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Crítica | O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie

por Luiz Santiago
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Foi a partir da publicação de O Assassinato de Roger Ackroyd, em junho de 1926, que Agatha Christie verdadeiramente encontrou a fama. Sabemos que ela já chamava a atenção desde O Misterioso Caso de Styles (1920) e pouco depois com Assassinato no Campo de Golfe (1923), mas foi com Roger Ackroyd que a escritora não só se firmou em definitivo no gênero, tornando-se um nome respeitável, como também trouxe inovações na resolução do caso, servindo de referência histórica dentro da literatura policial.

Apesar de ainda estarmos na primeira década dos escritos da Rainha do Crime, temos aqui um caso onde o detetive Hercule Poirot já se aposentou e está vivendo incógnito no interior da Inglaterra, curtindo o seu sossego e cultivando abobrinhas (literalmente falando). Há uma certa marca de ironia da autora aqui, que faz o seu personagem mais icônico envelhecer longe da fama e se empenhar em uma tarefa totalmente diferente daquilo que foi a sua carreira. Nessa pequena vila, temos todos os estereótipos em favor da construção do drama: muita gente fofoqueira, muita informação passando dos empregados para os patrões e umas porção de intrigas particulares que mostram que o local não era assim tão pacífico quanto parecia ser.

Mesmo com o grande assassinato sendo anunciado no título, esta é a morte que demora um pouco mais para acontecer. Existe uma outra situação (assassinato?) e também um suicídio que são notícias importantes nos primeiros capítulos e que mantêm as fofocas da cidade em funcionamento, especialmente para a rainha delas, a senhora Caroline, irmã do Doutor Sheppard, médico da vila que é o narrador dessa trama. A utilização desse narrador cuidadoso que acompanha Poirot ao longo de toa a investigação é assumidamente um espelho do Capitão Hastings, que casou-se ao final de Assassinato no Campo de Golfe e está agora morando na Argentina. Poirot lembra-se com muito afeto do amigo e praticamente gruda no Doutor Sheppard com o intuito de fazer um “amigo-vizinho-Watson” nesse caso inesperado em sua carreira.

Como sempre, contamos com uma lista recheada de suspeitos e não ficamos unicamente presos à investigação da morte do rico e sovina Ackroyd, apunhalado pelas costas no mesmo dia em que recebeu uma carta que possivelmente lhe revelaria segredos que alguém gostaria muito de manter escondido. Esses mistérios menores, no entanto, não acontecem apenas como uma distração para o leitor ou para cumprir alguma espécie de necessidade de mais páginas para o livro. Agatha Christie sempre procurou criar camadas misteriosas aparentemente muito distantes e que terminam por estar amarradas ao caso principal, situações que neste livro ganham um tratamento absolutamente fino.

A autora mantém o humor e brinca com a ideia de um bode expiatório, nesse caso, o indivíduo que por qualquer ângulo que olhemos, está ligado ao crime. Evidente que suspeitamos desse recurso já nos primeiros momentos, mas a autora nos faz volta e meia questionar se isso é apenas “óbvio demais, portanto impossível” ou se o jogo da vez é a aposta na simplicidade. Na reta final do livro, quando a solução para o caso chega, o leitor tem uma preparação que parece ser um tremendo de um anticlímax, mas que na verdade é a porta de entrada para o melhor momento da obra e um dos marcos literários para o gênero, contando inclusive com uma inteligente exposição metalinguística, de como a escrita aqui deu evidentes pistas do que estava acontecendo, mas no momento em que apareceram, não tínhamos como saber que eram uma pista.

SPOILERS!

É até comovente a posição de Poirot ao final de O Assassinato de Roger Ackroyd. Ele procura evitar que o Doutor seja denunciado em respeito a Carolina, a vizinha velhinha e fofoqueira que adorava o irmão e que ficaria simplesmente perturbada em saber que morava com um assassino. Há um elemento de cruel moralidade aqui que se assemelha — guardadas as devidas proporções — à escolha feita pelo detetive no encerramento de O Assassinato no Expresso do Oriente. O proverbial “o inimigo mora ao lado” nunca foi tão verdadeiro em uma aventura. E desta vez, Agatha Christie conseguiu um feito verdadeiramente inesquecível com ele.

O Assassinato de Roger Ackroyd (The Murder of Roger Ackroyd) — Reino Unido, junho de 1926
Autora: Agatha Christie
Editora original: William Collins & Sons
Edição lida para esta crítica: Globo Livros (2001)
Tradução: Renato Rezende
308 páginas

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