A primeira adaptação do romance O Beijo da Mulher Aranha, do argentino Manuel Puig, é bastante celebrada como uma importante peça no cinema e por sua alegoria política centrada no período da ditadura. Dirigido por Hector Babenco, o filme narrava a história de dois prisioneiros em regime autoritário: Molina (William Hurt), um homossexual fissurado em contos e melodramas e preso por ter molestado um jovem e Valetin (Raul Julia), um político revolucionário. Se passando em um país que nunca é citado, acompanhamos essas duas figuras opostas quase que inteiramente dentro da cela que dividem. Nesse ponto, vale destacar como somos apresentados a esse espaço: enquanto Molina compartilha uma das muitas histórias dos filmes que assistia — a descrição luxo e da vista para Torre Eiffel — a câmera de Babenco passeia sem pressa pelas paredes acinzentadas do ambiente escuro, barras enferrujadas e pinturas que esboçam a ideia de liberdade, até chegar a uma penteadeira improvisada e sem espelho ao tempo que entendemos que as imagens mostram uma realidade distante da narração do protagonista.
Embora o filme tenha iniciado com um contraponto discreto, é como Babenco discute a arte e imaginação como escapismo — afinal, aos poucos, fantasia e história se entrelaçam, e não é atoa que a figura feminina que Molina cita, vivida por Sônia Braga, funciona como uma alegoria do seu personagem — explorando temas como sexualidade, masculinidade, liberdade, repressão e a conexão mútua como resistência. A todo tempo, a linguagem utilizada por Babenco — que cresce com a fotografia de Rodolfo Sánchez — enfatiza como as diferenças entre Molina e Valentin vão além da orientação sexual; é um embate de mundos e experiências opostas que O Beijo da Mulher Aranha acontece. Um exemplo disso, é que em uma das repetida frase do que seria um “um homem de verdade/ideal”, enquanto está no chão e olhando para cima (com a câmera assumindo o seu ponto de vista) Molina explica o tipo de homem que idealiza, quase que como uma fantasia imaginar, e quando a perspectiva muda para o parceiro de cela, a câmera sobe junto a Molina até permanecer em Valentin expondo sua visão do “homem que aguenta tudo”.
Se por um lado um enxerga o mundo com um certo romantismo — tanto que usa a memória de uma personagem de cinema, e idealiza a pessoa que quer ser: forte, independente, bela e sedutora — o outro quer manter a disciplina e a revolução dentro da cela, seja ao ignorar comidas que o fariam parecer acomodado ou reconhecer o teor antissemita dos filmes narrados por Molina. E esse contraste não fica apenas nos diálogos, mas também na composição dos personagens. Há uma certa passagem de tempo que se perde entre os resumos dos longas assim como a cidade que a trama se passa, porém a caracterização de Julia como Valentin é sempre marcada pelas cicatrizes, os machucados e a molhada de suor e sangue de quando é interrogado como lembrete pelo o que está lutando o que o levou a ser encarcerado, enquanto a forma de Molina sobreviver a prisão é acentuada pelo roupão estampado, a barba feita, o rosto maquiado, e penteadeira com fotos das suas musas do cinema.
A presença do cinema em si vai além da idéia do fascínio pela arte uma vez que o exercício metalinguístico do filme dentro do filme funciona como projeção de ambos personagens: da mesma forma que Sônia é o rosto da cantora Leni Lamaison que Molina se imagina como sua projeção ao se personalizar e reproduzir seus trajetos, é também o rosto de Marta antiga paixão de Valentin. A cena final exemplifica isso muito com o último conto de Molina ilustrando o episódio por trás do título e também sendo uma alegoria, uma forma de despedida assim como Marta surge para Valentin ao ser injetado com morfina. O que Babenco propôs com o filme não se resume a apenas a um estudo de personagens, e sim como a história pôde ser contada. Ao se concentrar boa parte em um único ambiente, O Beijo da Mulher Aranha se faz um trabalho de câmera que explora as nuances e aproximações de duas pessoas opostas em confinamento sem quase nunca sair do lugar — mesmo com os flashbacks e narrações sobre filmes, ainda estamos na cela acompanhando suas memórias e pensamentos.
No final, essas duas figuras opostas aprenderam a se gostar e se amarem, e isso que a faz a narrativa ser tocante e memorável, e também pela maneira simples, mas ainda sensível e única com a qual O Beijo da Mulher Aranha trabalhou os seus temas. Se antes parecia que um precisaria se anular para sobreviver a este processo, uma terceira alternativa surge como se um influenciasse outro: enquanto Molina se sacrifica pelo que ama, uma opção antes fora de cogitação, Valentin aceita usar um pouco da fantasia da imaginação para estar um lugar melhor, aos braços da sua amada. Depois de tanto exercício melodramático, o filme termina de forma poética, com o escapismo que a arte pode proporcionar.
O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman – EUA, Brasil, França e Alemanha – 1985)
Direção: Hector Babenco
Roteiro: Manuel Puig, Leonard Schrader
Elenco: William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, José Lewgoy Warden, Milton Gonçalves, Míriam Pires, Nuno Leal Maia, Fernando Torres, Patricio Bisso, Herson Capri, Denise Dumont, Nildo Parente, Antônio Petrin, Wilson Grey, Miguel Falabella
Duração: 120 min
