Crítica | Nurses – 1ª Temporada

Os dramas são relativamente novos. A estrutura, no entanto, encontra-se estabelecida no terreno da dramaturgia há bastante tempo. Recentemente, ao terminar as novas empreitadas no âmbito das séries médicas, pude observar a oxigenação das propostas dramáticas nos episódios da carismática The Good Doctor, bem como uma caminhada política em New Amsterdan, caminhos diferentes da trajetória da terceira temporada de The Resident e dos novos rumos dados para a interminável, esgotada e deliciosamente viciante Grey’s Anatomy, aquele tipo de programa que dizemos “é ruim, mas é bom”. Nurses, produzida pelo canadense Global Television Network e lançada no começo de 2020 é uma produção em dez episódios que já estreou com a renovação para sua segunda temporada. Num elo comparativo com as suas semelhantes expostas anteriormente, é com The Resident que a série guarda mais aproximações, em especial, com desenvolvimento dos elementos estéticos que são praticamente iguais, tendo como diferença a paleta de tons azulados, diferente dos esverdeados cenários do Chastain Hospital.

Pouco empolgante e morna no tratamento dos conflitos de seus personagens, Nurses pode se gabar de ser diferente por seu foco na enfermagem, setor coadjuvante ou com parcela menor de protagonismo em cena quando comparado aos médicos cirurgiões e seus dramas profissionais e pessoais. Criada por Adam Pettle, a série com episódios que alcançam uma média de 42 minutos traz Laura Good e Anusree Ray como roteiristas mais constantes na temporada, responsáveis pelos textos dramáticos dirigidos por Winnifred Jong, Kelly Makin, Sherry White, Jordan Canning, Stephanie Morgenstern, dentre outros. Tendo o diferencial de ponto nevrálgico na observação da dinâmica dos enfermeiros, falta ao material mais vida própria. Os dilemas são clichês, os desdobramentos da chegada dos jovens ao hospital e as demandas são óbvias e, algumas vezes, não conseguem ser humorado como acredito que eles imaginam que sejam. No St. Jude Hospital, eles buscam ajudar uns aos outros enquanto fornecem o apoio aos pacientes.

Com narração em off de uma das enfermeiras mais centrais da história, algo adotado ao longo das dezesseis temporadas de Grey’s Anatomy, um dos pontos mais marcantes e característicos da produção, por sinal, é o que fornece o tom da abertura e do desfecho de cada um dos dez capítulos da jornada destes personagens, mergulhados em suas inseguranças, anseios e desejo de prosperar ambiente habitado por mentores nada educados e pacientes com os seus orientandos, outro clichê já esperado para criar as tensões em determinadas passagens. Grace (Tiera Skovbye) é uma jovem idealista que passou por situações nada nobres na experiência profissional anterior, ocasião do assédio de um médico que acaba se tornando um dos membros do hospital em que ela trabalha, combustível para os problemas que ela precisará enfrentar diante de um homem cínico e calculista, ciente de seu poder de barganha dentro do ambiente de trabalho. A jornada da personagem envolve, aos poucos, sem excessos, delineada ainda mais nos episódios próximos ao desfecho da temporada.

Quem chega junto a experiencia é Naz (Sandy Sidhu), jovem que vem de uma família rica e sequer sabe arrumar uma cama de paciente, pois ao confessar para a sua gestora, nunca precisou fazer nada em casa, numa existência de princesa, tomada por luxo e conforto. Ela precisará desenvolver novos hábitos para conseguir se manter neste ambiente de hostilidade, pressão que fica em muitos momentos nas entrelinhas, tratado sem a ferocidade e ritmo que fariam de Nurses uma série mais empolgante e menos sonolenta. Keon (Jordan Johnson-Hinds) e Wolf (Donald MacLean Jr.) são os únicos homens do grupo, o primeiro mais ágil e experiente, comunicativo e eficiente no dom da atração, ao cativar logo de cara uma das médicas, diferente do segundo, pacato e introvertido, o contraponto do colega charmoso. Eles todos são supervisionados por Damien Sanders (Tristan D. Lalla), versão canadense da despachada, grossa e às vezes chata Dra. Bailey, de Grey’s Anatomy. Incipientes em suas jornadas, eles vivem diariamente com o medo de perder a oportunidade e necessidade de se manter para pagar o empréstimo estudantil que permitiu proporcionou a formação de cada um.

Nem todo mundo no hospital é hostil. Há o Dr. Evan Wallace (Ryan James), bastante carismático e gentil com os jovens e ciente de que este é um momento crucial de aprendizagem. Quem não pensa assim é Sinead O’Rourke (Cathy White), chefe da enfermagem que trata a equipe por meio de estratégias praticamente militares. Ela, mais adiante, aprenderá algumas lições diante de sua arrogância, espécie de “vingança” dos roteiristas para as posturas hostis da líder que age sempre com discurso mandatório e agressivo. Por mais que ensine, falta tato, talvez pela crença de que seja preciso ser demasiadamente severa para tornar os seus pupilos, pessoas mais preparadas para as adversidades do caótico ambiente de trabalho. Por falar em adversidades, os casos que deveriam ser mais conflituosos descambam para uma exposição letárgica de atendimentos. Deixo como ilustração o episódio de abertura, sobre o ataque da van inspirado numa situação real, ocorrida em 2018. Aqui, descobrimos que o automóvel que atingiu um grupo grande de pessoas era guiado por um motorista racista e misógino.

É algo que se tornará alvo dos dilemas de uma das enfermeiras que fica sem saber se o trata adequadamente ou é menos atenciosa como parte de um julgamento antecipado para a criatura criminosa. Mas, afinal, o que a letargia tem a ver com isso tudo? Esclareço: diante de movimentos conflituosos entre personagens, a série trata tudo com uma arrastada exposição de diálogos e ações, sem permitir que a situação ganhe a devida combustão para permitir ao episódio piloto, o tom de entretenimento e crítica social adequado para tornar Nurses um seriado com mais vida. No campo estético, os personagens circulam por espaços iluminados com bastante luz branca, recurso associado aos tons azulados da direção de fotografia, tomada por paletas do mesmo tom, em consonância com o design de produção de John Dandertman, setor que coaduna com as regras básicas da visualidade das séries médicas. Acompanhados pela música da dupla formada por Ian LeFeuvre e Benjamin Pinkerton, às vezes pouco intrusiva, os enfermeiros circulam por dez episódios com quase ausência de sangue, comparado aos seus semelhantes televisivos.

Ademais, do começo ao fim, contemplados com alguma resistência pela sensação de mais do mesmo, a história dos personagens nos faz refletir sobre o lugar destes profissionais no interior dos centros hospitalares das séries do segmento, geralmente interessadas em dar verniz mitológico aos médicos desbravadores, corajosos, sagazes, etc. Isso a torna, como exposto, relativamente diferenciada, mas ainda com “bradicardia dramática”, diagnóstico que pede o investimento urgente de atropina narrativa. E, caso o quadro se agrave, um marca-passo dramático para fazer os movimentos ganharem mais ritmo. Para concluir, nestas séries, para os enfermeiros, geralmente fica a postura de coadjuvante figurante. Será que é mesmo assim? Responsáveis por questões de logística e condução dos pacientes em procedimentos, o profissional deste setor possui amplas atribuições. A função que surgiu do processo do cuidar, da realização de tratamentos em seres humanos, dentre outras atividades estratégias que tornam o hospital um organismo vivo intenso. Nurses não consegue apresentar essas possibilidades muito bem, algo que ao menos não é entregue ao espectador, mas parte da nossa recepção crítica.

Nurses (idem, Estados Unidos/2019-2020).
Criação: Adam Pettle
Direção: Ken Girotti, Grant Harvey, Kelly Makin, Jordan Canning
Roteiro: Laura Good, Anusree Roy, Adam Pettle
Elenco: Tiera Skovbye, Natasha Calis, Jordan Johnson-Hinds, Sandy Sidhu, Donald MacLean Jr., Cathy White, Ryan-James Hatanaka, Tristan D. Lalla, Nicola Correia-Damude, Alexandra Ordolis
Duração: 45 min (cada episódio – 22 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.