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Crítica | O Amante de Kathy Tippel

O primeiro drama histórico cinematográfico de Verhoeven.

por Ritter Fan
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O título em português do terceiro longa-metragem de Paul Verhoeven não só é enganoso, como é um desserviço à famosa autora holandesa Neel Doff que legou suas memórias para a posteridade e que é a Kathy (na verdade, Keetje) Tippel do título, já que ela passou horrores em sua vida e a versão nacional parece indicar que o foco é em seu amante e não nela. O título original – apenas o nome do alter ego da autora, que foi refletido em diversos países do mundo – não só é bem mais honesto, como infinitamente mais respeitoso.

Feito esse preâmbulo necessário, O Amante de Kathy Tippel conta os detalhes da vida da personagem-título desde sua chegada em Amsterdam em 1881, vinda da cidade rural de Stavoren com sua numerosa e paupérrima família, até sua ascensão na sociedade holandesa, tudo tendo como pano de fundo o crescimento do socialismo na Holanda e os protestos por melhorias socioeconômicas. Originalmente muito mais ambicioso, com o roteiro de Gerard Soeteman trabalhando os acontecimentos macro em paralelo à vida de Keetje, o orçamento precisou ser revisto e reajusto, com a exclusão das sequências que exigiriam não só uma duração muito maior, como dinheiro vultoso para torná-las possíveis. Com isso, o filme inegavelmente perdeu bastante em sua crítica social, ainda que ela permanece lá para quem souber “ler” o longa.

O retorno de Soeteman em uma parceria com Verhoeven – a terceira seguida no cinema – não foi a única repetição patrocinada pelo cineasta que, provavelmente seguindo a máxima de que em time que está ganhando não se mexe, especialmente em razão do estrondoso sucesso de seu Louca Paixão dois anos antes, contratou Jan de Bont mais uma vez como diretor de fotografia e, não satisfeito, a mesma dupla de atores de antes: Monique van de Ven e Rutger Hauer. No entanto, diferente do longa que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional, que equilibrava a presença em tela deles dois, O Amante de Kathy Tippel é, inafastavelmente, um longa de Van de Ven. É a atriz que carrega a obra nas costas, com sua atuação que começa inocente no navio que leva sua família até Amsterdam e que amadurece vertiginosamente em razão dos horrores que sua personagem passa quase que imediatamente ao colocar os pés na nova cidade, promessa de emprego e dinheiro para todos. Hauer é, apenas, um coadjuvante, quase um extra de luxo, algo que deixa ainda mais evidente o quanto o título em português é sem sentido.

Verhoeven faz uma divisão em dois claros momentos. Toda a primeira hora é dedicada exclusivamente à Keetje, que precisa trabalhar em subempregos horríveis, aceitar assédio, abuso e estupro de homens, prostituir-se e, talvez o pior de tudo, receber a mais profunda indiferença de todos ao seu redor, inclusive e mais assustadoramente, de sua própria mãe. A fome e a miséria transformam as pessoas em objetos para uso de quem tem meios e o diretor não se furta em trabalhar em detalhes excruciantes as diferenças entre as classes sociais. Se toda (ou quase toda) a nudez e sexo que vemos em Louca Paixão servia para estabelecer a literal louca paixão entre os protagonistas, aqui a nudez e o sexo são instrumentos para degradar Keetje como, claro, representante do sexo feminino.

A segunda hora (ou os 47 minutos finais, para ser preciso) lidam com a entrada efetiva de Hugo (Hauer) na história, um bancário da classe média que, claro, acaba mudando a vida da protagonista, que passa a viver aquilo que ela sequer podia imaginar que existia em sua miséria completa. A mudança de atmosfera no filme chega a ser talvez exagerada demais, com a belíssima fotografia de Jan de Bont, que trabalha tons escuros como um Rembrandt do audiovisual (não estou fazendo comparação, apenas dizendo que o diretor de fotografia quis emular o grande pintor holandês, por favor!!!), é subitamente trocada para algo claro e radiante que combina com o humor constantemente alegre da protagonista, mas que causa uma quebra narrativa forte demais, que poderia ter sido suavizada.

Mas é nessa segunda parte que o roteiro de Soeteman começa a mostrar suas garras, garras essas que o sempre inteligente Verhoeven muito claramente abraça de coração. Quem enxerga este longa como uma condenação do capitalismo ou só enxerga o que quer ver ou não tem ideia de quem é Verhoeven. E não, não quero de forma alguma dizer que o filme é um elogio ao capitalismo também, pois o cineasta nunca se deixou levar por obviedades assim (ele é tão preciso no que faz que, hilariamente, até hoje tem gente que acha que seu Tropas Estelares é um filme pró-guerra..), mas O Amante de Kathy Tippel se refestela na hipocrisia do Homem. Keetje sofre com a indiferença de todos, mas, no momento em que tem um chance na vida, não olha para trás, sequer ajuda sua família. Hugo, mesmo tendo dinheiro, reclama que não tem o suficiente e vive sua vida de bancário concedendo ou negando empréstimos a quem precisa. A gangorra narrativa entre os que têm e os que não têm, na segunda parte do filme, é um primor narrativo que, no melhor estilo de Verhoeven, existe para incomodar as duas pontas desse eterno conflito, pois, ele sabe muito bem, que nada é resolvido com um estalar de dedos.

O Amante de Kathy Tippel pode não ter sido o que Verhoeven e Soeteman realmente queriam em seu projeto inicial, mas o longa, sem dúvida alguma, retém muito da força que a dupla imaginou imprimir no que seria um épico histórico inteligentemente ambíguo. Com design de produção que magnificamente reconstrói a Amsterdam do final do século XIX (ajudado pela cidade em si, que parece até hoje “congelada no tempo”), alfinetadas eficazes, fotografia deslumbrante pelo menos na primeira hora e uma atuação iluminada de Monique van de Ven, Paul Verhoeven mais uma vez mostra porque é um dos maior importantes cineastas de seu país.

O Amante de Kathy Tippel (Keetje Tippel – Holanda, 1975)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Gerard Soeteman (baseado em romance de Neel Doff)
Elenco: Monique van de Ven, Rutger Hauer, Peter Faber, Andrea Domburg, Hannah de Leeuwe, Jan Blaaser, Eddie Brugman, Jennifer Willems
Duração: 107 min.

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