Crítica | O Cangaceiro (1953)

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O ‘faroeste brasileiro‘ começou ainda no cinema mudo, como um tímido reflexo do sucesso do gênero nos Estados Unidos, ainda em sua 1ª Idade do Ouro. Até onde se sabe, o pontapé inicial para os nossos feijoada westerns (aos não-familiarizados, basta dizer que os bang bang fora dos EUA quase sempre ganham o nome de uma comida dos países que o adotam, como spaghetti na Itália; ramen no Japão; meat pie na Austrália; sauerkraut na Alemanha e… feijoada no Brasil) se deu em 1917, com o longa-metragem Dioguinho (refilmado nos anos 50), dirigido por Guelfo Andalo e baseado na obra de João Amoroso Neto sobre a história do famoso “bandido elegante” do interior de São Paulo. No hiato de 36 anos entre Dioguinho e O Cangaceiro não houve a presença de um filme nacional que abraçasse a estrutura visual e narrativa do faroeste, adiando a nossa própria versão do gênero. Mas isso mudaria completamente em 1953.

Dirigido e escrito por Lima Barreto, com diálogos da escritora cearense Rachel de QueirozO Cangaceiro não só deu início a uma vertente cinematográfica brasileira que utilizaria a dinâmica do faroeste americano para contar suas histórias peculiares (o personagem e o cenário favoritos dessas produções são o cangaceiro e o cangaço, mas as abordagens sempre foram variadas), como também teve um importante papel na popularização do nosso cinema, recebendo pela primeira vez prêmios em Cannes, sendo indicado a um terceiro e tendo alcançado grande sucesso de público e crítica. Não é de se espantar que, a partir dele, um grande número de produções nacionais sobre boiadeiros, cangaceiros e pistoleiros, em grandes cenários sertanejos ou similares, invadissem as nossas telas.

Milton Ribeiro dá vida ao infame Capitão Galdino Ferreira, líder de um bando de cangaceiros que aludem ao bando de Lampião. É importante lembrar que a peça de Rachel de Queiroz sobre esse personagem de nossa História ganharia montagem também em 1953, então existe uma ligação realista e também teatral na criação dos diálogos e no desenvolvimento de alguns personagens, tratamento que resulta em uma primeira parte absolutamente primorosa do filme, porque exibe o cotidiano dos cangaceiros sob esse ponto de vida, sem distrações. Até alguns limitadores de certas obras nacionais (fotografia e principalmente som) estão em boa forma aqui. H.E. Fowle faz um belíssimo uso da iluminação e consegue adequar o estilo um pouco teatral da direção de Lima Barreto, especialmente nos closes e em certos movimentos coreografados, à grande jornada do bando.

Uma sequência típica dos faroestes, com cavalos em contra-luz, num grande plano geral, abre com louvor a fita, ao som de Mulher Rendeira, e daí para frente temos um grande espetáculo. A sequência de pilhagem da cidade, ainda no início da obra, é uma das mais interessantes, bem dirigidas e editadas cenas de ação em nosso cinema, e se expande com bons diálogos até a saída do bando daquela cidade, sequestrando a professora Olívia (Marisa Prado), que é quem protagonizará, mesmo sem querer, o ponto de virada da obra. Então, na segunda parte de O Cangaceiro, mesmo com o filme não perdendo pontos na direção, fotografia e montagem, notamos diálogos que destoam da organicidade observada até ali; e o mesmo vale para guinada não muito sóbria ao drama amoroso, com o cangaceiro Teodoro (Alberto Ruschel) vivendo uma perigosa fuga ao lado de seu amor recente.

Ao mostrar camadas diferentes para esses indivíduos do sertão, alguns encarnando verdadeiros estereótipos humanos (destacando-se aí as versões de bom, mau, fiel, covarde, traidor, obsessivo), O Cangaceiro cria um notável mito de luta, roubo, morte e relações sociais em uma obra nova, com ousada assinatura e inteligente uso dos grandes espaços abertos, das veredas do “sertão”. Infelizmente, o encerramento acaba mergulhado num tom melodramático que poderia ser dispensado, mas jamais trai a essência dos personagens e não se furta em colocar a tragédia quase espiritual que os acompanha na vida e na morte. Um retrato muito interessante do cangaço brasileiro. Uma verdadeira pérola de nossa cinematografia.

O Cangaceiro (Brasil, 1953)
Direção: Lima Barreto
Roteiro: Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz
Elenco: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro, Vanja Orico, Adoniran Barbosa, Ricardo Campos, Neusa Veras, Zé do Norte, Jesuíno G. dos Santos, Maria Luiza Splendore
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.