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Crítica | O Candidato Honesto

por Ritter Fan
182 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 1

Roberto Santucci, que dirigiu os premiados Bellini e a Esfinge e Alucinados caiu, desde De Pernas Para o Ar, no feitiço da banalidade das neo-chanchadas brasileiras. A mudança brusca, da água para o vinho, obviamente ligada ao lucro trazido por tais produções, tem como catalisador um homem em específico. Seu nome é Paulo Cursino, que assina os roteiros dos filmes do diretor desde 2010.

O Candidato Honesto não é diferente e não só cai na mesmice que poderíamos esperar de um longa-metragem estrelado por Leandro Hassum, como nos traz uma trama praticamente copiada de O Mentiroso, com Jim Carrey. O rei brasileiro das caras e bocas, que neste ano já nos espantou com Vestido para Casar, desta vez interpreta João Ernesto, um político corrupto que, da noite para o dia, não consegue mais contar mentiras. Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, o candidato, então, deve lidar com essa condição esperando não destruir sua candidatura por completo.

Antes de entrar nas mil e uma razões para não se assistir ao filme (se a sinopse já não bastou) irei ressaltar seus escassos pontos positivos. Hassum, por incrível que possa parecer, consegue se controlar em diversos momentos, conseguindo até tirar algumas risadas do espectador. A fotografia consegue escapar do cansativo plano e contra-plano da linguagem novelesca e introduz ângulos e movimentos de câmera nada criativos, mas que fogem da exaustiva mesmice que poderíamos esperar de uma produção do tipo.

Deixemos de lado, porém, esses poucos acertos e vamos entrar na área dos infindáveis deslizes da obra. Cursino, não contente com a falta de originalidade do argumento, constrói piadas das mais clichés possíveis. E as poucas que conseguem arrancar alguma risada são repetidas diversas vezes até perderam totalmente a graça. Para piorar, ainda temos algumas gags de teor preconceituoso, tidas como ofensivas por qualquer espectador esclarecido.

Mas a comédia não fica sozinha na desgraça, pois a carga dramática da trama também a acompanha. O texto introduz exatamente o que poderíamos esperar, incluindo alguém que ainda acredita em João Ernesto, apesar de suas mentiras sendo reveladas, um filho que segue pelos mesmos passos corruptos do pai e um discurso de redenção ao fim, apelando ao povo brasileiro que vote com consciência.

Chega a ser vergonhosa a amálgama de repetições de outras obras que este filme compõe. O Candidato Honesto procura, incessantemente, nos empurrar goela abaixo cada um desses detalhes que já cansamos de assistir e que, agora, soam mais artificiais que nunca. Imperando sobre todos esses aspectos está a relação forçada entre Ernesto e a personagem Amanda (Luiza Valdetaro). Ambos não contam com a menor química e a relação sequer faz algum sentido dentro da proposta apresentada. A presença de atuações ora exageradas, ora robóticas não ajuda, dando ainda mais força para o artificial inerente à projeção.

O roteiro, porém, não atua sozinho para a desgraça do filme. A obra conta com uma montagem incerta, que falha ao intercalar as diferentes perspectivas apresentadas. Enquanto acompanhamos João os outros personagens parecem estar esquecidos, enquanto que o foco em Amanda praticamente ignora as ações paralelas do político. A impressão que nos é passada é que estamos diante de duas tramas que, jamais, se encaixam de forma orgânica, requisitando uma suspensão de bom-gosto do espectador para aceita-las como um filme só.

O Candidato Honesto é, portanto, exatamente o que poderíamos esperar: um filme raso, com algumas “atuações” exageradas e um roteiro que reúne tudo o que já vimos em uma mistura heterogênea. Mas nada que os realizadores devam se preocupar – ainda assim será um grande sucesso de bilheteria, justificando, por fim, a mudança de Santucci em relação aos seus filmes iniciais.

O Candidato Honesto (idem – Brasil, 2014)
Direção:
Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino
Elenco: Leandro Hassum, Luiza Valdetaro, Victor Leal, Júlia Rabello, Ellen Rocche, Flávio Galvão, Henri Pagnoncelli, Antonio Pedro, Murilo Grossi, Luis Lobianco
Duração: 110 min.

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2 comentários

Alexandre Marcello de Figueire 31 de julho de 2015 - 19:19

O filme é ruim mesmo.

Responder
planocritico 1 de agosto de 2015 - 04:48

@alexandremarcellodefigueiredo:disqus, ruim é até elogio… 🙂

– Ritter.

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