Home FilmesCríticas Crítica | O Barco (2020)

Crítica | O Barco (2020)

por Davi Lima
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O suspense total se empreende pela forma direta e concreta de um novo universo praieiro no filme O Barco, em que simultaneamente há um exercício forte de imersão em algo que nunca se conhece plenamente. Essa forte antítese de imergir em algo continuamente misterioso, que vai se transformando em paradoxo narrativo, não se vale pela descoberta investigativa ou por revelações, e sim como a imagem do filme, com falésias e voz marítima, transporta o espectador para um mundo hiper sensitivo, com um pai mudo, um sábio cego e uma mãe vidente. Evoca-se, assim, uma composição lírica em suas representações, uma característica história de pescador em termos mitológicos e tratamento do mar, com o horizonte delimitando o conhecimento, mas se diferenciando pelo rigor cinematográfico situando anseio e mistério.

Desde a primeira cena, o diretor Petrus Cariry não apenas incita o público para desbravar o mistério, como também determina como o mar é sempre observado por um cego, em uma imagem que define a silhueta de um idoso sábio na contraluz vindo de uma porta. Além disso, há uma narração introdutória, enquanto uma mulher é trazida pela maré. Tal descrição é a fixação misteriosa de uma narrativa que vai se internalizando, com descobertas silenciosas verbalizadas por Ana (Samya De Lavor), que se permeiam na dúvida se é experiência dela ou um encanto. Nesse sentido, o filme que conta sobre o que o mar traz para mudar o contexto intacto de uma mãe que nomeou seus filhos com as letras do alfabeto, e a vida de pescadores como parte da natureza na Praia das Fontes no Ceará, um universo único, um novo mundo através do cinema.

O que se pode perceber em cada cena não é como cada falésia é bem gravada, como uma imagem de transição que torna o longa-metragem mais lento, e sim como as cores e as luzes nos cenários contam sobre o que são os personagens diante da natureza. De maneira geral, cores quentes e cores frias, de maneira bem contrastante, singularizam, tornam autoral o mistério na história. Os personagens gravados se tornam seres da imagem, e isso é totalmente o que o filme quer contar, como cada pescador ou se embebeda na penumbra que a cor azul marítima torna indecifrada ou como o protagonista chamado “A”, diante do céu azul, é pincelado pela fotografia como o ser mais avermelhado, pronto para descobrir algo do outro lado. É o aspecto sensitivo transposto para a tela, em que o êxtase é mostrar o ator Rômulo Braga embasbacado, impressionado, experimentando o conhecimento do novo que mar traz. A relação humanística e natural, por exemplo, na mãe Esmerina (Verônica Cavalcanti), é apresentada no filme em sequência de imagens que mostram cada vez mais sua localização em frente à casa, no alto e bem perto do mar, como a criação de antíteses em prol do mistério, enquanto parece dimensionar locais e fixá-los em uma imagem estática.

Em essência, a adaptação roteirizada de Rosemberg Cariry, Petrus e Firmino Holanda do conto O Barco, escrito pelo cearense Carlos Emílio Corrêa Lima, é uma história de pescadores, jangadeiros cearenses de caráter menos popular em seu tema desenrolado, falando dos símbolos individuais da profissão, de tecer a rede e ouvir histórias de uma mulher misteriosa caracterizando uma associação mais comum para quem assiste. Dessa forma, as simbologias vão narrando esse conto de pescador, ao mesmo tempo que fazem o público conhecer o contexto local, apontando a revelação do mistério que já havia e vai sendo suscitado. O lirismo é o aporte transgressor, que permite a sustentação do suspense por aspectos mais concretos, com foco na maneira como as letras do alfabeto desenhadas no filme e o misticismo de Ana, trazida pelo mar, trazem o letramento como escopo de experiência intelectualmente emocional. 

Quando o personagem “A” narra como Ana contava histórias de homens oprimindo-a em navios portugueses ou ingleses, o filme revitaliza o cerne das histórias de pescador, ao mesmo que se despe e traz sons fantasmagóricos. Lembramos de contos de sereias. E nesse sentido, o verbalizar no filme e as figurações dos personagens como símbolos familiares em um grupo de pescadores tornam o mistério a própria revelação, seja em drama misterioso ou em objetificação de um livro quanto ao significado diverso de uma letra para verbetes, como uma metáfora de descobrimento inacabável sobre um anseio indecifrável.

Emocionalmente e implicitamente, Cariry apresenta um filme em formato de anagrama lírico, composto por antíteses que formam palavras palíndromas, como efeito de um paradoxo. Quando o barco é efetivado em toda a sua arquitetura, descrita em sua simetria, uma terra de jangadeiros perde um pescador de primeira letra. Essa mesma terra, porém, é a comprovação de que não se sabe para onde o barco vai e em vez da tensão finalizadora tomar conta, os personagens descansam, talvez indicando uma pacificação quem não descobre o mistério, mas levanta dúvidas. Não há pressa para desvendar o final. O que o diretor Petrus Cariry permite entender é como a viagem de saída não abandona a imersão cinematográfica criada praia. Como a constatação da natureza evidencia novas interpretações sobre a realidade. E nessa relação, o suspense é a fomentação dos anseios do homem.

O Barco (O Barco) – Brasil, 2020
Direção: Petrus Cariry
Roteiro: Petrus Cariry, Rosemberg Cariry, Firmino Holanda com base no conto O Barco de Carlos Emílio Corrêa
Elenco: Rômulo Braga, Verônica Cavalcanti, Samya De Lavor, Nanego Lira, Everaldo Pontes
Duração: 72 min.

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