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Crítica | “O Cair da Tarde” – Ney Matogrosso

Cirandas, clássicos e folclóricos.

por Iago Iastrov
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Após um longo período de produções em que trabalhou repetidamente com Marco Mazzola, ao longo das décadas de 1980 e 1990, Ney Matogrosso assumiu em 1997 o controle total de sua produção artística. Essa ruptura administrativa também representava a liberdade de escolher exatamente o que gravar e como fazer. O disco que se seguiu a essa ruptura foi O Cair da Tarde (1997), onde Ney decidiu trabalhar com dois compositores fundamentais da música brasileira, Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim. O projeto retomava um trabalho anterior, A Floresta do Amazonas (1987/1988), gravado com João Carlos Assis Brasil e Wagner Tiso pela Kuarup Discos, interpretando três canções da suíte de Villa-Lobos em arranjos experimentais com sintetizadores e manuscritos inéditos da trilha cinematográfica original. Agora, com autonomia plena, o artista expandia aquele repertório villalobiano para incluir Serestas, Bachianas Brasileiras e cirandas folclóricas, estabelecendo pela primeira vez um diálogo direto entre Villa-Lobos e a obra de Jobim.

Produzido por João Mário Linhares e Zé Nogueira, O Cair da Tarde reuniu músicos de primeiríssima linha: Leandro Braga nos arranjos e piano, Ricardo Silveira nas guitarras e violões, Márcio Montarroyos no flugelhorn, Bruce Henri no contrabaixo, além do grupo mineiro Uakti criando atmosferas com seus instrumentos inventados. O repertório privilegiou obras entre o erudito e o popular: de Villa-Lobos, canções da suíte Floresta do Amazonas composta em 1958 com letras de Dora Vasconcelos; Serestas com texto de Manuel Bandeira; Bachianas Brasileiras e cirandas folclóricas. De Jobim, composições com Vinícius de Moraes e peças instrumentais que carregam sua sofisticação harmônica característica. A abertura com Cair da Tarde e Modinha estabelece o território estético da obra. A primeira canção, extraída da suíte orquestral que Villa-Lobos compôs para o filme A Flor que Não Morreu (Green Mansions) em 1958, é apresentada com delicadeza camerística pelos instrumentos de Uakti, cujos timbres recriam a floresta amazônica através de texturas orgânicas.

Ney canta sem drama excessivo, deixando que a melodia respire em frases longas e legato impecável. A transição para Modinha, de Jobim e Vinícius, vem com Braga ao piano e Nogueira na flauta G, fortalecendo a linhagem das serestas brasileiras, gênero revisitado por ambos os compositores. Em Veleiros, os sons de Uakti acrescidos do sax soprano e flugelhorn evocam a imensidão dos rios amazônicos. O Tema de Amor de Gabriela é despido de sentimentalismo televisivo: piano, sax soprano e contrabaixo propõem uma leitura jazzística enquanto a voz se move naturalmente entre registros. A Modinha – Seresta nº 5, com letra de Manuel Bandeira sobre música de Villa-Lobos, representa um dos momentos mais contemplativos, com a flauta de Artur Andrés Ribeiro apresentando contracantos delicados. Em Sem Você, apenas piano e sax soprano sustentam a canção, obrigando a voz a assumir protagonismo absoluto. Ney responde com interpretação muitíssimo bem articulada, fazendo de cada sílaba um acontecimento melódico.

Melodia Sentimental equilibra o exotismo de Uakti com guitarra e flugelhorn, enquanto a percussão de Zero Telles em cabaça e djembê sugere pulsações orgânicas. Canção em Modo Menor é interpretada no modo essencial: piano solo ressaltando a estrutura modal jobiniana. O Prelúdio nº 3 (Prelúdio da Solidão), com letra de Hermínio Bello de Carvalho, expande a intimidade do prelúdio original através de guitarra, piano, flugelhorn e os instrumentos de Uakti. A Cantiga (Caicó) das Bachianas Brasileiras nº 4 traz letra de Teca Calazans e sotaque nordestino sutil que honra a origem sertaneja da melodia sem regionalismos desrespeitosos. O bloco das Cirandas constitui o núcleo mais radicalmente brasileiro, reunindo canções de domínio público e adaptações de Villa-Lobos sobre temas folclóricos. Os arranjos de Braga e Marco Antônio Guimarães criam uma marca sonora complexa através dos instrumentos de Uakti: pan inclinado, grande pan, marimba de vidro, peixe e chori smetano. Ney interpreta com uma humildade que traz a simplicidade original sem infantilizar, assumindo qualidade lúdica, mas mantendo precisão técnica.

O Trenzinho do Caipira, com adaptação vocal de Edu Lobo sobre letra de Ferreira Gullar extraída do Poema Sujo, conserva a qualidade onomatopaica da composição villalobiana original através da percussão variada simulando sons da locomotiva, enquanto piano, guitarra, sax soprano e flugelhorn descrevem a viagem pelo interior. Águas de Março equilibra leveza e sofisticação: a percussão em pandeiro, djembê, surdo, triângulo e ganzá estabelece uma levada brasileira enquanto a voz passeia pela sucessão de imagens jobinianas sem pressa. O encerramento, com Pato Preto, surpreende pelo tratamento rítmico que incorpora elementos de marcha, enquanto Uakti recria atmosfera aquática com seus instrumentos inventados. A viola de 12 cordas e o trompete de Montarroyos completam a instrumentação, e Ney encerra o disco mesclando humor e técnica numa melodia sinuosa. O Cair da Tarde mostra, mais uma vez, Ney Matogrosso transitando entre repertórios diversos do seu próprio jeito. Se em 1987 o trabalho com Assis Brasil e Tiso havia proposto uma leitura experimental e vanguardista de Floresta do Amazonas, aqui Ney amadurece essa relação com Villa-Lobos, expandindo o repertório e criando ponte com a obra de Jobim, demonstrando que a fronteira entre erudito e popular na música brasileira é território fértil o bastante para continuar gerando obras-primas.

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O Cair da Tarde
Artista: Ney Matogrosso
País: Brasil
Lançamento: 1997
Capa: Patrícia Chueke
Gravadora: Polygram
Estilo: MPB, Música Clássica, Seresta, Modinha, Ciranda, Música Folclórica
Duração: 57 min.

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