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Crítica | Nunca Deixei de te Amar

por Luiz Santiago
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Nunca Deixei de te Amar é um remake do clássico Sublime Indulgência (1945) e é constantemente referenciado como “o filme preparado e minimamente dirigido por Douglas Sirk“. Como muitos de vocês devem saber, o sindicato dos diretores nos Estados Unidos possui regras muito duras em relação aos créditos oficiais sobre quem de fato assina o filme. No caso de Never Say Goodbye, porém, essa divisão chega perto de algo justo, já que foi Jerry Hopper quem verdadeiramente trabalhou em todo o filme. O que aconteceu foi que Douglas Sirk, cineasta inicialmente designado para o projeto, foi deslocado dias antes do início das filmagens para trabalhar em Palavras ao Vento (1956). É de Sirk toda a pré-produção da fita e a escalação de Cornell Borchers no papel feminino principal, além da direção de algumas cenas com o ator George Sanders. Mas todo o restante do filme foi assumido por Hopper.

Não há como se enganar em relação à intenção aqui. O filme é um melodrama daqueles bem melosos, contando a história de um casamento que toma um rumo complicado e que, por motivos desenvolvidos de maneira estranha pelo roteiro, coloca Lisa (Borchers) atrás da Cortina de Ferro, enquanto seu arrependido e ciumento esposo Michael (Rock Hudson) passa sete anos procurando pela mulher e criando a filha, que acredita que a mãe está morta. Num primeiro olhar, é o tipo de drama materno capaz de emocionar — e é verdade que chegamos perto disso no final –, mas Hopper não tem a elegância de Sirk ao guiar esse tipo de drama, de modo que progressivamente o enredo ganha uma camada açucarada, atrapalhando diálogos, atuações e a nossa conexão com a obra.

O relacionamento entre Lisa e Michael é quem na verdade assume as rédeas da narrativa após o prólogo, onde vemos Michael exercendo sua profissão (momento com alguns segundos de aparição de Clint Eastwood em cena) e sendo cercado pela filha, de quem é muito próximo. O relacionamento entre os dois chama a atenção. Há um amor muito grande entre eles, e é claramente indicado que Michael está “substituindo” algo que seria o papel da mãe. Aqui também aparecem os primeiros momentos machistas da obra (com alguém dizendo para a criança que por ela ser atenciosa e preparar as coisas com precisão, certamente será uma ótima esposa), fator que piora quando o relacionamento cada vez mais problemático entre Michael e Lisa se estabelece.

A coisa não chega a cair num de ciclo verdadeiramente tóxico, mas caminha para isso. Mesmo sendo um filme “de outros tempos“, esse tipo de relação ganha destaque justamente porque era problemática já nos anos 1950, tanto que a separação e o arrependimento de Michael acontecem justamente porque o roteiro classifica a posição dele como absurda e controladora, dando mais atenção às fofoquinhas da comunidade do que confiando na própria esposa. E a pergunta que isso traz vive até hoje, para todo tipo de relacionamento matrimonial: se não confia no parceiro, por que casar? No tratamento dessas questões amorosas e enquanto Suzy (Shelley Fabares) é ainda bem pequena, as coisas vão relativamente bem com o filme, que está acima da média, apesar da montagem desajeitada e de alguns diálogos absolutamente dispensáveis. O problema de verdade vem no ato final, quando Lisa resolve voltar para casa e assumir o seu papel de mãe, tendo que lidar com a resistência de Suzy.

A proposta é interessante. Uma criança que sempre ouviu o quão maravilhosa era sua mãe e que lamenta o fato dessa mulher tão incrível estar morta, de repente tem um choque: uma mulher aparece e diz “eu sou sua mãe… o que aconteceu é uma história muito complicada para eu te contar agora“. É de se imaginar o impacto emocional que isso tem sobre uma garota e a reação que vemos aqui é, para dizer o mínimo, esperada. Mas toda a reta final do filme parece não conseguir explorar isso. A atuação de Shelley Fabares é terrível nesse ponto (o que me parece estranho, pois ela estava adorável no prólogo) e isso desequilibra a relação entre os outros personagens, derrubando o filme por uma questão dramatúrgica e também por um exagero ao explorar o sentimento entre mãe e filha. Nunca Deixei de te Amar quase consegue se safar das armadilhas recorrentes no melodrama, mas o ato final consegue dar o negativo bote.

Nunca Deixei de te Amar (Never Say Goodbye) — EUA, 1956
Direção: Jerry Hopper, Douglas Sirk
Roteiro: Bruce Manning, John D. Klorer, Leonard Lee, Charles Hoffman (baseado em peça de Luigi Pirandello)
Elenco: Rock Hudson, Cornell Borchers, George Sanders, Shelley Fabares, Ray Collins, David Janssen, Helen Wallace, John Wengraf, Raymond Greenleaf, Max Showalter, John Banner, Jerry Paris, Else Bäck, Robert F. Simon, Frank Wilcox, Clint Eastwood
Duração: 96 min.

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