Crítica | O Aprendiz (1998)

O APRENDIZ APT PUPIL PLANO CRITICO

O Aprendiz, filme de Bryan Singer que adapta a noveleta O Aluno Inteligente, de Stephen King, abre com uma aula sobre o Holocausto. O professor pergunta aos alunos o que leva tantas pessoas a se empenharem em uma causa tão hedionda como o extermínio antissemita. Foi consequência da catástrofe econômica que atingiu a Alemanha? Um fenômeno social e cultural? Ou foi simplesmente uma questão de natureza humana? Pergunta o professor. O filme de Singer, embora não tenha a pretensão de dar essa resposta, se debruça sobre a última possibilidade.

A trama situada em 1984 acompanha Todd Bowden (Brad Renfro), um adolescente fascinado pela 2ª Guerra Mundial, que descobre que um idoso morador de seu bairro — que atende pelo nome de Arthur Denker (Ian McKellen) — é, na verdade, Kurt Dussander, um ex-oficial da SS foragido, que foi responsável pela morte de 90 mil pessoas durante a guerra. Mas Todd não pretende denunciar Dussander, e sim chantageá-lo para que ele revele detalhes dos tempos em que comandou um campo de concentração. Mas o velho não pretende ficar nas mãos de Todd por muito tempo, e dá início a um tenso jogo psicológico com o garoto, que despertara o pior de cada um deles.

Apesar da temática do Holocausto ser um ponto importante do filme, esta não é uma obra sobre nazismo ou antissemitismo, e sim sobre o perigoso fascínio que o mal exerce sobe o ser humano, ao ponto de tornar-se contagioso e mesmo viciante. Por mais que as histórias que Dussander conte sobre os horrores dos campos de concentração perturbem Todd a ponto de ele ter pesadelos e insônia, o rapaz continua procurando o velho para mais, pois paradoxalmente, esses horrores tanto atraem o jovem tanto quanto o repelem.

O roteiro de Brandon Boyce constrói de maneira eficiente os paralelos entre os protagonistas, ao mesmo tempo em que explora a natureza maléfica de Dussander sem transformá-lo em uma caricatura. O texto de Boyce é habilidoso em estabelecer o jogo de poder que pauta a relação da dupla principal, que encontra o ponto de virada perfeito na brilhante cena em que Todd obriga Dussander a vestir um uniforme nazista e a marchar. A direção de Singer é igualmente eficiente em traduzir visualmente este jogo de poder. Observem como na já citada cena do uniforme nazista, a câmera enquadra discretamente Todd de cima para baixo, e Dussander de baixo para cima, como forma de ressaltar a posição de poder de cada um — e como os ângulos são invertidos quando o jovem percebe que perdeu o controle sobre o velho, quando este não obedece a sua ordem para parar a marcha. O diretor usa este recurso ao longo de todo filme, à medida que a relação de poder entre Todd e Dussander vai se reorganizando e se equilibrando, em um trabalho de competente decupagem.

Singer também demonstra um grande controle sobre as sequências de suspense, usando o espaço fílmico e a mise en scène para tirar o máximo de tensão das cenas, seja dos tensos diálogos entre os protagonistas, das poucas sequências de violência, ou mesmo de Todd sozinho em seu quarto, atormentado pelas histórias que ouviu de Dussander. O Aprendiz é um filme que praticamente não relaxa, mesmo quando não há nada explicitamente tenso na tela.

O trabalho do montador John Ottman (que também é responsável pela trilha sonora) tem um grande papel nesta tensão constante apresentada pela obra. Para os momentos de maior intensidade emocional dos personagens, o longa utiliza-se de uma montagem frenética, cheia de cortes rápidos e planos fechados, como na tão citada cena do uniforme nazista; ou o enervante momento envolvendo um gato e um forno de cozinha. A montagem também desempenha um papel importante para estabelecer os paralelos e contrastes existentes entre Todd e Dussander, reforçando a relação distorcida de aprendiz e mestre proposta pelo roteiro.

As escalações de Brad Renfro e Ian McKellen para a dupla protagonista mostraram-se um grande acerto. Renfro vive Todd como um garoto inteligente e arrogante, que mal consegue conter o próprio orgulho e entusiasmo ao contar ao alemão como descobriu a sua verdadeira identidade. Ao longo do filme, vemos esta confiança de Todd ser quebrada tanto pelo peso das histórias que Dussander lhe conta quanto pela percepção de que o nazista o tem nas mãos, em uma jornada dramática que leva o jovem a encarnar a pior versão de si mesmo. Ian McKellen, por sua vez, consegue criar o contraste existente na figura aparentemente frágil e inocente de Kurt Dussander, com sua verdadeira natureza como um homem sádico e manipulador. McKellen retrata com perfeição o arco dramático do vilão, que inicialmente não parece confortável em relembrar o seu tenebroso passado, mas logo começa a apreciar revisitar os tempos em que tinha o poder sobre a vida e a morte. O ator, que voltaria a trabalhar com Singer na franquia X-Men, vive o personagem como se Arthur Denker fosse uma máscara que Dussander usou por tempo demais, máscara essa que é lentamente despedaçada por sua relação com Todd.

O Aprendiz é um thriller psicológico que, ao colocar os dois protagonistas despertando o lado mais monstruoso um do outro, aponta que a maldade humana pode vir de qualquer lugar, bastando que a pessoa certa receba o incentivo certo. Tendo sido um fracasso de crítica e público na época de seu lançamento, esta adaptação de Stephen King comandada por Bryan Singer é uma experiência cinematográfica sombria e até perturbadora e cínica, mas que merece ser conhecida.

O Aprendiz (Apt Pupil), Estados Unidos. 1998.
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Brandon Boyce (Baseado em Noveleta de Stephen King)
Elenco: Brad Renfro, Ian McKellen, Joshua Jackson, Mickey Cottrell, Michael Reid MacKay, Ann Dowd, Bruce Davison, James Karen, Marjorie Lovett, David Schwimmer, Elias Koteas, Michael Byrne, Joe Morton, Heather McComb, Jan Triska, David Cooley, Kevin Spirtas.
Duração: 111 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.