Crítica | O Apanhador de Sonhos

Achei que havia assistido O Apanhador de Sonhos de ovo virado no cinema quando ele foi lançado, mas infelizmente não foi o caso. Ao revê-lo para escrever a presente crítica, confirmei a impressão que havia ficado incrustada em minha mente: esse filme é uma porcaria irremediável. Sei que um crítico não deveria adjetivar filmes dessa maneira, mas realmente não tem jeito. O que Lawrence Kasdan fez aqui é assustadoramente ruim, uma obra que desperdiça completamente seu elenco e todo o potencial de uma história de Stephen King que até parece, bem lá no fundo, ser interessante (não li o romance, pelo que não posso traçar paralelos). É como se o objetivo da produção fosse criar algo que pudesse ser utilizado por gerações futuras como algum tipo de parâmetro de ruindade.

E o que espanta em primeiro lugar é que estamos falando de Kasdan, não de um marinheiro de primeira viagem que tem um roteiro qualquer jogado no colo, um orçamento ridículo para trabalhar e duas semanas de fotografia principal. Kasdan, que co-escreveu o roteiro e dirigiu essa ignomínia é ninguém menos do que o responsável pelos roteiros de O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi, Os Caçadores da Arca Perdida e Corpos Ardentes e, na cadeira de diretor, que, reconheço, não é sua especialidade, comandou o referido Corpos Ardentes e o simpático O Reencontro. E seu co-roteirista, o romancista William Goldman, ainda por cima, havia sido o responsável por clássicos como Butch Cassidy, Todos os Homens do Presidente, Maratona da Morte, A Princesa Prometida e Louca Obsessão, este último também baseado em obra de King e sensacional. Ou seja, como é que deve ter sido o processo criativo entre eles para gerar O Apanhador dos Sonhos? Será que foi proposital para fazer uma pegadinha de mau-gosto com o estúdio e com o público? Será que havia forças externas exigindo isso ou aquilo? Ou será que os dois tiveram mesmo uma diarreia mental conjunta?

Se somarmos a isso o elenco principal, que conta com Morgan Freeman e Tom Sizemore como militares que investigam e procuram eliminar os fenômenos que acontecem no filme e Thomas Jane, Damian Lewis, Timothy Olyphant e Jason Lee como quatro amigos com poderes telecinéticos que se reúnem todo ano em uma cabana no meio do nada com coisa nenhuma, o filme torna-se ainda mais inexplicável, pois seria uma decorrência lógica que no mínimo alguma coisa se salvasse desse desastre. Mas nem as interpretações conseguem ajudar, pois Kasdan parece não ter a menor habilidade em extrair atuações de seus atores, com o Coronel Abraham Curtis de Freeman parecendo um militar maluco com ridículas sobrancelhas arrepiadas e o Owen, de Sizemore, parecendo um peru tonto entre sua obediência a Curtis e um vontade súbita de acreditar no primeiro estranho que aparece na sua frente (no caso Henry, o personagem de Jane) dizendo um monte de sandices.

Como eu disse, há um potencial enterrado na história que de certa forma lembra a estrutura de It – A Coisa, com os quatro amigos sendo abordados no presente e no passado em Derry (a mesma cidade de It, aliás) no que se refere a sua amizade com Duddits (Andrew Robb com o personagem criança e Donnie Wahlberg como adulto), um garoto com problemas mentais, mas poderes extraordinários, lidando com uma ameaça misteriosa. Aliás, minto. Misteriosa nada, pois o roteiro não tenta esconder o grande vilão por um segundo sequer, logo revelando ser um extraterrestre que só não é completamente genérico, pois ele impregna pessoas com uma lesma dentada que sai explosivamente pelo ânus da vítima, gerando aquele tipo de nojeira escatológica com que adolescentes bobalhões devem morrer de rir, mas que, na verdade, não tem absolutamente graça – ou drama – nenhum. A única coisa boa que se pode extrair disso tudo é que, metalinguisticamente, o vilão é literalmente uma m&rd@…

O roteiro de Kasdan e Goldman não consegue nem mesmo justificar a existência dos quatro amigos na trama. O que vemos são duas buchas de canhão, um que é controlado pelo E.T. e o último que se adapta tão rapidamente com o que está acontecendo, atuando como um Rambo telecinético, que fica impossível de segurar a risada inadvertida. Não aprendemos o suficiente sobre eles para nos importarmos com seus destino, assim como também não nos importamos com a conexão deles com Duddits ou entendemos como grave ou particularmente perigosa a ameaça alienígena que aparece tão de repente quando desaparece. É como uma aula magna de como não escrever um roteiro, de como transformar o “talvez interesante” em um negócio mais disforme que o monstro caçado pelo exército.

Se pelo menos a direção se salvasse, teríamos algo a comemorar. Mas Kasdan – ou o metamorfo que tomou a forma de Kasdan e realmente dirigiu o filme – achou que um filme poderia se segurar apenas com efeitos especiais de vermes dentudos saindo do ânus de animais e pessoas. É disso, basicamente, que vive a obra, com uma longa sequência inteira dedicada a Beaver (o personagem de Jason Lee) tentando impedir que a tampa da privada seja aberta enquanto ele se estica para pegar um palito de dentes do chão nojento, outra com a lesma anal pulando para arrancar o pênis de Pete (Timothy Olyphant) e assim por diante. E, pior, com efeitos de computação gráfica e práticos que, além de abaixo da média para a época em que foram feitos, são genéricos e preguiçosos. Evoco novamente, aqui, a imagem de adolescentes de riso frouxo se escangalhando de rir de coisas idiotas desse nível, o único público-alvo que consigo imaginar para essa colonoscopia sem anestesia.

Não posso me esquivar de falar brevemente de duas boas ideias do filme, porém. A primeira delas é o conceito do “armazém mental” de Jonesy (Damian Lewis) e sua forma de execução, permitindo que o personagem esconda-se em sua própria mente. A outra é o uso de jump cuts para lidar com as transformações de milissegundo do mesmo personagem entre o Jonesy propriamente dito e o Jonesey controlado pela criatura. O problema é que esses elementos ficam perdidos em meio ao completo horror – no mau sentido – de O Apanhador de Sonhos e em nada ajuda o filme a, no conjunto, sair do esgoto audiovisual.

Stephen King tem um sem-número de péssimas adaptações cinematográficas de suas obras, provavelmente bem mais do que as que são boas ou excelentes. Mas O Apanhador de Sonhos é especial. É a porcaria das porcarias, a obra que faz todas as demais tornarem-se boas em comparação. Parabéns a Kasdan por ter conseguido esse feito inacreditável com esse bolo fecal semi-digerido.

O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher, EUA/Canadá – 2003)
Direção: Lawrence Kasdan
Roteiro: William Goldman, Lawrence Kasdan (baseado em romance de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Damian Lewis, Timothy Olyphant, Jason Lee, Morgan Freeman, Tom Sizemore, Donnie Wahlberg, Mikey Holekamp, Reece Thompson, Giacomo Baessato, Joel Palmer, Andrew Robb, Eric Keenleyside, Rosemary Dunsmore, Michael O’Neill
Duração: 136 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.