Home TVTemporadas Crítica | O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story – 2ª Temporada

Crítica | O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story – 2ª Temporada

por Leonardo Campos
293 views (a partir de agosto de 2020)

O terreno da psicopatia é um espaço de muita elegância no bojo da indústria audiovisual. Diretores de fotografia, figurinistas e designers de produção, unidos aos roteiristas e diretores, constroem perfis psicóticos que, ao invés de nos causar repulsa, acabam revelando o quanto somos atraídos por estes personagens que, pasmem, estão mais presentes em nosso entorno do que podemos imaginar. Em sua maioria, os “monstros” são bonitos e atraentes, conseguem nos levar “no papo” e cativam “aquele” lado que talvez esteja em déficit no momento de contato. Ao passo que eles demonstram essas proezas, abrem espaço para o próximo nível, isto é, o “lado sombrio da Força”, seara da agonia, do desespero e das atitudes extremas para conseguir o que querem. Na história da humanidade, há vários desses. E a história do futuro fará o seu papel de catalogar os próximos passos dos pertencentes a este terreno ficcionalmente sedutor, mas perigosamente real.

O tema é o ponto nevrálgico da segunda temporada da antologia American Crime History, intitulada O Assassinato de Gianni Versace. A versão anterior, focada no midiático julgamento de O. J. Simpson arrebatou vários prêmios e conquistou o público e a crítica, o que abriu espaço para esta segunda incursão. Tendo como base o livro Vulgar Favors: Andrew Cunanan, Gianni Versace and the Largest Failed Manhunt in U. S. History, de Maureen Orth, a série trafega entre situações verídicas e material ficcional, afinal, não é um documentário focado no mito da imparcialidade dos relatos. O que temos aqui é ficção. E das boas. Para os que vão assistir pensando ser Versace o foco central, engana-se, adianto. A estrela aqui é o narcisista, mitômano, arrivista e violento Andrew Cunanan, interpretado com muito talento por Darren Cris.

Andrew é um rapaz com passado cheio de cicatrizes, praticamente como a maioria dos homossexuais mergulhados em seus respectivos históricos de opressão, bullying e outras celeumas oriundas de uma sociedade calcada na “heteronormatividade”. Ele desenvolve uma obsessão pelo estilista Gianni Versace (Édgar Ramírez), o seu último alvo numa lista de cinco assassinatos realizados com extrema violência. Certo dia, enquanto caminhava para casa após comprar o jornal, o estilista foi surpreendido em frente à sua mansão, alvejado por dois tiros fatais. Vítima da psicopatia de Andrew, o estilista vivia um momento de crise, principalmente na relação com a sua irmã, Donatella Versace (Penélope Cruz) e as certezas e incertezas do relacionamento aberto com Antonio D’Amico (Ricky Martin). Andrew, construído pelo roteiro como um personagem invejoso, irado com as conquistas materiais de outras pessoas, não conseguia lidar com nada que estivesse fora do seu alcance. Bastava a sua vontade não ser respeitada, correspondida, para que o “monstro” interior ganhasse projeção, eliminando vidas quando necessário.

Focado mais em Andrew que em Versace, a série é oportunista ao trazer o nome do estilista. Ou talvez tenha a pretensão de nos dar uma “rasteira” enquanto espectadores interessados em caminhar os mesmos passos da vida repleta de luxo, sexo e celebridades, o estereótipo da personagem midiática. Ao contrário, há episódios em que o estilista sequer aparece, principalmente quando o foco dramático é adensar nas necessidades dramáticas de Andrew, em uma tentativa de compreender suas motivações. Cabe ressaltar, como dito, que, antes de Versace, Andrew Cunanan assassinara outras pessoas, deixando um extenso rastro de sangue, dor e luto, crimes que, inclusive, ganham maior projeção e análise que a morte do estilista parte do título da temporada.

A família Versace divulgou notas na imprensa alegando que a série deve ser pensada apenas como ficção, pois os relatos não batem com o que eles dizem ser “real”. O criador da série Ryan Murphy se defendeu, apontando que o seu material é inspirado em um livro bem recebido há duas décadas e ainda explicou que a família está sendo retratada de forma positiva. Há informações de satisfação no desempenho de Penélope Cruz da própria Donatella Versace, irmã do estilista que diria estar satisfeita com a sua personagem na série, delineada como um modelo feminino positivo. Polêmicas à parte (sem deixar de lembrar que elas tornam tudo mais midiático do que a “publicidade institucional”), O Assassinato de Gianni Versace vai além da pura fofoca dos tabloides e traça um dos perfis mais instigantes dos últimos anos, um destaque, haja vista a quantidade de produções sobre psicopatas disponíveis para consumo.

Os méritos da série trafegam pelo contextual e estético. O que se vestia, ouvia e cultuava em Miami pode ser visto na eficiente reconstrução de época. O contextual dialoga com os elementos estéticos graças ao belo trabalho dos designers de produção e da montagem que transforma alguns momentos musicais “quase” em pequenos videoclipes. Em um dos primeiros episódios, Andrew dança ao som de “Easy Lover”, de Phil Collins, e nos mostra um desempenho fascinante, algo que deságua em vários momentos posteriores. Com todos os clássicos modernos que o leitor possa imaginar, a câmera passeia pelos espaços, captando o que pode e radiografa com eficiência os anos 1990. É um trunfo dos grandes da série, sabe?

Tal como os diversos produtos culturais sobre psicopatas, a série investe bastante na construção do seu “monstro”, um ser que deveria surgir de forma repulsiva, mas que nas lentes da produção, dialoga com todo vocabulário em torno da “sedução”. Ele é atraente, charmoso, bonito, inteligente, mas extremamente perigoso. Uma espécie de Hannibal Lecter contemporâneo, salvas (e bem guardadas) as devidas proporções comparativas, caro leitor. Se você é fascinado em histórias macabras e misteriosas, tenha certeza que o mergulho na série será bastante proveitoso. Basta esquecer alguns ruídos narrativos, completar algumas peças do quebra-cabeça você mesmo e consumir sem culpa cada minuto dos nove episódios. Mergulhe, mas não se esqueça de retornar para nos comentar as suas impressões, tudo bem?

O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story (The Assassination of Gianni Versace, EUA – 2018)
Showrunner:  Ryan Murphy
Direção: Ryan Murphy, Nelson Cragg, Gwyneth Horder-Payton, Daniel Minahan, Matt Bomer
Roteiro: Tom Rob Smith, Maggie Cohn (baseado em obra de Maureen Orth)
Elenco: Édgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Judith Light, Aimee Mann, Finn Wittrock, Joanna P. Adler, Joe Adler, Annaleigh Ashford, Will Chase, Giovanni Cirfiera, Mike Farrell, Jay R. Ferguson, Cody Fern, Ricky Martin
Duração: 50 min (cada episódio – 9 episódios no total)

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13 comentários

Pablo 8 de março de 2019 - 23:57

A atriz Judith Light, que fez a esposa de Lee Miglin no terceiro episódio, devia ter tido no mínimo, várias indicações a diversos prêmios. Sua atuação foi poderosa e comovente.

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Daniel Marques 30 de janeiro de 2019 - 11:33

Assistindo à série, ao perceber como os personagens ao seu redor moldaram a personalidade do Andrew, não deu pra não lembrar do filme Última Parada 174, que mostra a vida sofrida do sequestrador do ônibus 174.

Achei a série excelente. O elenco mandou muito bem, com destaque maior para a atuação do Darren Criss.

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Rafael 12 de janeiro de 2019 - 18:37

Achei a série bem complexa. No início fiquei meio “ué, a série tem o nome do Versace, mas fala mais do assassino do que o próprio designer”, porém entendi o que quis dizer no final. A série quis criar um paralelo entre Cunanan (diga-se de passagem que Darren Criss fez um personagem assustador, complexo e incrível) e Gianni, mostrando meio que onde o caminho das pessoas os levam no final. Achei incrível deles criticarem a omissão da polícia nos crimes que Cunanan haviam cometido pelos personagens serem gays, mas a série deixou de trabalhar isso ao longo dos episódios. A série fala muito sobre a opressão e o que isso causa nas pessoas, no caso, na comunidade LGBT e o episódio do Jeff fiquei triste demais. Essa é uma daquelas séries que precisamos rever para captar todos os detalhes, pois caramba, eu senti o impacto.

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Huckleberry Hound 7 de março de 2019 - 09:29

Pra uma pessoa de família como eu é difícil assistir essa temporada até o fim com os contantes temas sobre homosexualismo,sexo,bar gays,etc. muitos vão se desligar mas ela é tão bem executada e as atuações foram tão incríveis que eu me segurei e vi tudo Ryan Murphy quando acerta acerta muito bem mesmo e devo dizer que concordo com a nota da crítica!

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Daniel Barros 25 de setembro de 2018 - 13:24

Acabei de assistir o episódio 4 e ele é sensacional! O melhor até o momento.

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Massi Marques 22 de abril de 2018 - 13:18

Uma obra de arte.

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Massi Marques 22 de abril de 2018 - 13:18

Uma obra de arte.

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Andressa Gomes 23 de março de 2018 - 22:42

Olha, assisti os quatro primeiros e episódios e não me prendeu tanto como o do O.J Simpson. Achei interessante o tal Andrew e algumas coisas que abordam sobre Versace, sim. Mas não vi nada de surpreendente na suposta “psicopatia” do tal.
Pra mim isso é batido de série em romantizar e trazer um rosto bonito para lhe prender a atenção, concordo imensamente com seu parágrafo dizendo isso, mas a maioria aposta em “vilões” assim. Ele não me trouxe nenhuma simpatia, e sim repulsa desde o início. Esperava ansiosa pela Penelope Cruz e me senti meio decepcionada, a caracterização estava incrível. Me desanimei em acompanhar o resto, vou tirar um dia para acompanhar, mas estava com um hype imenso e se evaporou aos poucos

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Elton Miranda 22 de março de 2018 - 19:50

American Crime Story: A trajetória de Cunanan
Achei essa temporada simplesmente incrivel, só senti que faltou um pouco de mais profundidade no núcleo dos Versace.
Darren Cris merece um indicação ao Emmy pelo seu excelente trabalho aqui feito

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Rafael Abrão 22 de março de 2018 - 15:00

Crítica muito bem feita, principalmente ao dar destaque à curiosa construção de um assassino que, como em muitos casos, no lugar de uma pessoa feia, covarde e obviamente repulsiva (no caso de Andrew a repulsa vem de todo modo, só não é tão óbvia de primeira), tem lugar alguém bonito, ‘’apessoado’’, inteligente e envolvente. O grande problema, porém (e que pela repetição desse termo no texto, se torna um pouco mais grave) é que Andrew não é considerado um psicopata. Não é possível enquadra-lo nesse termo e tanto biógrafos como especialistas não o fazem. Isso não diminui a brutalidade de seus crimes, de modo algum, nem deixa o caso dele menos relevante, (muito pelo contrário) mas psicopatia não era o caso de Andrew. Ele era sim um mentiroso patológico e a brutalidade de seus crimes é explicada pelo vício em metanfetamina que, combinados, junto há uma sucessão de desespero e fracasso resultaram no que sabemos. Se Andrew viu prazer em matar foi já no meio de seu rastro, porém ele nunca começou a matança por necessidade, fome de sangue ou coisas do tipo, falta de sentimento de compaixão ou falta de sensibilidade (volto a dizer, os assassinatos não deixam de ser brutais por conta disso). A associação de serial killer + psicopatia é óbvia, mas nem sempre é correta e o caso do Andrew se inclui nisso.
Sobre a ausência de Gianni para uma série que leva seu nome e alusão a logo de sua empresa na capa, quero também acreditar que não foi oportunista. Algumas coisas ajudam nisso, como o título anterior pretendido pra série (Versace/Cunanan) e como algumas cenas do roteiro permitem que vejamos o enquadramento da série na ideia desse outro título. Temos também a crítica de Donatella a série, que poderia ter sido bem mais grave (afinal tudo o que foi declarado diz respeito a um certo medo do quanto a série iria abordar o fato de Gianni supostamente ter HIV, como o livro de inspiração afirma categoricamente), inclusive Donatella teve a liberdade para pedir que nenhuma cena que mostrasse Allegra fosse exibida e, diante do último episódio mostrado ontem, creio eu que essa cena seria a da missa de 7º dia do tio. Por fim, o fato de alguns episódios aludirem uma coisa para mostrar outra posteriormente – como o caso de se ter a impressão de que David e Jeff tinham um caso, ou que David e Andrew moravam juntos e coisas do tipo, ideias que a série constrói pra logo depois destruir.

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Rafa Del Chrischer 22 de março de 2018 - 15:00

Crítica muito bem feita, principalmente ao dar destaque à curiosa construção de um assassino que, como em muitos casos, no lugar de uma pessoa feia, covarde e obviamente repulsiva (no caso de Andrew a repulsa vem de todo modo, só não é tão óbvia de primeira), tem lugar alguém bonito, ‘’apessoado’’, inteligente e envolvente. O grande problema, porém (e que pela repetição desse termo no texto, se torna um pouco mais grave) é que Andrew não é considerado um psicopata. Não é possível enquadra-lo nesse termo e tanto biógrafos como especialistas não o fazem. Isso não diminui a brutalidade de seus crimes, de modo algum, nem deixa o caso dele menos relevante, (muito pelo contrário) mas psicopatia não era o caso de Andrew. Ele era sim um mentiroso patológico e a brutalidade de seus crimes é explicada pelo vício em metanfetamina que, combinados, junto há uma sucessão de desespero e fracasso resultaram no que sabemos. Se Andrew viu prazer em matar foi já no meio de seu rastro, porém ele nunca começou a matança por necessidade, fome de sangue ou coisas do tipo, falta de sentimento de compaixão ou falta de sensibilidade (volto a dizer, os assassinatos não deixam de ser brutais por conta disso). A associação de serial killer + psicopatia é óbvia, mas nem sempre é correta e o caso do Andrew se inclui nisso.
Sobre a ausência de Gianni para uma série que leva seu nome e alusão a logo de sua empresa na capa, quero também acreditar que não foi oportunista. Algumas coisas ajudam nisso, como o título anterior pretendido pra série (Versace/Cunanan) e como algumas cenas do roteiro permitem que vejamos o enquadramento da série na ideia desse outro título. Temos também a crítica de Donatella a série, que poderia ter sido bem mais grave (afinal tudo o que foi declarado diz respeito a um certo medo do quanto a série iria abordar o fato de Gianni supostamente ter HIV, como o livro de inspiração afirma categoricamente), inclusive Donatella teve a liberdade para pedir que nenhuma cena que mostrasse Allegra fosse exibida e, diante do último episódio mostrado ontem, creio eu que essa cena seria a da missa de 7º dia do tio. Por fim, o fato de alguns episódios aludirem uma coisa para mostrar outra posteriormente – como o caso de se ter a impressão de que David e Jeff tinham um caso, ou que David e Andrew moravam juntos e coisas do tipo, ideias que a série constrói pra logo depois destruir.

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márcio xavier 22 de março de 2018 - 13:25

bom saber que melhorou.. Tava bem ansioso por esta temporada e havia ficado bem decepcionado pelas críticas dos primeiros episódios. Não que eu goste de me basear apenas nas críticas, mas com tanta coisa disponível pra ver preciso selecionar por algum critério.
Então agora vou lá baixar e depois volto. 😉

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Flavio Batista 22 de março de 2018 - 11:49

Assisti um episodio meio sem querer e achei sensacional. Vou conferir

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