Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Ataque das Araras e O Guru e os Guris

Crítica | O Ataque das Araras e O Guru e os Guris

por Luiz Santiago
131 views (a partir de agosto de 2020)

A ironia foi uma das marcas centrais do cinema experimental brasileiro na década de 1970 (mas não só), e a ironia foi o caminho escolhido pelo cineasta paulista Jairo Ferreira na maior parte de suas criações. Frequentemente associado ao Cinema Marginal (não à toa, mas sim por ter feito filmes que se enquadram no movimento), ele procurou produzir um cinema de “contatos e desafios“, ligando o público a uma temática específica através da manipulação incomum e propositalmente “ultrajante” da linguagem cinematográfica.

Aqui em O Ataque das Araras ele realiza uma viagem ao Amazonas, segundo a sinopse do filme, “acompanhando o grupo de teatro que o escritor Márcio Souza manteve em Manaus antes de se dedicar exclusivamente à literatura“. Essa visita ganha tons irônicos na narração feita pelo próprio diretor e por Carlos Reichenbach, comentando acontecimentos ligados à execução de uma peça no Teatro Amazonas (A Maravilhosa História do Sapo Tarô Bequê, de Márcio Souza), e também à presença de uma equipe de diretores japoneses que filmavam a região, subindo o Rio Negro e à outra presença, de uma equipe paulista (fala-se de Boca do Lixo e tudo!) que filmava um comercial.

Neste curta experimental, o espectador é convidado a refletir, a rir e a compartilhar a ironia através de uma exposição simples, mas ao mesmo tempo dinâmica e inesperada. Um instantâneo rápido sobre eventos em Manaus do qual o diretor tira uma triste lição cultural e sociológica. A frase que encerra o curta dá o tom geral dessa constatação: “politicamente, o Amazonas pertence ao Brasil; culturalmente não“.

O Ataque das Araras (Brasil, 1975)
Direção: Jairo Ferreira
Roteiro: Jairo Ferreira
Elenco: Jairo Ferreira, Carlos Reichenbach, Márcio Souza, Lilian Filgueiras, Fátima Andrade, Mardonio Rocha
Duração: 11 min.

.

O Guru e os Guris

Encontrar uma voz que “falasse a verdade” sobre um assunto que muita gente só consegue falar com muitas reservas foi o que levou Jairo Ferreira a conversar com Maurice Legeard sobre cinema, clássicos, diretores e cineclubismo. Legeard era diretor do Clube de Cinema de Santos, um dos mais antigos do Brasil, e sua experiência com exibição e discussão de filmes junto a um público serviu para tocar a conversa que aqui passa por um grande número de tópicos relacionados à produção, políticas, qualidade e cultura popular quando se fala de cinema brasileiro.

As temáticas não são exatamente polêmicas, mas decerto são muito provocadoras. Legeard propõe alguns exercícios de percepção e valorização da nossa cinematografia, falando não só ao espectador comum, mas também (e talvez principalmente) a nós críticos e pessoas responsáveis por colocar o cinema nacional na boca do povo: “pede a qualquer cinéfilo aí… cita 10 filmes de Fritz Lang, 10 filmes de Fellini, a filmografia de Frankenstein… agora pede pra alguém citar 4 filmes de Joaquim Pedro de Andrade, 2 filmes de Paulo César Saraceni“…

A forma utilizada aqui parte do que o diretor chamava de “Cinema de Invenção”, a estética que também conhecemos como marginal, a tomada criativa que, com poucos recursos, atingia direta e intensamente os problemas que se propunha criticar. Nesse curta, Jairo Ferreira cria uma visão geral sobre preferências, divulgação, divergências teóricas e popularização do cinema, tudo através de uma opinião que, sem som sincronizado, fala como uma voz do além à medida que vemos Maurice Legeard em diversos espaços, gesticulando, lendo, fumando. Um dos curtas mais verdadeiros e provocadores para cinéfilos que eu já vi.

O Guru e os Guris (Brasil, 1973)
Direção: Jairo Ferreira
Roteiro: Jairo Ferreira
Elenco: Maurice Legeard
Duração: 11 min.

Você Também pode curtir

6 comentários

O Gambit dos x-men 30 de junho de 2020 - 10:44

Oba!, nada que uma boa crítica de um filme nacional para completar esta terça feira! kkkkkkk

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 30 de junho de 2020 - 12:44

Eu interpretei de umas 65 formas diferentes essa frase e não sei exatamente como sentir! AHHAHAHAHHAAHHAHAHAHAHAHAH

Responder
planocritico 30 de junho de 2020 - 01:23

Ainda bem que você escolheu imagens EM ALTÍSSIMA DEFINIÇÃO…

Abs,
Ritter, o 4K FULL HD.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 30 de junho de 2020 - 02:12

ME DEIXA EM PAZ, DESGRAÇA!!!

Pior que isso tá me deixando bem incomodado. Só que não tem imagens em altíssima definição para esses filmes! Tive que me virar com o que encontrei de melhor! :'(

Responder
planocritico 30 de junho de 2020 - 03:00

Não dá nem para ver as araras!!! EU QUERO VER AS ARARAS!!!

Abs,
Ritter, o Arara.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 30 de junho de 2020 - 03:00

Tô pensando aqui se te dou ou não um spoiler…

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais