga, o diretor afegão Atiq Rahimi (do ótimo A Pedra de Paciência) olha com certo deslumbramento exótico para um colégio interno católico em Ruanda, no ano de 1973, onde garotas de elite dividem dormitório e passam meses do ano juntas, até a conclusão dos estudos. Trata-se de uma crônica que, na maior parte do tempo, nos diz muito sobre os personagens e só em seu encerramento abre o leque desses conflitos individuais para algo de peso na região, historicamente falando, o expurgo de colégios, universidades e setores públicos que os hutus fariam frente aos tutsis em julho de 73.

O convívio e as individualidades de cada jovem constituem o núcleo do filme, mas o diretor não prece muito preocupado em dar a devida atenção para eles. Cada momento dramático onde intrigas pessoais e depois étnicas ganham força (de maneira um tanto abrupta, vale dizer) é interrompido para dar espaço a alguma “curiosidade local”, o que torna a direção trôpega de intenções, mesmo acertando individualmente. A cena da briga de travesseiros no dormitório (Zero de Conduta, alguém?), a cena da dança na chuva e o contato de uma estudante com uma ‘bruxa’ da região são momentos belos em sua constituição, especialmente o da dança, pela marca poética, mas parecem isolados da abordagem geral que o diretor dá ao restante da obra.

Enquanto os primeiros atos de Nossa Senhora do Nilo estabelecem um conflito humano e que perpassa questões de posição social e contestações religiosas (estas últimas, infelizmente, desperdiçadas pelo diretor), o ato final se coloca como uma consequência inevitável, mas pouco orgânica no decorrer de toda a narrativa. O ódio étnico é adicionado aos poucos, mas tanto o roteiro quanto a direção nos fazem entender que se trata apenas de um ato isolado de calúnia, quando na verdade é um problema ainda maior. Isso, porém, nos é entregue como resultado, com o massacre acontecendo, a providencial salvação aparecendo para algumas estudantes e o espectador sentindo a falta de uma ligação mais orgânica entre os blocos.

Em Nossa Senhora do Nilo temos um exemplo de divisão entre pessoas que convivem até um determinado momento de suas vidas, mas que são afastadas e afetadas pelo andamento de uma situação histórica, política ou social. É um filme bonito em sua intenção, com bons momentos entre as garotas do colégio e certos encaminhamentos dramáticos que nos fazem pensar em raízes e tradições, como o lado mágico, no arco da ‘bruxa’. Uma história de compartilhamento e separação através do ódio injustificável.

Nossa Senhora do Nilo (Notre-Dame du Nil) — França, Bélgica, Ruanda, Mônaco, 2019
Direção: Atiq Rahimi
Roteiro: Atiq Rahimi, Ramata Sy (baseado na obra de Scholastique Mukasonga)
Elenco: Amanda Mugabezaki, Albina Kirenga, Malaika Uwamahoro, Clariella Bizimana, Belinda Rubango, Ange Elsie Ineza, Kelly Umuganwa Teta, Pascal Greggory, Carole Trevoux, Alida Ngabonziza, Solange Ngabonziza, Khadja Nin, Florida Uwera, Maryam Momen
Duração: 93 min.

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