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Crítica | O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

por Marcelo Sobrinho
417 views (a partir de agosto de 2020)

O título O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias não poderia ter sido mais bem escolhido pelo diretor Cao Hamburger. De saída, ele já contempla as duas dimensões da história do menino Mauro, deixado pelos pais com seu avô sob o pretexto de que eles sairiam de férias por tempo indeterminado. O ano era 1970, quando a ditadura militar brasileira começava a apertar o cerco contra seus opositores e a iniciar seus anos de maior rigor. Mas essa dimensão do mundo adulto jamais é explicitada ao menino. Nem seria necessário: o público já está ciente dela. Essa camada deixada apenas nas entrelinhas interessa menos do que o olhar de Mauro para o mundo e o primeiro plano que o registra olhando pela janela do carro demonstra isso. Histórias sobre ditaduras já foram contadas diversas vezes no cinema. Portanto, o que surpreende dessa vez é exatamente o tom adotado.

Ao contrário de outras obras, como o drama argentino A História Oficial e o italiano A Vida é Bela, o brasileiro O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias não adota o tom de investigação e denúncia contra as brutalidades de regimes de exceção (caso do primeiro) nem de celebração burlesca da vida em condições extremas (caso do segundo). O longa-metragem nacional é um filme inequivocamente triste. Não é possível sequer rir com ele, mesmo em seus momentos mais faceiros. A paleta de cores em tons dessaturados da cinematografia de Adriano Goldman tinge o filme de melancolia do começo ao fim. Mas a causa de toda essa tristeza aparecerá apenas episodicamente, em subtextos obtidos por palavras de ordem escritas em muros (“Abaixo a ditadura!”) e em galopes de cavalos da polícia militar pelas ruas. Não é mesmo um filme sobre a militância política, mas sim sobre a tristeza geral que pairava sobre o Brasil naquele momento.

A escolha do roteiro de trabalhar a vida de um menino em estado quase que de abandono (sem nenhuma leitura de culpabilização dos pais), uma vez que o avô morre e seus cuidados ficam sob a responsabilidade de um senhor judeu, é muito pertinente. No fundo, em tempos tão críticos, o abandono era de toda a nação, separada de sua própria voz. Talvez o filme peque um pouco na construção dessa relação entre Mauro e Shlomo, um pouco óbvia e genérica. Mas é preciso reconhecer que todas as experiências que o menino passa a vivenciar no bairro paulista do Bom Retiro servem bem ao desenvolvimento ao menos do protagonista. Mauro cresce, estabelece relações, tem as primeiras experiências com sua sexualidade (como na cena em que vê escondido algumas mulheres tomando banho) e comemora a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970 com a alegria de quem continua vivendo apesar do mundo lá fora.

O menino não se aliena, afinal é apenas uma criança. Tampouco o público ou os demais personagens o fazem, uma vez que o tom melancólico geral e todos os subtextos corretamente inseridos não nos permitem esquecer do que se tratavam aqueles dias. Mas Mauro injeta algum sopro de vida em uma história marcada pela tragédia já tantas vezes contada. Seus momentos assistindo às partidas de futebol, jogando botão com os amigos e descobrindo a convivência em almoços na vizinhança demonstram que é possível ter momentos felizes e plenos ainda que imerso em uma realidade tão terrível. O futebol é central no roteiro como elemento agregador. Em um país esfacelado pela cizânia política (ainda que o protagonista pouco saiba a respeito), qualquer elemento que reúna as pessoas e as façam torcer e vibrar em uníssono por algo é digno de nota. Eis um ingrediente narrativo essencialmente disruptivo com o mundo ao redor. O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias é uma história eivada desses momentos e que precisa ser lida como tal.

No fim das contas, se o filme de Cao Hamburger recusa peremptoriamente o tom melodramático, mas também não nega a melancolia de viver naquela época, o que ele faz nada mais é do que sentenciar que a vida não é exatamente bela, mas que também pode sê-lo em determinadas condições e em determinadas doses. Acima de tudo, que ela subsiste mesmo nos piores cenários e contrariando todas as expectativas.

Agradeço especialmente ao leitor Marcos Vinícius da Silva, que me sugeriu essa crítica, por sua fidelidade ao trabalho do Plano Crítico.

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil – 2006)
Diretor: Cao Hamburger
Roteiro: Cao Hamburger, Anna Muylaert, Claudio Galperin, Bráulio Mantovani, Adriana Falcão
Elenco: Michel Joelsas, Germando Haiut, Daniela Piepszyk, Simone Spoladore, Paulo Autran, Caio Blat, Liliana Castro
Duração: 150 minutos.

 

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4 comentários

Jordison Francisco 16 de dezembro de 2020 - 12:01

Quando se faz necessário adotar o ponto de vista infantil, Cao Hamburger é especialista: haja visto sua obra de maior sucesso e reconhecimento público – o clássico seriado “Castelo Rá-Tim-Bum”, exibido pela TV Cultura no final dos anos 1990. Neste filme de 2006, o enredo debruça-se sobre o cotidiano abafado e comprimido dos anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira através das acepções, percepções e do cotidiano de Mauro (Michel Joelsas), um garoto de 12 anos apaixonado por futebol. Não é incomum à cinematografia brasileira, a produção de filmes que contemplem este período sombrio da nossa história recente. A grande diferença que “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias” guarda com relação aos demais filmes sobre a ditadura consiste justamente no ponto de vista adotado pela narrativa: o horror da ditadura não nos é apresentado explicitamente, e através do olhar do garoto que, sem compreender, é enviado para morar com o avô em São Paulo, enquanto seus pais precisam entrar na clandestinidade. O filme é inequivocamente triste, porque registra com habilidade o cotidiano amargurado daqueles dias, ainda que Mauro não compreenda objetivamente a situação imposta, ele filtra os sinais e as atitudes dos sujeitos que estão em seu redor.

A falta de aprofundamento em fatos históricos da ditadura, o que foi criticado por alguns, na verdade foi importante para o objetivo do filme, que é nos fazer conhecer a época pelo olhar subjetivo de uma criança, que não sabe o que está acontecendo, e tem de usar sua própria lógica para entender conceitos da realidade externa (“Eu acho que exilado quer dizer ter um pai tão atrasado, que nunca mais volta pra casa”).

Gostei muito da relação do garoto com o judeu.

Se pensarmos, por exemplo, na canção “Aos Nossos Filhos”, de Ivan Lins e Vítor Martins – “Perdoem a cara amarrada / perdoem a falta de abraço / perdoem a falta de espaço / os dias eram assim (…)” – , que registra a voz de um sujeito-lírico dirigindo-se aos filhos para tentar justificar a ausência naquele período sombrio, poderemos propor hipoteticamente que o ponto de vista de Mauro coaduna-se com a letra da canção. E que é sempre necessário reiterar: os dias eram daquela forma – sombrios, terríveis e violentos – ainda que algumas pessoas insistam em negar os fatos.

A criança não merecia os dois irresponsáveis como pais, ele merecia uma família melhor.
Dois inconsequentes que em vez de estarem preocupados em criarem e educarem o filho, ficam na na delinquência. Torcia para ele ficar com o judeu e mandar aqueles dos pais dele para fora do país.

Por isso, minha humilde avaliação foi 4.3 / 5.0

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Lavínia F. Santana 18 de maio de 2020 - 19:38

Um dos meus filmes nacionais favoritos.
Vcs pretendem fazer crítica de Cinema Aspirinas e Urubus?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de abril de 2020 - 06:21

Um verdadeiro filmaço. Gosto muito da abordagem que o diretor dá aqui e essa perspectiva de “viver a vida” que você levanta no texto, o que nos coloca num patamar de diferentes olhares para a realidade… algo que hoje gera tantos inúteis brigas sobre “o quê” aconteceu nesse momento da nossa história e o que não aconteceu.

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Cleison Miguel 16 de abril de 2020 - 11:24

Assisti lá em 2006 ou 2007, me lembro de ter gostado muito, vale a pena conferir. Ótima crítica Marcelo. Abs

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