Crítica | O Afogado Mais Bonito do Mundo, de Gabriel García Marquez

“[…] Mas também sabiam que tudo seria diferente desde então, que suas casas teriam as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Estevão pudesse andar por toda parte […]”

O realismo fantástico de Gabriel García Marquez é uma das correntes estéticas literárias mais importantes do século XX. Mais conhecido por seus magníficos romances Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera, o escritor colombiano não foi menos prolífico e talentoso como contista, embora essa parte de sua produção não seja tão comentada como as obras já citadas (maior mérito delas do que demérito de seus contos). Particularmente, um de seus contos mais curtos e mais interessantes – O Afogado Mais Bonito do Mundo – funciona como uma das mais belas alegorias sobre a América Latina já construída. A esse texto, que está presente em seu livro de contos A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada e Outras Histórias, é preciso indubitavelmente dar alguma margem para interpretações, já que é constituído de signos em aberto. Mas, por outro lado, vejo a necessidade de localizá-la dentro do escopo da obra do colombiano e dos temas que lhe são mais caros.

Assim sendo, a história do enorme corpo de um afogado, que chega às praias de um vilarejo sem nome nem localização certa, chama atenção por conter algumas das características mais típicas da prosa de García Marquez: um acontecimento fantástico que perturba a ordem pregressa, um cenário tipicamente latino-americano (povoado por figuras emblemáticas de nossa história) e a ressignificação do evento por meio de crenças calcadas nos costumes, na religiosidade e na cosmologia locais. O inominado vilarejo de pescadores contém muito da fantástica Macondo, de Cem Anos de Solidão, afinal de contas ambas as cidades permanecem em enorme isolamento, pertencendo ambas ao mais ermo dos mundos. Mas, ao contrário do que ocorre no famigerado romance, haverá aqui uma metamorfose operada de fora para dentro. Observe-se que o cataclismo final, que condena “todas as estirpes ao cem anos de solidão”, é substituído de fato por uma nova perspectiva de auto-imagem do latino-americano.

Se, na abertura do conto, tenta-se explicar o volume escuro flutuando no mar por meio dos elementos que o habitante já conhecia, tais como “um barco inimigo” ou “uma baleia”, o final inacreditavelmente belo inserirá elementos inéditos ao imaginário local, como “flores “semeadas nas escarpas” e “perfumes de jardim em alto-mar”. García Márquez chega a suscitar de forma quase cinestésica essa mudança: um povoado acostumado apenas aos odores do mar agora exalava aos navios que passavam por perto (metáfora dos estrangeiros do Primeiro Mundo) os seus perfumes mais próprios. O responsável pela transformação era Estevão, nome que em espanhol tem forte relação com força e virilidade. A metáfora do corpo majestoso de um afogado é a do sonho latino-americano de se tornar um continente realmente grandioso. Sonho afogado e esquecido nas águas do próprio mar caribenho, mas trazido pelas mesmas para nos lembrar quem realmente somos. Identidade negada historicamente por nós mesmos: “e todos prenderam a respiração durante a fração de séculos que demorou a queda do corpo até o abismo”.

É curioso, inclusive, que a primeira reação dos homens da vila diante da admiração das mulheres pela beleza de Estevão tenha sido a de expressar ciúmes. O medo absolutamente fantasioso do adultério pode ser lido nesse contexto como uma ruptura histórica indesejada até mesmo pelos aldeões de García Marquez. Esquecidos de quem eles mesmos um dia foram enquanto povo, seu primeiro instinto foi o de rejeitar o estranho que chegava ao vilarejo como uma ameaça. Interessante também é o fato de as mulheres se admirarem tanto pelo afogado e, especialmente, ter cabido à mais velha delas nomeá-lo como Estevão. Às mulheres, enquanto geradoras e perpetuadoras da vida, coube o reconhecimento imediato da beleza daquele corpo como numa reminiscência atávica da grandiosidade esquecida do povo latino-americano. Extraordinariamente belo é o momento em que elas revelam aos homens o rosto de Estevão e eles mesmos, contrariando qualquer razão (afinal, estamos no realismo fantástico), também o reconhecem. Todo o trabalho alegórico do colombiano é cuidadoso.

O Afogado Mais Bonito do Mundo, valendo-se de uma prosa bem mais simples e mais compacta que Cem Anos de Solidão (é impossível pensar um sem se remeter ao outro), consegue encapsular não exatamente a história da América Latina, que não caberia em uma singela história de nove páginas. O conto de García Marquez é uma síntese com forte sabor fantástico do espírito latino-americano. Tanto de sua altivez quanto de suas mazelas auto-impostas. A prosa rica e calorosa do escritor colombiano vai crescendo em densidade ao longo das páginas e é finalizada de forma profundamente emocionante. Um dos motivos que tornam esse conto tão valoroso é o fato de que todos os personagens comungam da mesma identidade. Todos são latino-americanos. Tanto os que esqueceram as antigas promessas como aquele que retorna para lembrá-las. Tal como Mia Couto, que reclama coragem aos africanos em Os Sete Sapatos Sujos, Gabriel García Marquez recusa o vitimismo. A história dos latino-americanos pertence a eles mesmos. Recolher das águas do mar o que há muito imergiu é a eterna tarefa de todos nós.

O Afogado Mais Bonito do Mundo (El Ahogado Más Hermoso del Mundo) — Colômbia, 1972
Coletânea:
A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira de Sua Avó Desalmada e Outras Hitsórias
Autor: Gabriel García Marquez
Editora: Editora Record
Tradução: Remy Gorga Filho
Número de páginas: 9.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.