Crítica | O Adversário Secreto, de Agatha Christie

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__ […] Eles não devem ter a menor noção de que nós os estamos utilizando para atingir os nossos próprios objetivos. São homens honestos, e esse é o seu maior valor para nós. É curioso, mas não se pode fazer uma revolução sem homens honestos. O instinto do populacho é infalível […] Toda revolução tem seus homens honestos. Depois eles são logo descartados.

Conhecido aqui no Brasil pelos títulos de O Adversário Secreto e também O Inimigo Secreto, este segundo romance de Agatha Christie, publicado em janeiro de 1922 (ainda parte do contrato de cinco obras que assinou com o seu primeiro editor), apresenta para o público a dupla Tommy (Thomas Beresford) e Tuppence (Prudence Cowley) em uma intensa, divertida e intricada aventura de espionagem.

Como também acontecera em O Misterioso Caso de Styles, livro de estreia da autora, as marcas e consequências da 1ª Guerra Mundial podem ser sentidas ao longo de toda a leitura, começando por aquilo que dá origem ao grande mistério, um encontro no naufrágio do RMS Lusitania, torpedeado por um submarino alemão em 7 de maio de 1915. É aí que a jovem americana Jane Finn, de 18 anos, receberá uma incumbência que mudará para sempre a sua vida e que poderá mudar para sempre não só a Inglaterra, mas a cara do mundo democrático em todo o Ocidente.

Fortemente apegada ao clima de guerra (embora o corpo da história seja o período após a assinatura do Tratado de Versalhes), flertando com o medo já fortemente espalhado do socialismo após a Revolução Russa (ainda não existia a União Soviética, que viria a ser fundada em 30 de dezembro de 1922, onze meses depois do lançamento deste livro) e muito atenta ao comportamento social, político e cultural europeu no período entre-guerras (1919 – 1939) Agatha Christie consegue fazer valer aqui a aparição dos Jovens Aventureiros (The Young Adventurers), iniciativa de investigação formada por Tommy e Tuppence, amigos de infância que serviram na guerra e agora não possuem emprego, vivem com pouquíssimo dinheiro e um certo ar de melancolia que só vai desaparecendo à medida que a aventura cresce e eles têm muita coisa para fazer e enfrentar.

O romance é um misto de simpatia e comicidade, vindo dos excelentes protagonistas (duas construções de personalidades maravilhosas da autora), características que vão se costurando aos clichês do gênero suspense/espionagem, embora o uso realmente problemático do clichê aqui seja apenas no começo. É muitíssimo forçosa a quantidade de coincidências e conveniências que vemos ser utilizada como trampolim para a criação dos Jovens Aventureiros, mas quando passamos desse momento, acabamos comprando facilmente a narrativa porque os personagens são bons e porque o texto começa a trazer ótimas passagens, tendo bom uso até mesmo para os clichês amorosos, inclusive no final do livro, onde normalmente esse tipo de detalhe tende a dar problema.

A autora aqui trabalha com muita ação e divide o livro em basicamente em três partes, sendo o início e o fim com os protagonistas juntos e o miolo do volume com uma parte dedicada às aventuras de Tommy e outra às aventuras de Tuppence, estando esses dois estágios dos jovens ligados principalmente aos seguintes personagens: Julius P. Hersheimer, milionário americano e primo da desaparecida Jane Finn; Mr. Carter homem da inteligência britânica ligado aos mais altos patamares do governo; e Sir James Peel Edgerton, influente advogado de defesa e membro do Parlamento Britânico. Esses personagens buscam por um “inimigo secreto”, o temido Mr. Brown, e veem crescer diante deles os perigos de se colocar no caminho de uma organização político-ideológica, que manipula grevistas e sindicatos e que pretendia tomar o poder.

A autora claramente se diverte refletindo o pensamento de sua época e exagerando algumas questões para fazer com que a trama de espionagem se tornasse ainda mais forte. Isso funciona em diferentes níveis no decorrer da obra porque o leitor tanto procura encontrar a cobiçada Jane Finn, quanto deseja identificar quem é o infame Mr. Brown. Essa abordagem faz com que o texto permaneça o tempo inteiro interessante e abrindo possibilidades orgânicas de ação para todo mundo, sem que a autora precisa forçar mais nada depois da introdução. Somado à boa construção de todos os personagens e a um intenso deslocamento dos investigadores e dos criminosos por cidades, casas, meios de transporte, hotéis e rodovias, temos um livro abarrotado de bons momentos e capaz de nos prender o tempo inteiro ao seu enredo, rememorando um tempo onde qualquer um podia ser um “inimigo da pátria” em potencial, um secreto adversário pronto para acabar com a soberania de uma nação democrática, medo que só iria crescer daí para frente, alcançando o ápice durante a Guerra Fria. Mas deixemos isso para futuros livros da Rainha do Crime…

O Adversário Secreto / O Inimigo Secreto (The Secret Adversary) — Reino Unido, janeiro de 1922
Autora: Agatha Christie
Arte da capa original: Ernest Akers
Editora original: The Bodley Head
No Brasil: Globo Livros, 2014
Tradução: Renato Marques de Oliveira
384 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.