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Crítica | O Abominável Dr. Phibes

por Rafael Lima
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Vincent Price, ao lado de Christopher Lee e Peter Cushing, formou o grande triunvirato de Cavalheiros Do Horror entre os anos 50 e os anos 70, tendo presença garantida em clássicos do gênero neste período. Mas o que destaca Price dos seus dois companheiros igualmente brilhantes, é que ele abraçou com vontade a mítica e o Type Cast criado em torno de sua figura (especialmente devido a sua parceria com Roger Corman em um ciclo de adaptações de Edgar Allan Poe produzidas anos 60). Nos anos 70, Price estrelou uma série de produções que basicamente satirizavam a figura dramática e irônica que o ator construiu para si até aquele momento, mas que faziam isso de forma respeitosa ao cavalheiro do horror, evitando assim transformá-lo em uma autoparódia. O filme mais famoso e celebrado dessa fase da carreira de Price é sem sombra de dúvidas O Abominável Dr. Phibes, comandado por Robert Fuest em 1971.

Na trama situada na Londres da década de 1920, médicos têm sido assassinados em circunstâncias bizarras. O assassino é o enigmático Dr. Anton Phibes (Price), um musicista dado como morto em um acidente de carro, enquanto dirigia para ver a sua esposa Victoria (Caroline Munro), que também havia sofrido um acidente, e estava recebendo atendimentos médicos, falecendo durante uma cirurgia para salvá-la. Inconformado, Phibes culpa a equipe médica pela morte de sua esposa, e passa a matá-los um por um, com a ajuda de sua misteriosa assistente Vulnavia (Virginia North), baseando cada crime em uma das pragas bíblicas do Egito.

Escrito por James Whiton e William Goldstein, O Abominável Dr. Phibes abraça com gosto a sua natureza exagerada, seja nos assassinatos altamente elaborados planejados por Phibes, seja nos discursos quase shakespearianos dados pelo vilão do título para a sua esposa morta. Há uma autoconsciência muito forte do roteiro do quão hiperbólica é a sua história, o que permite ao texto divertir-se com o exagero. Isso também pode ser percebido na forma como o filme trata a investigação conduzida pelo Inspetor Trout (Peter Jeffrey), o primeiro a perceber uma conexão entre os assassinatos cometidos pelo Dr. Phibes. Há uma boa quantidade do típico humor ácido britânico nas sequências investigativas, que além de divertido, funciona como mais um reforço do quão absurdo e surreal é a campanha de assassinatos conduzida pelo antagonista. A criatividade nas sequências de assassinato também são dignas de nota, especialmente pela forma como referenciam as pragas bíblicas.

A estética do filme acompanha toda a loucura sangrenta proposta pelo roteiro. A direção de artes abusa de cores fortes e extravagantes para construir a sua identidade visual. Basta reparar, por exemplo, na decoração presente no teatro abandonado que serve de covil para Phibes; um ambiente construído em estilo Art Deco, cheio de detalhes dourados e vermelhos, pra não falar do grande órgão enfeitado com neon roxo ocupando lugar de destaque no cenário. As cenas de assassinato seguem essa característica, vide a cena situada em um baile de máscaras multicolorido, em que um homem tem a cabeça esmagada por um mecanismo escondido em uma máscara de rã, onde o sangue vermelho mancha o verde vivo da máscara. 

A direção de Fuest e a montagem colaboram com o clima quase absurdo perseguido pela narrativa. As cenas onde Phibes e Vulnavia dançam sozinhos ao som da orquestra mecânica do vilão ajudam a construir o clima de insanidade e exagero da obra, já que essa mesma dupla é responsável por uma campanha de homicídios. Tais cenas poderiam facilmente soar soltas, mas a boa montagem consegue inseri-las sem roubar o ritmo do filme. Também é interessante observar como Fuest consegue dar um ar perturbador para as sequências de assassinato, mas sem abrir mão do caráter farsesco do longa metragem.

Mas O Abominável Dr. Phibes é mesmo o show de Vincent Price. Como dito no começo da resenha, Anton Phibes guarda muitas semelhanças com os personagens atormentados que o ator se acostumou a interpretar, mas Price ainda entrega um desempenho bastante particular no papel. O grande vilão da obra teve o rosto desfigurado no acidente que quase o matou, e para escondê-lo, usa uma máscara que simula o seu antigo rosto. O personagem só é capaz de falar por um dispositivo que conecta o seu pescoço á um gramofone, dando a Price a chance de cria um contraste interessante entre os discursos apaixonados e melodramáticos de Phibes com a expressão praticamente congelada em seu rosto (ele nunca abre a boca), resultando em uma atuação bastante calcada na expressão corporal e no olhar. O elenco de apoio é igualmente competente em seus papéis. Peter Jeffrey dá grande classe ao seu Inspetor Trout, dando ao personagem o humor que a história exige sem ridicularizá-lo. Joseph Cotten como o Dr. Vesalius (o único dos alvos do Dr. Phibes a ganhar algum desenvolvimento) também entrega um bom trabalho, fazendo o papel do homem comum dentro de toda a loucura teatral proposta pela obra.

O Abominável Dr. Phibes é um filme que presta tributo ao terror clássico, ao mesmo tempo em que sabe rir de suas convenções, através de uma história de vingança absurdamente macabra e cheia de cores vibrantes. O Dr. Phibes acabou se tornando um dos personagens mais icônicos de Vincent Price, rendendo não apenas uma sequência lançada no ano seguinte, mas também outros filmes que buscavam explorar a persona midiática do ator, gerando obras divertidas mas não tão eficientes quanto esta pequena pérola de terror e humor sombrio conduzida por Robert Fuest. 

O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes) – Reino Unido. 1971
Direção: Robert Fuest
Roteiro: James Whiton, William Goldstein
Elenco: Vincent Price, Joseph Cotten, Peter Jeffrey, Virginia North, Hugh Griffith, Terry-Thomas, John Laurie, David Hutcheson, Charles Farrell, Thomas Heathcote, Caroline Munro
Duração: 94 Minutos.

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