Crítica | Nostalgia

estrelas 4,5

Tarkóvski disse certa vez que a última coisa em que ele estava interessado era inventar atrações e seus filmes provaram essa afirmação. De O Rolo Compressor e o Violinista até O Sacrifício, o diretor foi se afastando compassadamente dos enredos complexos, dos fatos organizados, das verdades concretas. Sua carreira começou próxima a coeficientes exatos, poéticos, é verdade, mas não necessariamente metafísicos ou espirituais. De O Espelho para frente, podemos observar nele uma maior paixão pela ideia, pela filosofia, pela imagem em tudo o que ela pode exprimir; pela cor, pela música. O significado fílmico se expandiu tanto que se “perdeu”, tornou-se uma avalanche de representações poderosas projetadas em uma, duas horas na tela, tudo cercado de muita beleza e, às vezes, de muita dor.

Nostalgia é uma espécie de ápice de dor para Tarkóvski. Ele, como todo russo de sua geração, não sabia viver confortavelmente fora de sua terra natal, e essa dor, essa “saudade fatal”, pode ser percebida em todo o espaço visitado e habitado pelo poeta Gorchakov, o protagonista do filme. Esse poeta vai até à Itália pesquisar a vida de um certo compositor russo que estivera na terra da Dante séculos atrás. Enquanto a pesquisa avançava — ou falhava compassadamente — Goncharov se via doente de uma crise aguda de alma e essa dor iria levá-lo a diversas mortes, não antes de encontrar-se com a fé (mas não necessariamente aceitá-la), no sentido teológico menos engessado possível.

O matemático Domenico, por sua vez, faz de si mesmo um mártir do mundo. O que ele é? O homem dos números que despreza o cinismo da ciência, o esnobismo das respostas exatas para tudo? Ele é o inconformado com a maré de gente em que em nada presta atenção e se consome em teorias e dinheiro? Um misto de personagem político e insano, Domenico é o outro lado de Goncharov e ambos personificam um lado de Tarkóvski — seu filme seguinte (e último também) representaria isso de maneira ainda mais crua e lancinante. A esperança falha, o encontro com a fé pode ser a salvação, mas não há provas disso. O que fazer?

A nostalgia do título se faz presente nos mínimos detalhes durante o filme, desde as ruínas da arquitetura italiana à questão da língua, às nuances de luz na fotografia, às muitas imagens poéticas que nos dão a sensação de liberdade ou prisão — os pássaros, a vela, o quarto de hotel. Até o campo ideológico aparece, visto no meio religioso como parte do homem, um encontro de alma com algo que, pelo menos em algum momento — um momento único e pessoal, nunca espalhafatoso — traz paz a quem se dispõe a vivê-lo. Mas tudo tem um preço e, uma vez que o assunto em pauta não é necessária ou unicamente a fé, vemos a doutrina estender os seus dedos regrados para a experiência humana e estragar a epifania, que fica apenas na memória.

A essência de Nostalgia é a lembrança, a memória de momentos únicos e sensações num tempo em que só há ausência. O próprio quarto de Goncharov é um exemplo disso, com sua mínima mobília ressaltando a janela que dá para uma parede e as cores frias por todo o ambiente. E em meio a esse espaço vazio (interior e exterior ao homem), um fator de extrema importância vem se juntar: o efeito do tempo. Tarkóvski verdadeiramente esculpe esse aspecto fílmico, nunca abandonando o sentimento de seus personagens na longa duração das panorâmicas, dos planos gerais, dos takes contemplativos.

Entre esses elementos, sensações e composições diversas, fogo, água, névoa, entulho, terra, frio e calor, Goncharov e Domenico seguem caminhos distintos. O tempo passa para ambos e esse tempo trará também a morte de ambos, mas as decisões que cada um toma em suas retas finais da vida possuem significados que cada espectador pode ler de uma maneira diferente, conforme sua percepção geral do filme. A volta de Goncharov à piscina, o discurso e a atitude final de Domenico (em que ponto a humanidade tomou o atalho errado e veio parar aqui?), tudo indica reações paradoxais: a fraqueza e a força da ação, a atitude e a desistência, a vida e a morte. Da missão recebida ao vazio gerado pela busca sem resultados resta um saldo de fraquezas em oposição à força de toda a história passada. Os personagens, enfim, se entregam ou chegam a um ponto em que a busca não é mais necessária.

Ao término de tudo, uma longa poesia sobre a existência humana foi composta em Nostalgia. A casa de Goncharov agora está dentro de um catedral romana. Os personagens encontram um lugar para si. O meio para isso não importa mais. A realização — mesmo que imperfeita — de um desejo, se deu. A nostalgia se dissipa, se reconfigura e se torna plano de fundo ou explicação para os eventos do passado, em outro plano. Uma parte do tempo termina. Outra parte do tempo começa.

Nostalgia (Nostalghia) — Itália, URSS, 1983
Direção: Andrei Tarkóvski
Roteiro: Andrei Tarkóvski, Tonino Guerra
Elenco: Oleg Yankovskiy, Erland Josephson, Domiziana Giordano, Patrizia Terreno, Laura De Marchi, Delia Boccardo, Milena Vukotic, Raffaele Di Mario, Rate Furlan, Livio Galassi
Duração: 123 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.