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Crítica | O Apicultor (1986)

Paisagem interior.

por Fernando JG
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O Apicultor é um filme do gênero dramático, dirigido pelo cineasta grego Theodoros Angelopoulos (Paisagem na Neblina, Viagem a Citera), que narra a travessia complicada de um homem pra lá da terceira idade que está insatisfeito com a sua vida e com tudo o que está ao seu redor. Ele parte numa viagem de descobertas, mas não promete voltar.

Parece-me que 1986 foi o ano de duas grandes obras a respeito de jornadas pessoais: O Sacrifício (Andrei Tarkovski) e O Apicultor (Theodoros Angelopoulos). Se em Tarkovski há a força de um exterior potente que conduzia toda a cena fílmica e as ações de um personagem com medo do fim, aqui, em Angelopoulos, tudo transpassa por uma perspectiva da subjetividade e da interioridade mais reclusa. Paisagens vazias, planos-abertos e planos-sequência, personagens estáticos, personagens que não falam, olhares profundos, fotografia outonal… enfim. Tudo isso não passa de uma paisagem, que é mais interior do que exterior. A mise-en-scène, não se engane, é reflexo do estado de alma de Spyros e por isso caminha tão vagarosa, igual ao seu personagem. 

Sujeito difícil de se ler, enigmático e brutalmente entristecido em seu núcleo mais pulsional. Ainda há vida em Spyros? O que acontece com esse personagem que parece ter uma barreira intransponível dentro da sua alma? Que espécie de emoção é essa que ele consegue trancar em si como a um cofre lacrado sem deixar que isso vaze? Silêncio a toda hora, dificuldade em amar o outro, em demonstrar seus sentimentos diante das mulheres pelas quais se apaixona definem uma de suas facetas. Mas também não é possível reduzi-lo apenas a isso. Há também um toque de desilusão na construção desse homem envelhecido, uma vez que aos poucos ele se desprende de tudo: a filha se casa, ele larga a esposa, deixa o lar em que vive, larga a cidade e vai viver só. Mas depois ele retorna, tentando recuperar tudo isso, pede perdão, contudo se perde novamente. 

Bom, esta é uma trama bem conectada e a direção, junto de Mastroianni, fazem um grande trabalho de personagem. Algumas outras coisas também me chamaram a atenção, por exemplo, quem é essa menina inominada (Nadia Mourouzi) que lhe aparece e acompanha ao longo de todo o filme? Ela tem um papel fundamental para a construção do protagonista, já que é ela quem o apresenta a nós. Sem as suas incessantes perguntas, jamais saberíamos sobre ele. Ela o desnuda e rompe com seu silêncio. Invasiva, a personagem feminina atua como se tirasse peça a peça de sua roupa, tal qual ocorre no final, e descortina esse enigma para nós. A menina é parte crucial da construção do protagonista. Além de fazer a contraposição necessária entre a perspectiva de uma juventude hedonista e da velhice melancólica. 

É, sem dúvida alguma, um filme sobre a dura batalha que é se encontrar quando tudo já parecia estabelecido e encontrado e, então, o desengano vem. Vem, porque a insatisfação com o presente é ainda maior e dolorosa quando a cortina cai e esse homem percebe-se velho em idade. É contraditório o fato deste ser um filme-de-estrada e o seu protagonista ser um homem estático. Spyros está em constante movimento em busca de algo, mas na disposição cênica quem o contempla e se move é a câmera, que dá belas voltas ao seu redor, enquanto está parado, tentando decifrá-lo, ou ao menos lê-lo, mas sem sucesso. 

Spyros se vê no meio de uma encruzilhada entre desencontrar-se, que ocupa toda a primeira metade do filme, e encontrar-se, na outra metade do longa, com aquilo que é verdadeiramente seu. Mas esse desencontro seguido de encontro produz uma ruptura cruel e uma irresolução insustentável na intimidade do personagem, concluindo um fim trágico. Jornadas pessoais são difíceis porque a gente nunca sabe o que se passa dentro de cada um e esse longa-metragem mimetiza isso, ou seja, não deixa transparecer jamais o que está dentro da cabeça desse sujeito, até que ocorre o veredito. 

Esse é um Road-Movie, mas bem mais intrincado do que os filmes de Wim Wenders. A premissa mais basilar desse gênero cinematográfico parte da perspectiva de que o protagonista sai de seu lugar comum e ruma para uma viagem que se mostra intensa, abrindo novas visadas e reflexões. Por vezes, o personagem em viagem descobre o seu propósito (Na Natureza Selvagem) mas por vezes acaba em mais sofrimento, solidão e consequentemente melancolia, como é o caso do Paris, Texas, Alice nas Cidades e No Decurso do Tempo, todos de Wim Wenders. O Apicultor se encaixa dentro desta última categoria e o herói do longa-metragem, de fato, se encontra, mas esse encontro não é plenitude, é angústia, solidão e, enfim, pelo dom da racionalidade, parece que ele consegue perceber a dinâmica de sua própria vida. 

Na cena final, Spyros, interpretado pelo brilhantíssimo Marcello Mastroianni, encontra-se consigo no ato decisivo, antecipando o seu fim. Ele não só acaba com os negócios de sua família, cuja tradição de apicultura ligava-o por meio de um elo cultural e de sangue à sua origem. Para ele não basta essa ruptura se não for seguida de um desaparecer completo da sua própria figura. Por vezes, se encontrar é romper com elos que nos prendem a uma lógica que não é nossa, e pode custar caro. Ou melhor, caro para nós, que acompanhamos essa angústia infinita, mas para ele talvez seja um preço justo, ainda que sob duras penas.

O Apicultor (O Melissokomos, França, Itália, Grécia, 1986)
Direção: Theodoros Angelopoulos
Roteiro: Theodoros Angelopoulos, Tonino Guerra, Dimitris Nollas
Elenco: Marcello Mastroianni, Nadia Mourouzi, Serge Reggiani, Jenny Roussea, Dinos Iliopoulos, Vasia Panagopoulou, Iakovos Panotas, Stamatis Gardelis, Mihalis Giannatos, Karyofyllia Karabeti, Konstandinos Konstandopoulos, Nikos Kouros, Christoforos Nezer, Stratos Pahis, Dimitris Poulikakos
Duração: 122 min. 

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