Crítica | O Bruto (1953)

estrelas 4

Depois do realismo cru de Os Esquecidos e das pinceladas realistas (múltiplas de outros subgêneros) trabalhadas em Subida ao Céu, Buñuel realizou O Bruto, uma obra pequena e da qual o diretor pouco se lembraria ou comentaria nos anos seguintes, mas que consta entre as melhores películas encomendadas que ele entregou aos estúdios mexicanos.

O ponto de partida da história é bastante simples. O dono de um terreno deseja derrubar as casas de uma vila inteira para ali poder construir uma mansão. Para que as obras comecem, ele precisa fazer com que os inquilinos aceitem a ordem de despejo e partam de suas casas o quanto antes possível. Por encontrar forte resistência, o proprietário usa de um valentão, O Bruto, para amedrontar a população local e “dar um jeito” nos líderes das manifestações.

Extremamente objetivo, o roteiro de Buñuel e Alcoriza trabalha com a apresentação e em seguida enfrentamento dos personagens, mas de um modo muito particular. Ao invés de expor de maneira taxativa o comportamento bom e mau de uma pessoa – ou de um grupo – os roteiristas exploraram a relativização desse comportamento, desafiando a sensibilidade do espectador, que em dado momento da obra se sente um tanto culpado por torcer para o bandido.

Mesmo a colocação dos papéis representados na sociedade é suspensa, porque questões subjetivas e muito particulares, como a pequena inteligência do Bruto e as mentiras do patrão Andrés Cabrera, funcionam praticamente como circunstâncias atenuantes de alguns eventos. É evidente o rancor de Buñuel para com a exploração dos mais pobres e, principalmente, para o exercício da justiça do Estado em relação a essa classe. Comparado aos favores e facilidades dos endinheirados, até o modo dos menos favorecidos contestarem os abusos cometidos contra eles parece sem valor.

Já numa esfera completamente diferente, temos as relações amorosas. É claro que há espaço para a convivência comunitária, o senso de responsabilidade social dos moradores da vila e a amável relação entre pai e filha, logo nas primeiras cenas – uma forma de nos prepararmos emocionalmente para o choque da morte do pai –, mas o que ganha maior destaque é mesmo o desejo sexual e a paixão que envolve o triângulo Pedro “Bruto”, Meche e Paloma.

Assim como em Susana, Buñuel cria dois modelos femininos, mas não volta à discussão da prisão do desejo e fingimento do recato. A religião aqui é posta de lado e as duas mulheres não estão presas a preceitos de casamento ou sexo por obediência ao marido (procriação), como pode-se comprovar na observação do casal Paloma e Andrés. A mulher só se deixa acariciar e demonstra algum desejo após o seu primeiro encontro com o Bruto, e, evidentemente, está fantasiando com ele enquanto é tocada pelo marido. Não há uma condenação sequer social para o adultério (exceto a questão da “honra masculina”), de modo que Paloma é ‘vilanizada’ por sua paixão sufocante em relação a Bruto – a ponto de querer vê-lo morto a estar com outra mulher – e em relação às outras pessoas, vide a frieza com que alerta Andrés sobre os inquilinos revoltosos na vila a ser desocupada.

Em contrapartida, Meche assume o papel da mulher “mãe e esposa”, não necessariamente pura ou recatada, mas com uma postura amável e doce. O senso de responsabilidade que parecia artificial em Paloma (as flores secas, por exemplo) se torna perfeitamente natural em Meche, e isso desde o início, quando assume a agenda diária do pai e organiza tudo o que é necessário para a sua jornada de trabalho. De alguma forma isso tem um sentido ainda maior do que parece, porque a idade entre as mulheres é diferente, e sendo Meche mais nova e com um senso de responsabilidade maior, acabamos por tomar-lhe partido e ver nela um misto de sofrimento e amabilidade que jamais associaríamos à vamp Paloma.

Todavia, mais que o bom roteiro do filme, temos o excelente apuro estético, onde se superam Buñuel na direção de um filme que é “menor”, mas não tratado como tal, e Agustín Jiménez, o diretor de fotografia. A iluminação praticamente noir nas cenas noturnas e muitíssimo suaves nas diurnas já seriam elementos a serem elogiados, uma vez que o fotógrafo realiza esses exercício o filme inteiro, gerando um contraste estético onde também existe um contraste dramático. A exploração das sombras do Bruto ou dos homens do vilarejo que o procuram, o uso da luz difusa para os momentos de peixão proibida, a composição dos planos em ambientes escuros, tudo isso mostra o excelente trabalho de Jiménez, que ainda se superaria dois anos depois em Ensaio de um Crime.

Mesmo que não apareça muito na galeria das grandes obras de Buñuel, O Bruto é um ótimo filme e tem uma visão muito interessante sobre o modo como os indivíduos são rotulados ou percebidos de maneira distinta dependendo de um determinado contexto (lembram-se de Geni e o Zepelim?). A obviedade da afirmação não impede que, até hoje o tipo de comportamento pré-conceitual exista, mesmo que se saiba todos os ‘problemas’ morais e éticos que isso envolve. Mesmo que se trate de um bruto à primeira vista, é possível que haja uma outra pessoa por trás da aparência. E é sempre bom lembrar que nunca se sabe que eventos podem transformar um crápula em um herói.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de abril de 2013. Revisada para republicação em 01/05/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

O Bruto (El Bruto) — México, 1953
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Alcoriza, Luis Buñuel
Elenco: Pedro Armendáriz, Katy Jurado, Rosa Arenas, Andrés Soler, Beatriz Ramos, Paco Martínez, Roberto Meyer, Gloria Mestre, Paz Villegas, José Muñoz
Duração: 81 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.