Crítica | O Carroceiro (Borom Sarret)

O Carroceiro (Borom Sarret, no original) é amplamente apontado como o primeiro filme africano a ser realizado por um diretor africano, neste caso, o grande Ousmane Sembene, que por sua vez, também é conhecido por um importante título. O de pai do cinema africano.

O cineasta fez a sua estreia no cinema com um documentário chamado O Império Songai (L’empire Sonhrai, 1963), curta que aparentemente está perdido. Sua obra seguinte foi este icônico O Carroceiro, onde acompanhamos um dia na vida de um homem (Ly Abdoulay) que começa o filme fazendo as suas orações, saindo depois para trabalhar. Ele tenta trazer o sustento para dentro de casa, mas não consegue dinheiro algum (e inclusive é privado de sua ferramenta de trabalho), situação que lhe tira a perspectiva de vida. No caminho para casa, ele se preocupa com o que dirá para a esposa, e conclui: “agora só me resta morrer“. A base narrativa aqui é muito simples, mas o resultado alcançado pelo diretor é tremendamente poderoso.

Quando começou a dirigir filmes, Sembene já era um escritor. Sua estreia na literatura, Le Docker Noir, foi em 1956, e ele publicou mais três outros livros (O Pays, Mon Beau Peuple!; Les Bouts de Bois de Dieu e Voltaïque) antes de assinar O Carroceiro. Essa experiência literária, que marcaria de modo muito especial a filmografia do cineasta, aparece nesse curta através da forma inteligente como ele escreve o roteiro e usa a narrativa diegética para nos fazer conhecer os pensamentos do protagonista, seus medos, seu inconformismo, seu desespero.

Os dilemas que o protagonista atravessa ao longo do dia acabam nos dando nuances das diversas questões sociais, econômicas e também morais que marcavam o Senegal após a independência. A modernização que não chegava na periferia de Dacar (capital do país), a dificuldade de se conseguir algum dinheiro — e vemos diversos personagens tentando isso ao longo da projeção — e principalmente a escassez de comida tornam o filme mais intenso, fechando a obra de maneira amarga e crítica, olhando para esses dissabores de um trabalhador que nada ganhou pelo trabalho que realizou.

Através de uma lente que mira o seu povo de modo honesto, chamando atenção para problemas como fome, mortalidade infantil, diferenças de classes sociais e corrupção, o diretor dá o pontapé para uma nova Era do cinema não apenas senegalês, mas subsaariano. Uma Era que colocava aqueles que viviam e sentiam os problemas deixados pela colonização pensando sobre esses problemas. E também sobre os reforços deles, através do neocolonialismo, a posse de ordem econômica ainda mais difícil de se quebrar.

O Carroceiro (Borom Sarret) — Senegal, 1963
Direção: Ousmane Sembene
Roteiro: Ousmane Sembene
Elenco: Ly Abdoulay, Albourah
Duração: 20 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.