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Crítica | Nurse Jackie – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Para quem conhece a história da enfermagem, sabe que a trajetória destes importantes profissionais de saúde é material com ótimo potencial para a construção de situações ficcionais. É uma profissão que existe antes mesmo da demarcação cristã de tempo, apesar de não ter o nome técnico que conhecemos nos registros históricos. Inicialmente aplicada por sacerdotes, isto é, pessoas conectadas com o campo religioso, a enfermagem evoluiu e ganhou uma formatação mais encorpada com o advento das necessidades das sociedades industriais. Desde os conflitos bélicos que desenharam a geopolítica do nosso planeta aos ditames da agitada vida contemporânea associada constantemente ao tecnológico, a enfermagem se transformou tão freneticamente quanto outras profissões importantes para o devido acompanhamento das necessidades dos seres humanos dentro de suas dinâmicas sociais. Florence Nightingale, a “mãe da enfermagem moderna”, em Florença, é um dos nomes mais centrais. Temos também Ana Neri, marco da história brasileira envolvendo o trabalho nesta área tão notável, trabalhando inclusive como voluntária na conflituosa Guerra do Paraguai. É um campo com longa história e possibilidades narrativas enriquecedoras.

Dentro do extenso legado cultural das narrativas ficcionais, em especial, os dramas médicos, os enfermeiros e enfermeiras são personagem geralmente com menor importância em programas de sucesso, tais como Plantão Médico, Grey’s Anatomy, House, dentre outros exemplares de renome. Há alguns anos, o cenário tem se modificado. The Resident, atualmente caminhando para a sua quarta temporada, apresenta ao público uma enfermeira como protagonista, assim como Nurse Jackie, série que durou sete anos de textos firmes, situações fora das convenções e desenvolvimento cuidadoso de seus personagens, em especial, o ponto central da narrativa: Jackie Peyton (Edie Falco), nossa amada anti-heroína que atravessou 2009 e 2015 interpretando um papel forte, ousado e desafiador ao longo dos 80 episódios em que esteve como enfermeira da emergência do All Saint’s, hospital de Nova Iorque. Em sua função, ela desafia regras, dribla o sistema, vive um caso amoroso com um funcionário enquanto precisa equilibrar as suas tarefas de mãe e esposa, além de ter que esconder o seu vício em opiáceos. As drogas, para Jackie, são recursos essenciais para conseguir manter a sua rotina de pouco conforto e muita adrenalina.

Ela é uma viciada que consome, quase sempre, três medicações específicas: Vicodin, Percocet e Xanax. O Vicodin, utilizado pela primeira vez em 1982, é constantemente associado ao uso recreativo nos Estados Unidos, uma mistura de hidrocodona e paracetamol, para casos de dores moderadas e fortes. O Percocet, anterior ao Vicodin, de 1976, mescla oxicodona com paracetamol para tratar dores graves dentro de um curto prazo de tempo. No caso do Xanax, utilizado desde 1981, temos uma medicação para TAG (Tensão da Ansiedade Generalizada), comum nos casos de Síndrome do Pânico, etc. Conhecido por esse nome por causa da marca, na verdade a substância se chama alprazolam. São essas as três fraquezas do cotidiano de Jackie Peyton em sua dimensão psicológica como uma viciada que nunca colocou o trabalho em risco por ser usuária, mas acaba por mergulhar em situações conflituosas que aprofundam todos aqueles que gravitam ao seu redor nas mágoas e incertezas de lidar com alguém intempestiva em vários momentos. Diante do vício, entre a primeira e a sétima temporada, a enfermeira protagonista vai ser internada, responderá processo judicial, será afastada do hospital, etc.

Um manancial de emoções não é mesmo? E todos os momentos, sempre acompanhados por outras situações dramáticas envolvendo os familiares e amigos/colegas de trabalho de Jackie Peyton, uma enfermeira que não se inibe ao falar palavrões, relacionar-se sexualmente quando lhe é conveniente, agir sem pensar nas consequências para conseguir driblar os conflitos comuns de um ambiente de trabalho emergencial, dentre outras posturas que a tornam uma protagonista durona e complexa, destemida quando precisa se posicionar com firmeza para resolução de crises, principalmente diante de situações burocráticas. Criada por Lix Brixius, Linda Wallem e Evan Dunsky, Nurse Jackie teve Paul Feig e Jesse Peretz como diretores dominantes desses mencionados momentos de tensão, com maior número de episódios comandados. Exibida pelo Showtime durante as suas sete temporadas, a série abordou a trajetória da enfermeira protagonista e as ramificações em sua vida, com personagens coadjuvantes cuidadosamente desenvolvidos para a distribuição de catarse e demais elementos dramáticos, mesmo que o foco da produção tenha sido mais o humor que a tragédia, necessariamente.

No entanto, numa era de fluidez de formatos e hibridez narrativa, o programa conseguiu se sustentar na seara cômica, pincelada constantemente por traços trágicos, haja vista o cotidiano estressante, cansativo e desafiador da enfermeira, médicos e demais integrantes das dinâmicas internas e externas do hospital. E nesse formato, o programa desenvolve as suas situações com firmeza, sempre a reforçar as considerações dos três criadores sobre o médico a e sua incapacidade de cumprir as suas missões sem os enfermeiros como parte importante do processo, não apenas algo figurativo nos atendimentos, cirurgias, etc. Este era o mote central da série: o protagonismo da enfermagem na figura de Jackie Peyton, figura que teve como acompanhante de sua saga, a enfermeira Zoey Wever (Merritt Wever), a chefe Gloria Akalitus (Anna Deovere Smith), os médicos Dr. Cooper (Peter Facinelli), Dra. Eleanor O’Hara (Eve Best), Dra. Carrie Roman (Betty Gilpin), o enfermeiro Thor Lundgren (Stephen Wallem) e o supervisor do laboratório farmaucêutico, Eddie Walzer (Paul Schulze), seu amante e fornecedor. Na seara familiar, Grace Peyton (Ruby Jerins) é quem mais se destaca diante dos conflitos com a mãe, além de Devin Peyton (Dominic Fumusa), marido inicialmente paciente, mas depois parte do tecido conflitante que envolve a malha cotidiana de Jackie.

Em sua dinâmica estética, Nurse Jackie é um programa que pode ser analisado como uma criação padrão, com alguns momentos mais inspirados, mas no geral, focado na linguagem tradicional dos dramas médicos e suas seguintes estratégias narrativas: na direção de fotografia, os movimentos bruscos e a iluminação sólida, somados aos momentos do coerente uso do ponto de vista para exaltação de pontos dramáticos, dão a forma ao setor de captação de imagens que teve Joe Collins e Chris William Coleman como diretores dominantes, com mais de vinte episódios; o design de produção, no contraste entre o azul e o branco, dá volume aos espaços cenográficos supervisionados por Janet Shaw, setor dirigido artisticamente por Jonathan Arkin, ambos cuidadosos nas peculiaridades que formatam os padrões de uma série ambientada num hospital cheio de macas, instrumentos, medicações, alas e personagens que circundam com os figurinos assinados por Ingrid Price e Suzanne McCabe, ora dentro das fardas convencionais hospitalares e caprichado quando as figuras ficcionais precisam se despojar do lado profissional para curtir uma noitada ou qualquer outro evento que não seja dentro do All Saint’s.

Com episódios que gira em torno dos 27 minutos, Nurse Jackie foi acompanhada musicalmente pelos trabalhos de Lisa Coleman e Wendy Melvoin, trabalho que se reflete também eficiente na série que nunca extrapola sentimentalismo para evitar corroer o seu discurso irônico, tendo a trilha sonora como um setor que ajuda bastante na condução narrativa. Ademais, é uma série eficiente em seu projeto de desmonte na fixidez do olhar apenas profissional de seu personagem principal, delineado de maneira diferenciada das convenções que até então, eram mais “errantes” quando o protagonismo era masculino, e geralmente, médico. Aqui, temos uma enfermeira que é uma cuidadosa trabalhadora, amante de seu ofício, dedicada até mais ao trabalho que a família, mas que no mergulho em sua dura jornada com as drogas mencionadas anteriormente, coloca a sua reputação em risco constantemente. Construída com muito carisma e talento pelo trabalho de Edie Falco, Jackie Peyton é uma das personagens mais bem desenhadas pelo design dramático dos últimos anos no campo dramas médicos, uma figura de complexidade que foge de pequenos padrões para seguir uma trilha de autoconhecimento cheia de atalhos perigosos até o desfecho do 80º episódio, um final circular que tenta ser realista e não facilitar demais as coisas.

Nurse Jackie (Idem, Estados Unidos/2009-2015)
Criação: Liz Brixius, Evan Dunsky, Linda Wallem
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Eddie Falco, MerrittWever, Paul Schulze, Dominic Fumusa, Ruby Jerins, Stephen Wallem, Anna Deavere Smith, Peter Facinelli
Duração: 27 min. (Cada episódio – 80 episódios no total)

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