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Crítica | O Caminho para El Dorado

por Davi Lima
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Em 1992, o diretor Ridley Scott dirigiu um filme chamado 1492: A Conquista do Paraíso, em comemoração à viagem de Cristóvão Colombo na chegada à América. A relação desse fato com esse filme da Dreamworks não é direta, em vista que O Caminho para El Dorado, lançado em 2000, nem comemora o massacre do espanhol Hernán Cortez contra os Astecas, nem a data condiz com 500 anos desse mesmo massacre. Porém, assim como o filme de Ridley Scott almejava dialogar com a tradição historiográfica da “descoberta” da América com as problematizações desse espírito descobridor em narrativa, a animação na encruzilhada entre o século XX e o XXI se coloca num discurso colonialista em constante reajuste humanista.

O cenário do filme parte da história vista de baixo, quando se contextualiza a jornada dos poderosos, reis, nobres e conquistadores para situar o expectador temporalmente, e depois centralizar a narrativa nos personagens coadjuvantes da historiografia majoritária, como ladrões, pobres e servos. Assim, os personagens ficcionais Túlio e Miguel, trapaceadores espanhóis, são postos fora do conforto de dados viciados, entrando aleatoriamente, dentro da realidade do filme, e “destinadamente”, para a progressão do filme, no caminho de Hernán Cortez, figura não ficcional. Dessa forma, o gênero de aventura é colocado em pauta, como as grandes histórias de foras da lei, piratas, por exemplo, que entram em contato com outras culturas ameríndias e paisagens exuberantes como apelo da história trazer conhecimento ao público de outros mundos em tempos distintos. E nesse sentido, pensando tanto no aspecto mercadológico hollywoodiano que as animações se encaixam para venda de público, quanto no discurso que as representações desse contato de espanhóis irreverentes com a Cuba do período das Grandes Navegações, chamada El Dorado, a narrativa do filme perpassa por incoerências dentro da proposta do seu cenário.

Se por um lado o simpatizar com os personagens parte da desconfiguração do heroísmo, associado aos conquistadores espanhóis na colonização, o objetivo de conquista de ouro se vale respectivo. A questão moral apenas muda de posição, mas diante do cenário ficcional do filme isso se torna um humanismo inerente aos personagens. Os símbolos de associação que os astecas faziam ao verem os conquistadores montados em cavalos, que o tornavam a imagem de deuses, como é contado nos estudos historiográficos da América, também é presente para incitar a narrativa reversa, dos coadjuvantes Túlio e Miguel experimentando chegarem antes do protagonista Hernán Cortez. Desse jeito, os ordinários se tornam deuses pela trapaça, em que narrativamente, na montagem e edição de som do filme, é extremamente plausível na mesma dinâmica aleatória e destinada posta no cenário já citado. Consta-se, assim, uma harmonia de trabalhar com esse humanismo discursivo, que envereda bem na floresta de incoerências na sua mistura com a simulação do discurso colonizante. 

Tal harmonia vale pela direção dupla de Bibo Bergeron e Don Paul, que parecem compreender bem o produto histórico da Dreamworks que tem mãos. Com o material musical de Elton John cobrando por uma boa mixagem de som e boa sobreposição rítmica com a animação, fora as progressões narrativas, os diretores aplicam no projeto a linguagem do cantor de melodia pop com uma letra intrínseca ao humanismo deslocado no século XVI que o filme contextualiza historicamente. Nessa transgressão/ousadia mínima em perspectivas temporais, até mesmo utilizando técnicas 3D para ilustrar algumas paisagens mais estáticas no movimento 2D, se revela, na verdade, por parte dos diretores um processo de constante reajuste entre narrativa audiovisual e textual com a história de discursos colonizadores, sexualizantes e anti misticismos. Porque enquanto Elton John canta como narrador na sobreposição de transições de cenas idealizantes de uma América imaginada pelo europeu, enquanto a personagem ameríndia Chel é sexualizada como tanto foi a personagem real ameríndia Malinche na história de Hernán Cortez, e enquanto o vilão Tzekel-Kan é vilanesco por ser o religioso transformado em fanático pela racionalização do humanismo; Túlio e Miguel soam apenas como colonizadores não legítimos pela coroa espanhola, e sim por Hollywood.

Porém, diante dos reajustes no maniqueísmo do filme, entre o humanismo do bem e o misticismo do mal surge o conflito e pacificação da pluralidade de ideias presente no humanismo, além da ambiguidade inerente no trabalho cinematográfico, invadindo a falsa conciliação entre espanhóis e astecas para dar voz a ficção da ficção. Portando, El Dorado das imaginações das Grandes Navegações se torna, dentro do filme, como de fato a El Dorado imaginária em uma narrativa anti-progressiva de transformação dos personagens. Por isso surge a conscientização do Chief Tannabok, líder de El Dorado, quanto a complacência da trapaça dos coadjuvantes, surge a positividade do humanismo de negar sacrifícios humanos na proporção de deixar El Dorado, e surge a união dos dois humanismos simbolizados na racionalidade de Túlio e na amorosidade de Miguel contra a colonização factual de Hernán Cortez.

A partir disso, a ambiguidade cinematográfica e audiovisual da animação do que se representa em tela para o público infantil, diante caráter mercadológico das animações de hollywood, torna até o sutil 3D uma propulsão da ideia concreta de El Dorado, rivalizando criativamente com a artificialização tecnológica em relação ao 2D do filme e com quais pontos narrativos o 3D é usado. Logo, a única progressão fatídica do filme é o reajuste de discurso, que não anula as incoerências de seu cenário, mas dimensiona a idealização de El Dorado colonizado pelo humanismo no campo da alegoria, de uma rocha talhada por foras da lei após conhecerem uma ameríndia.

Por fim, a animação é uma grande aventura musical irreverente que fez a problemática bilheteria da produção animada da Dreamworks ser memorável pelo seu desajuste discursivo humanista da transição para o século XXI. Em uma sucessão de desculpas implícitas sobre transgressões discursivas forjadas pelo próprio filme, O Caminho para El Dorado reflete bastante o filme de Ridley Scott de 1992, em que Colombo não é apenas o descobridor como também é o religioso em conflito em realmente fazer o bem, assim como o humanismo plural de Túlio e Miguel, que expõe o defeito moral na compensação de um bom coração humanitário.

O Caminho para El Dorado (The Road to El Dorado) – EUA, 2000
Direção: Bibo Bergeron, Don Paul, Jeffrey Katzenberg
Roteiro: Terry Rossio,Ted Elliott, Karey Kirkpatrick
Elenco: Kevin Kline, Kenneth Branagh, Rosie Perez, Armand Assante, Edward James Olmos, Jim Cummings, Frank Welker, Elton John
Duração: 89 minutos

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9 comentários

Björn O Colecionador De Ossos 21 de março de 2021 - 02:08

A história não é Tão sólida,mas a dinâmica do tulio e do miguel é impressionante é oq deixa o filme bom,eu sempre quis uma sequência desse filme ou uma série pra continuar a história,mas o flop foi grande.

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Davi Lima 22 de março de 2021 - 04:04

Somos 2 nessa ideia! A dinâmica dos dois é demais, o que me ganhou realmente, o que ajusta tudo no filme. Dava realmente para continuar essa história, nunca tinha pensado nisso.

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Björn O Colecionador De Ossos 22 de março de 2021 - 06:23

Dava sim pra ter um segundo filme,mas o fracasso foi gigante que a Dreamworks enterrou o fiilme.

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Kaiosama 20 de março de 2021 - 00:58

Divertido, musicas do Elton John, e a coragem de dizer a verdade, que Cortez era um assassino impiedoso e ganancioso brutal. Onde o maior tesouro do mundo é um bom amigo.

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Davi Lima 20 de março de 2021 - 01:57

Adorei! é isso aí! no final chega nesse ponto do humanismo legal que é ter um bom amigo, e é isso, além de mudar a história, né, pq o Cortez não faria o massacre. Falou tudo.

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Dalter Ls 19 de março de 2021 - 22:36

Quanta abobrinha! É só assistir e pronto.

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Davi Lima 20 de março de 2021 - 00:26

Eu assisti kkkkk, gostei, passei o dia ouvindo Elton Johh me chamando para El Dorado, e saiu isso. Qual a abobrinha?

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Gabriel Filipe 19 de março de 2021 - 17:07

Faz tempo q eu vi, mas qdo eu vi eu tinha adorado o filme

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Davi Lima 20 de março de 2021 - 00:31

Poxa, é bem divertido mesmo. Passava muito na sessão da tarde, e quando via eu gostava, mas me incomodava algumas questões morais, já quando criança. Aí revendo ainda gostei, acho um filme bastante marcante, digno mesmo de ser chamado de cult, mas acho discurso dele bem problemático.

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