Crítica | O Anjo Azul (1930)

Em 1934, o diretor Jean Vigo, com seu filme Zero de Conduta, mostrava a rebelião juvenil dentro de um sistema educativo extremamente repressivo, no qual os adultos eram representados de maneira caricata. Recorro a esse anacronismo de quatro anos e uma comparação até inusitada para, basicamente, dizer que O Anjo Azul, de 1930, é como o outro lado da mesma história. Em contraste a energia anárquica de Vigo, o longa de Josef von Sternberg é rígido e melancólico, dando protagonismo, desta vez, a um acadêmico, Immanuel Rath (um espetacular Emil Jannings), uma figura repleta de conservadorismo. Apesar disso, não é ele quem é unidimensional, mas justamente seus alunos, retratados como meros agentes do caos e da perversão dos valores tradicionais.

Logo na cena em que o professor é apresentado, já conhecemos um pouco de sua personalidade solitária. Isso se dá tanto pela decoração da sua casa, que literalmente parece ser só um amontoado de livros empilhados, quanto por sua ritualidade na hora de tomar café. Além disso, seu passarinho acabara de morrer, quase como se a tristeza perseguisse este homem, prenunciando o que virá a seguir. Em seguida, Sternberg faz questão de apresentar uma sequência acômica dentro de uma sala de aula. Assim, nossa primeira impressão de Rath é a de uma figura inflexível — ele briga com os alunos por pronunciarem palavras erradas — ao mesmo tempo que assoa o nariz de maneira bem tosca. Ao descobrir que seus pupilos andam distraídos por estarem indo ao cabaret O Anjo Azul, estando fascinados pela performista Lola-Lola (Marlene Dietrich), o protagonista decide ir ao local impuro para realizar um flagra naqueles estudantes. 

A partir de então, o que acontece em O Anjo Azul é este encontro de mundos, entre o moralismo do professor e a vulgaridade do cabaret. Quando entra nos bastidores da apresentação pela primeira vez, ele se depara com este ambiente exótico, no qual seu diálogo com Lola vai sendo interrompido por palhaços e ursos que passam, praticamente como se estivesse em um pesadelo dentro de um território desconhecido. Aos poucos, a sedução da performista vai desarmando aquele homem, até que ele se torne um bobo apaixonado por ela. Trata-se de uma desconstrução gradual de personalidade, com Sternberg já enxergando como Marlene Dietrich (o primeiro trabalho de muitos entre diretor e atriz) consegue tirar uma enorme potência dos pequenos gestos, como o simples tirar de uma meia arrastão com os olhos fixos no professor. Desse modo, a decupagem do diretor aposta muito neste jogo de plano e contraplano, no qual a sensualidade de Dietrich é recebida por reações cômicas de um Jannings que parece nunca ter visto uma mulher na vida, evidenciando sua inocência. 

Precisamente pela maneira como explora exaustivamente a falta de malícia de Rath, assistir a sua história é como acompanhar uma tragédia anunciada, na qual só o mesmo não percebe que está sendo feito de palhaço. No início do filme, a montagem alterna entre momentos do professor em casa com seus alunos desenhando caricaturas no quadro negro da sala de aula. De tal forma, isso nos coloca como cúmplices do ato de crueldade feito pelas costas. Já no terceiro ato, aquela ridicularização deixa de acontecer às sombras e torna-se literal, com o professor virando um palhaço durante uma apresentação. Sendo humilhado por toda uma plateia, desta vez diretamente em sua cara, isso lhe leva ao estopim para seu surto psicológico.

Sem dúvidas, uma das coisas que faz O Anjo Azul perdurar até hoje é a complexidade de seu protagonista. Por um lado, pode-se dizer que estamos diante de uma história conservadora, ao mostrar a decadência de um homem cheio de valores ao confiar demais em “elementos subversivos”. Afinal, existe um certo coitadismo na maneira em que Sternberg dirige Jannings, que cria uma persona meio boba demais. Por outro lado, não se pode negar a interpretação de que se trata de um conto sobre a amolecimento de um homem amargurado e tímido, que volta a enxergar a felicidade na vida, ainda que atrelado a um fatalismo trágico. Já outros poderão dizer que é uma obra anti-conservadora, alegando que o próprio professor fez o seu destino, uma vez que ele nunca conseguiu abandonar seus ímpetos de controle, transportando o domínio sob seu alunos para sua esposa, sendo justamente seu ciúme possessivo que levou ao seu declínio. No fim, a preocupação de Sternberg é menos em dar uma resposta, e mais em estudar este encontro entre os dois mundo. Ao perder tudo, a única coisa que sobra a Rath é voltar a sala de aula, o único lugar que ele se sentia no controle. 

O Anjo Azul (Der blaue Engel) – Alemanha, EUA, França, 1930.
Direção: Josef von Sternberg
Roteiro: Carl Zuckmayer, Karl Vollmöller, Robert Liebmann (baseado na novela de Heinrich Mann)
Elenco: Emil Jannings, Marlene Dietrich, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers, Reinhold Bernt, Charles Puffy
Duração: 108 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.