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Crítica | O Bom Dinossauro

por Iann Jeliel
71 views (a partir de agosto de 2020)

Assistir a O Bom Dinossauro nos cinemas foi encantador. Mesmo que a produção tenha passado por diversos problemas de finalização, esses só podiam estar vinculados à narrativa e história, porque em termos técnicos este é o auge de uma Pixar que possivelmente atingiu a máxima gráfica da tecnologia de animação em 3D. O nível de detalhismo dos cenários em textura é tão absurdamente realista que dá pra pensar que a animação mais cartoon do design dos personagens foi feita sobreposta a fotografias de ambientes de verdade, tamanha a verossimilhança das florestas, campos abertos, montanhas, faça chuva ou faça sol e como essas mudanças de clima afetam os personagens. Enfim, é um espetáculo visual animado à parte que tinha todas as ferramentas para auxiliar a tentativa falha da Pixar em transformar sua narrativa em algo mais sensorial.

Em termos de estrutura, O Bom Dinossauro talvez seja o filme que menos pensou adaptativamente a fórmula Pixar para se adequar à história, porque os pormenores específicos são insuficientes para dar o mínimo de personalidade à obra. Trata-se de uma típica e literal jornada de volta para casa, em que o aprendizado não ressignifica nada por trás das motivações que deram origem a esse distanciamento geográfico de casa, sendo somente um meio forçado para o protagonista sentir menos medo, apesar do seu tamanho. Ora, seu parceiro humano é uma criança selvagem que não tem medo de nada, e assim a relação dos dois se estabelece por essa identificação; o pequeno corajoso dá coragem ao pequeno medroso, quando os dois pequenos desejam voltar para o aconchego da família que os “abandonou” quando morreram.

O arco é tão simplório que nem mesmo a base de conflito estabelecida em Spot ter sido “o responsável” pela morte do pai do protagonista Arlo, quando foram caçar irresponsavelmente no meio da chuva, tem qualquer relevância nessa transformação, sendo ignorada logo de princípio para promover a química que irá sustentar interações divertidas no cenário deslumbrante de um mundo muito pouco explorado. A Pixar, no entanto, não parece estar interessada em seu universo, tanto que nem faz questão de povoá-lo, partindo do chamariz da premissa em que dinossauros e humanos conviveram numa época pré-histórica. As bases da história até trazem algumas de suas brincadeiras que colocam os dinossauros humanizados e os humanos animalescos, mas não passa da camada da piada mesmo.

O que importa ao filme é a construção do arco no emocional dos dois que ele escolhe para contar a história, que acaba não emocionando como o filme planeja por depender demais de um envolvimento ao sensorial visual que não dá margem a uma construção harmônica de seus personagens. Acaba caindo em terreno apelativo, especialmente no terceiro ato que se resolve numa clássica cena emotiva do estúdio, sem o fator virada e sem o fator “ressignificação” da história, uma vez que a amizade dos dois já havia sido estabelecida, bem como a premissa de que o outro estava sem família. Então, a direção tenta impulsionar o choro por meio de uma trilha melodramática barata e um teor imagético que tenta impactar os olhares infantis.

Dá até pra dizer que funciona lá no início, quando acontece uma cena à la Mufasa em O Rei Leão, mas mesmo aquela está diluída pela obviedade da condução que a torna tão previsível ao ponto de distanciar o aspecto emocional que tenta vir de novo de maneira forçada. Acredito eu que havia dois caminhos para O Bom Dinossauro ser um filme melhor: ou assumia mais seu lado simples como aventura de emoções puramente vindas de dificuldades geográficas ou assumia um roteiro com mais suplementos de seu universo que potencializaria a história íntima. No fim, ainda é um bom e divertido filme da Pixar, mas sem dúvida, um de seus mais esquecíveis.

O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur | EUA, 2015)
Direção: Peter Sohn
Roteiro: Meg LeFauve (Baseado na história original de Peter Sohn, Bob Peterson, Erik Benson, Kelsey Mann e Meg LeFauve)
Elenco: Jeffrey Wright, Frances McDormand, Marcus Scribner, Raymond Ochoa, Jack Bright, Steve Zahn, Peter Sohn, Sam Elliot, Anna Pacquin, A.J. Buckley
Duração: 100 minutos

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