Crítica | O Aborto dos Outros

O que fazer quando o aborto, tabu em muitas sociedades, é um “mal necessário”. Recentemente, a 15ª temporada da longa Grey’s Anatomy tocou nas cordas sensíveis do tema, ao trazer como um dos conflitos de seu episódio, a busca de uma filha pela identidade de sua mãe biológica, alguém que ela descobrirá, foi fruto de um estupro. Como lidar? O que fazer quando se sabe que é parte de uma história tão dolorosa? Tal exemplo é uma ilustração de momentos extremos. Mas quando uma mulher que interromper a gestação por motivos considerados menos impactantes, tais como o despreparo para a chegada de um filho, etc.?

Depoimentos de diversos tipos pululam na narrativa. Adolescentes estupradas que recorreram ao processo depois de ter o corpo violado abruptamente mesclam-se aos relatos profundos de mulheres que precisam deixar de lado as suas concepções religiosas em prol de fugir do “inferno” na vida terrena. São pequenas falas que cortam nossos corações.  Segundo uma delas, como lidar com o filho, olha-lo todos os dias e conseguir guardar o mínimo de sentimento positivo? A outra, depois que pediu ao marido divórcio, recebeu um sim, mas com uma condição: se relacionar sexualmente, mesmo contra a sua vontade, durante X tempo. O resultado de tal abuso foi excluir o aborto como parte de seu planejamento.

Sem excessos e sentimentalismos que interrompem as reflexões, o documentário O Aborto dos Outros é uma lição de análise sociológica. Carla Gallo capta, observa, analisa, mas mantém o distanciamento necessário para que nos deixe pensar sobre o assunto e conceda às entrevistadas a explanação de seus respectivos pontos de vista. A edição, obviamente, constrói uma narrativa com base em dados selecionados pelos realizadores, o que impede a abordagem imparcial, algo impossível quando estamos falando de discurso. No entanto, a abordagem respeitosa vai além de qualquer temática de cunho feminino e feminista, mas aborda seres humanos adiante de suas angustiantes histórias de superação, traumas, fraqueza e posturas de resistência.

As falas institucionais surgem como um problema. Entendemos que a legitimação se faz necessária para não incorrer em erros no que tange aos dados e especializações, mas não estamos diante de um decreto ou outro documento com especialistas. Neste ponto, os enquadramentos com cabeças-falantes surgem como opiniões que precisam legitimar o sofrimento das personagens, algo que quase apaga a experiência anterior de relatos humanos que precisam de voz para ganhar reflexões de cunho mais amplo.

Ao longo de seus 70 minutos, O Aborto dos Outros nos faz ver um lado da sociedade que não queremos. Não porque é feio ou sem realismo, ao contrário, é a representação cabal da miséria humana que buscamos desconhecer para não sucumbirmos psicologicamente. O sexo é um tabu, o abordo idem. Quando falamos de casos de estupro, a situação é ainda pior. O que se discute então, com introdução de questões oriundas de crenças religiosas e formas tradicionais de viver é o impacto do aborto no corpo da mulher/adolescente, o processo traumatizante e o estigma social. A falta de políticas públicas é outra celeuma que constantemente impede a cicatrização da ferida, ainda muito problemática dez anos depois de seu lançamento.

O Aborto dos Outros — (Brasil, 2008)
Direção: Carla Gallo
Roteiro: Carla Gallo
Elenco: anônimos
Duração: 72 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.