Crítica | O Caso das Amoras Pretas (Grandes Detetives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple – 1X34)

A proposta do anime Grandes Detetives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple é falar diretamente ao público juvenil, mesmo trabalhando crimes bastante fortes. Só pela personagem de Mabel West (criada especialmente para a série) e seu bichinho de estimação, já temos uma dose extra e marcante de fofura que não necessariamente combinam com as tramas do Universo de Agatha Christie. Quanto mais violento o crime e quanto mais intricada a investigação no original, mais dificuldades a gente tem de lidar com esse tipo de adaptação leve. Dependendo da forma como o enredo se constrói, a nova visão pode até ser interessante. Mas aqui em O Caso das Amoras Pretas, um conto de A Aventura do Pudim de Natal, a coisa não funciona bem.

O princípio da narrativa tenta acompanhar de perto o que a autora nos mostrou no conto. Poirot fica diante de uma estranha mudança de hábito de um velho cliente num restaurante, situação que em pouco tempo se tornará o objetivo central de sua investigação, pois o homem morre, aparentemente tendo caído da escada de sua casa e quebrado o pescoço. A luta para descobrir o assassino é diminuída apenas a algumas visitas nesta versão, e tanto Mabel quanto Hastings são praticamente inúteis no enredo. É um pouco constrangedor ver dois acompanhantes de Poirot ficarem ali parados, observando o detetive trabalhar e não fazerem nada demais.

Tudo bem que na literatura a presença de Hastings às vezes é colocada como um desenvolvimento à parte, pelo tempo que a autora tinha para explorar essa situação. Mas vejam, este episódio é a adaptação de um conto, não de um romance. Se era para ter os dois acompanhantes em cena, que os colocassem fazendo algo que contribuísse para a investigação! Esta é a forma correta de se utilizar personagens. É espantoso que em uma das cenas, onde a dupla de ajudantes vai questionar a vizinha de um dos falecidos, o roteiro foque inteiramente nas reclamações da cuidadora e a animação privilegie a mulher na tela, escanteando os dois personagens recorrentes, que estão ali apenas para algo que o espectador não entende, já que a tal cena das perguntas à vizinha não serve para nada.

Ainda se mantém no enredo a interessante confusão dos dois irmãos mortos e dos muitos suspeitos possíveis. É uma pena que uma parte deles tenham ficado de fora e que a resolução de Poirot tenha vindo em um momento tão simplista como em uma cena de jantar. Esta sequência final é, com certeza, a pior do capítulo, porque coloca o detetive e seus ajudantes na frente de um homem perigoso sem ter absolutamente nenhum tipo de proteção imediata, o que não parece nem um pouco a atitude de um indivíduo como Poirot. Para piorar, o bichinho de estimação de Mabel acaba ajudando “por instinto”(???) nessa reta final — não dá para engolir essa ação da ave de jeito nenhum, mesmo com o tom meio fantástico e de “treinamento” que ela parece ter — tornando ainda mais incomum aquilo que já não ia tão bem. Isso sem contar que a produção adicionou uma trilha sonora alegre, inteiramente incompatível com a revelação final, diminuindo qualquer choque que a resolução do caso, no monólogo de Poirot, pudesse causar.

É possível se divertir um pouco com esta versão de O Caso das Amoras Pretas, mas no todo, a adaptação é medíocre, sendo praticamente soterrada pela terrível forma como o final foi arquitetado através do roteiro, com uma mistura de descuido e impossibilidades bastante vergonhosas. Se isso serve de algum consolo, vale dizer que a qualidade geral aqui não é assim tão menor do que a qualidade geral do conto, que é apenas uma história “ok”. No entanto, isso não é desculpa. A adaptação em live-action do mesmo conto, feita para a série Agatha Christie’s Poirot se saiu muito bem, por exemplo. É tudo uma questão de saber como adaptar.

Agasa Kurisutî no meitantei Powaro to Mâpuru (Nijûyon-wa no kuro-tsugumi) — Japão, 10 de abril de 2005
Direção: Yoshitaka Makino, Naohito Takahashi
Roteiro: Masashi Sogo (baseado no conto de Agatha Christie)
Elenco (vozes):  Masako Jô, Hirofumi Nojima, Fumiko Orikasa, Kôtarô Satomi, Atsuko Tanaka
Duração: 25 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.