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Crítica | Número Zero, de Umberto Eco

Dissecando o jornalismo manipulador.

por Luiz Santiago
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Eu não sabia o que esperar do último romance de Umberto Eco, mas certamente era algo bem diferente disso que tive em Número Zero. Depois de O Cemitério de Praga (2010), com suas reflexões sobre antissemitismo e falsificação histórica, o semiólogo italiano entregou em janeiro de 2015 um livro que estranhamos por sua construção e, no geral, por adotar uma narrativa mais direta… menos ou nada labiríntica se comparada às tramas de seus outros livros. O romance é curto. Li-o em dois dias e fiquei inicialmente impressionado pela forma como o autor, num tratamento mais jornalístico, desmontava o próprio jornalismo e reforçava o jogo de manipulação de massas que a mídia hegemônica faz, mantendo, entre as verdades e fatos incontestáveis do dia a dia, as mais podres mentiras e insinuações que decidem o destino de pessoas e Estados, para dizer o mínimo. Colonna, protagonista fracassado que, aos 50 anos, aceita editar um jornal fantasma chamado Domani, trabalha para um magnata que vai produzir edições #0 nunca publicadas só para chantagear o poder político italiano. A trama se passa em 1992, ano em que a Operação Mãos Limpas revelou décadas do esquema de corrupção Tangentopoli, ou “cidade do suborno“, com mais de 4.800 pessoas presas, metade do parlamento investigado e partidos tradicionais desintegrados. Eco faz um retrato do escândalo que abriu espaço para novas configurações de poder, incluindo a chegada de Silvio Berlusconi ao cenário político, implicitamente sugerido no personagem do Comendador Vimercate. As décadas anteriores tinham sido violentas, cheias de ataques terroristas da extrema-esquerda (Brigadas Vermelhas) e da extrema-direita (Nuclei Armati Rivoluzionari), assassinatos de juízes antimafia, bombas em estações de trem, um clima de paranoia urbana que o cinema italiano transformou no subgênero poliziotteschi, filmes policiais brutais que mostravam o caos das grandes cidades sem romantizar nem heróis nem vilões.

O enredo é essencialmente estruturado nas reuniões da redação do Domani, onde Simei ensina sua equipe a tratar os leitores como crianças, transmitindo notícias importantes com manchetes sensacionalistas e vazias, inventando fontes e destruindo a reputação de quem critica essa prática. A frase-chave vem do próprio editor: “jornais existem não para espalhar informação, mas para esconder, afogando fatos inconvenientes num oceano de bobagens que cansam o público com excesso de informação inútil“. O autor mostra as táticas que grupos jornalísticos usam para fingir que existe um movimento orgânico de opinião sobre um “assunto x“, além das cortinas de fumaça que substituem censura direta porque parecem liberdade de imprensa, enquanto destroem as condições reais para exercê-la de verdade. O livro é cínico em relação à tal da “neutralidade jornalística” (como não ser?), mostrando como cada escolha editorial esconde intenções políticas disfarçadas de profissionalismo e objetividade. Braggadocio, repórter investigativo obcecado por teorias da conspiração, serve de gancho para a trama paralela sobre Mussolini ter sobrevivido à execução de 1945, trocado por um sósia enquanto fugia para a Argentina com ajuda do Vaticano e da CIA. Essa narrativa mistura eventos reais (assassinato de Aldo Moro, morte suspeita do Papa João Paulo I e a Operação Gladio) com especulação maluca, criando uma mistura impossível de separar entre fato e ficção que mostra como teorias conspiratórias se alimentam de buracos reais deixados por instituições que nunca explicaram direito episódios obscuros do próprio passado.

O que eu menos gostei do livro foi a trama sobre Mussolini, que ocupa espaço demais sem ajudar a reflexão sobre a mídia contemporânea (é uma história incrível, mas que deveria ter um livro só pra si). Os monólogos intermináveis de Braggadocio sobre sósias corporais e documentos forjados desviam-se da narrativa central e atrasam a crítica mais importante do volume, parecendo algo encaixado ou que o autor não conseguiu ajustar de forma plena o núcleo do livro, mesmo que fale da mesma prática criticada no volume. Como consequência, temos um livro que cambaleia entre a crítica ácida ao jornalismo manipulador e o thriller conspiratório. O final traz uma curiosa visão arrogante da personagem aparentemente bem informada, que trata a América Latina como destino natural para fascistas escaparem da justiça, clichê problemático (embora não seja falso) que mostra como a população básica da Europa encarnou um o olhar “bananístico” da política latino-americana, esquecendo-se que a mesma coisa poderia ser dita da Suíça, de Luxemburgo, da própria Itália, do Vaticano, da Espanha, dos Estados Unidos, da Coreia do Sul… A frustração do desfecho também vem desse nó estrutural: o livro promete dissecar como se controla uma narrativa, mas dá um espaço exagerado para especulações históricas que, por mais divertidas que sejam para quem gosta de conspirações, enfraquecem o impacto satírico que poderia ter sido devastador se Eco mantivesse foco total nas táticas editoriais do Domani.

Apesar de as práticas reveladas em Número Zero não serem nem um pouco novas, elas se tornaram mais fortes hoje, com a produção industrial de notícias falsas, fim da distinção entre fato e ficção no debate público e uso do jornalismo para objetivos que nada têm a ver com informar. Numa era de algoritmos e redes sociais aumentando de forma absurda as técnicas de manipulação, fica a dúvida se o destino da comunicação de massa será o estabelecimento de algo como o Ministério da Verdade, de Orwell. A obra documenta uma mudança histórica de peso, quando a Itália abandonou o sistema político da Primeira República (1946-1994) e inaugurou uma organização de poder dominada por donos de mídia, antecipando o futuro de democracias ocidentais capturadas por bilionários que controlam ao mesmo tempo negócios particulares e narrativas públicas. Este último livro de Umberto Eco é uma leitura clara da realidade midiática e institucional da Europa (mas que funciona para o mundo inteiro), piorada com o passar dos anos e tendo efeitos cada vez mais tenebrosos para as sociedades de todo o mundo.

Número Zero (Numero Zero) — Itália, 2015
Autor: Umberto Eco
Editora original: Bompiani
No Brasil: Record
Tradução: Ivone Benedetti
208 páginas

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