Crítica | O Alucinado

O Alucinado, batizado originalmente apenas de El, de 1953, é mais um exemplo de filme da fase mexicana de Luís Buñuel, um longo período de sua carreira em que ele flutuou entre filmes puramente comerciais sem suas assinaturas autorais, outros com alguma “cara” de Buñuel e grandes obras-primas. O Alucinado transita entre os dois últimos tipos de obras dirigidas e escritas pelo grande diretor durante essa época, ainda que o filme seja mais comumente considerado como uma obra menor do diretor. Talvez a dificuldade de acesso a esse filme seja uma das razões para essa conclusão mais genérica, mas, aqueles que acompanham a filmografia do autor aragonês e tiverem a oportunidade de ter acesso a essa obra, provavelmente não se arrependerão.

El conta a história de Francisco Galván de Montemayor e Glória Milalta. Francisco é um aristocrata mexicano, de meia-idade, vivido sensacionalmente por Arturo de Córdova e Glória é uma jovem argentina, de boa estirpe, vivida por Delia Garcés. Glória está noiva de Raul Conde (Luis Beristáin), mas, ao esbarrar em Francisco em uma igreja, o amor à primeira vista os arrebata e eles se apaixonam. Glória, porém, ainda reluta, briga contra seus sentimentos mais primais. No entanto, com a insistência e a corte de Francisco, acaba cedendo e se casando com ele. Esse tipo de amor arrebatador seria abordado novamente por Buñuel, ainda em sua fase mexicana, em Escravos do Rancor, logo no ano seguinte.

Mas aí é que os problemas – e o filme – verdadeiramente começam. A personalidade possessiva e paranoica de Francisco começa a se mostrar, de pouco a pouco, com sinais discretos aqui e ali que vão se amontoando e se intensificando. A obsessão de Francisco, que acha que o mundo conspira contra ele, começa a seriamente afetar o casamento e a destruir a vida de Glória, que passa, basicamente, a ser uma prisioneira do marido, com ela sendo proibida de sair de casa, já que ele acha que todo homem que passa por Glória é seu amante ou, no mínimo, amante em potencial.

Acompanhar a construção do personagem de Arturo de Córdova é como assistir a uma adaptação do clássico O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Francisco vai se transformando em um ser disforme, completamente diferente daquela pessoa que Buñuel nos apresenta no começo do filme, ainda que as pistas de sua mudança estejam todas lá, basta procurar. De acanhado ele se torna brigão, de educado ele se torna grosso, de delicado ele se torna abusivo. O ator que o vive faz um trabalho sensacional e sua canastrice inicial revela-se uma excelente tática teatral para realçar seu lado paranoico mais adiante.

Buñuel, com direção segura, mais esconde do que mostra, deixando-nos aflitos pela vida de Glória. Sob muitos aspectos, esse é o filme mais tecnicamente irreparável do diretor que, pasme, teve apenas três semanas para filmá-lo. Ele introduz a narrativa com três claros atos, sendo o primeiro o da paixão imediata. O segundo é uma interessante e bem colocada elipse que insere o espectador imediatamente sob o ponto de vista narrativo de Glória procurando por ajuda, mas não encontrando apoio em ninguém. Finalmente, no terceiro ato, vemos o marido obsessivo, cruel e maluco referenciado no terço anterior.

É particularmente interessante reparar, por exemplo, como Buñuel consegue manipular a percepção do espectador utilizando a moradia de Francisco. Ela é, no começo, uma bela mansão com um magnífico átrio que logo chama a atenção. No entanto, ao longo do filme, sem alterar o cenário, Buñuel começa a trabalhar a câmera para focar em detalhes da decoração que refletem a mente retorcida do dono. A casa é um eco de Francisco, uma espécie de teia de aranha que só está esperando a presa grudar nos fios e Glória, incauta, cai na armadilha. E, junto com Glória, vão todos os espectadores nesse emaranhado manipulador de Buñuel que não se furta em utilizar de seu passado surrealista para emprestar a determinadas passagens a qualidade de sonho – ou pesadelo – considerando a situação de Glória.

É ver para crer, mas O Alucinado é, sem dúvida alguma, uma das pérolas esquecidas do diretor aragonês que entrega uma obra assustadora e, mesmo empregando sua visão única, muito realista, infelizmente. Um tesouro que precisa ser descoberto nessa confusa fase da vida do cineasta.

  • Crítica originalmente publicada em 26 de abril de 2013. Revisada para republicação em 09/05/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

O Alucinado (El, México – 1953)
Direção: Luís Buñuel
Roteiro: Luís Buñuel (baseado em romance de Mercedes Pinto)
Elenco: Arturo de Córdova, Delia Garcés, Aurora Walker, Carlos Martínez Baena, Manuel Dondé, Rafael Banquells, Fernando Casanova, José Pidal, Roberto Meyer, Luis Beristáin
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.