Parte das discussões propostas pelo romance Manuel Puig, O Beijo da Mulher Aranha, apontava a mágica do cinema como refúgio frente a violência e repressão da ditadura, e na adaptação de Hector Babenco, a ideia da representação da arte do cinema, da imaginação como escapismo para dois condenados que dividiam uma cela se fazia o plano de fundo ideal para o longa trabalhar suas temáticas. Tendo esse narrativo da forma de fazer arte e poder do cinema, Bill Condon propõe um musical como releitura da obra do escritor argentino, adaptando o musical da Broadway (1992) enquanto homenageia os grandes clássicos que Hollywood possui com o gênero na história do cinema. Então, a metalinguagem de ter um filme dentro do filme encontra um caminho diferente por se tratar de um musical que referencia outros nomes.
Responsável por nomes como Dreamgirls: Em Busca de Um Sonho e A Bela e a Fera, na esteira de fazer dessa refilmagem um musical que homenageia os clássicos da MGM, Condon abraça a artificialidade e até teatralidade — talvez por pegar aspectos do musical da Broadway — a fim de compor essa abordagem que se divide entre um drama com tons frios e escuros e as cores vivas dos musicais nas décadas de 40 e 50. Para um filme do gênero, é estranho como Kiss of the Spider Woman tem a magia de um musical, com números bem coreografados mas que pode não ser tão memorável com as canções genéricas compostas por John Kander e Sam Davis, porém, quem tira de letra e brilha com o tom teatral e performático das atuações é Jennifer Lopez, ao viver a estrela de cinema Ingrid Luna.
Com inspirações nos longas estrelados por Gene Kelly, fica claro também que o filme homenageia outras figuras como Marilyn Monroe, mas fazendo isso ao seu próprio estilo. Diferente do drama visceral que alternava as passagens na prisão clandestina com flashbacks e das narrações de William Hurt, a versão protagonizada por Tonatiuh e Diego Luna traz uma nova visão para a obra de Puig com um musical que quer relembrar os clássicos e contar essa história pelo prisma esperançoso, vivo e encantador que o musical permite. A fim de ser o mais fiel possível ao referenciar o período de ouro dos musicais em Hollywood, há poucos cortes nas cenas, o que faz parecer que os números musicais foram gravados numa única tomada, junta isso o cenário ter cores vibrantes como se tivessem sido pintadas, o que deixou o design de produção ainda mais colorido, com as roupas, luzes e fotografias remetendo ao technicolor.
Muito do que fez a adaptação de Babenco ser densa foi graças a construção de Molina e Valentim e como a condição em que se encontravam ameaçam a relação que nutriam, e aqui o roteiro de Condon antecipa — ou até suaviza para não — momentos pontuais como a discussão do que seria “um homem de verdade”, ou quando revelam que Molina é um infiltrado para que o musical tenha mais espaço. Embora não seja como seus trabalhos anteriores e esteja longe de ser uma obra-prima, O Beijo da Melhor Aranha funciona dentro da sua proposta de reimaginar um clássico enquanto homenageia o palco do cinema musical. Pode ser um feito memorável, mas o longa sabe ser encantador assim como o elenco extrai o melhor disso ao viver diferentes personagens que se entrelaçam pela ideia do filme de fazer cinema e falar de cinema por meio da metalinguagem. Nesse sentido, Condon amplia esse aspecto do romance de Puig e da peça de Terrence McNally para um musical cinematográfico.
O bom exemplo de como a abordagem com o musical cresce e potencializa os personagens, é que, em paralelo a cena que Molina se sacrifica, um último número musical contrapõe o cenário cinzento e frio da cena com um jogo de cores amarela, vermelho — com diferentes simbolismos visuais — e azul e uma valsa. Mesmo que não tenha conseguido dialogar com o cenário político atual além da sua promessa e sem se opor ao feito da versão de Babenco ser importante para a história do cinema latino-americano, a releitura musical de O Beijo da Mulher Aranha pode não ser impressionante visto a bagagem de Condon com o gênero, mas pode ser visto por seu esforço genuíno de focar sua versão na história de amor dos seus personagens do que no conflito político que envolvia a época.
O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman – EUA, 2025)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Bill Condon (baseado no livro de Manuel Puig e no musical de Terrence McNally)
Elenco: Diego Luna, Tonatiuh, Jennifer Lopez, Bruno Bichir, Josefina Scaglione, Aline Mayagoitia, Lucila Gandolfo
Duração: 128 min
