Crítica | O Aplicativo (The App)

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Desde o sucesso do jogo Simulacra, que tematiza revolução tecnológica por meio de inteligência artificial em aplicativos, é a segunda vez que a Netflix aposta em algo do gênero. Na primeira, a plataforma produziu o maravilhoso Cam. Agora, esboçou um projeto que acaba quando começa. Mais Simulacra que isso, impossível! Nick (Vincenzo Crea), um ator famoso, fica obcecado por um aplicativo de namoro, ao passo que desperta a desconfiança de sua namorada e dos produtores de seu primeiro filme em Roma.

A trama é a mais arrastada que já vi (e não é uma hipérbole). É a primeira vez que não consigo diferenciar os três atos, ou ao menos dois deles. Os roteiristas nos tratam como idiotas, e escrevem cenas cíclicas que não nos levam a lugar algum. No caso do protagonista, a fama dele como ator é citada trocentas vezes, mas não têm influência alguma: é aproveitada naquela cena em específico mas não impacta em nada depois. Isso também se estende a incrivelmente todos os personagens secundários. O irmão do protagonista, a namorada, a camareira, ninguém tem uma ação que impacte minimamente em algo na trama. Apenas – e em alguns poucos momentos – as ações do protagonista tem alguma relevância. Com isso, é possível condensar os intermináveis 79 minutos em 2 minutos (e ainda acho muito), mantendo apenas o personagem de Crea. 

Junto a isso (e também por causa disso), os personagens são jogados cruelmente na narrativa. Eles simplesmente aparecem, fazem suas falas, saem e, claro, não impactam em nada. Uma cena em específico me chamou muito a atenção negativamente. Na sequência, um garçom atende Nick no restaurante do hotel e, do nada, pede para que ele consiga um emprego para o seu irmão formado em marketing (?). Poxa, se está no começo do filme, vai mudar em algo, né? Spoiler: não! O garçom literalmente some da trama depois dessa sequência. E o irmão dele sequer dá as caras ou é citado novamente.

Sinceramente, se alguém planeja assistir a isso, basta saber que o projeto fala de um aplicativo à la Simulacra e… partir para os 5 minutos finais. Fazendo o teste, realmente descobri que isso é funcional. E nem assim a obra convence. O final é o mais aleatório possível, forçando um plot que a sinopse e a trama simplesmente não suportam. É um final tão arrastado quanto os personagens. E para piorar tudo, a película introduz nos últimos momentos um “6 meses depois” que finalmente parece alavancar algo de interessante na obra. Infelizmente o filme acaba quando, enfim, tenta começar.

A nota só não foi mínima porque a obra se salva minimamente pelo tema. Levantar a questão do avanço tecnológico desenfreado no mundo atual é importante e necessário. Além disso, lembra um pouco algum episódio de Black Mirror, mas é claro que o pior episódio possível. 

O Aplicativo é uma das piores produções da Netflix. Com roteiro, personagens e direção cuspidos aleatoriamente na tela, a obra não é digna de ser vista por ninguém. A sensação ao terminar é de assistirmos a uma produção escolar sem orçamento de alunos do sexto ano do Ensino Fundamental.

O Aplicativo (The App) – Itália, 2019
Direção: Elisa Fuksas
Roteiro: Elisa Fuksas, Lucio Pellegrini
Elenco: Vincenzo Crea, Jessica Cressy, Greta Scarano, Maya Sansa, Abel Ferrara, Anita Kravos
Duração: 79 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.