Crítica | O Caso Richard Jewell

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Nesta década, Clint Eastwood trabalhou incansavelmente o mote do homem comum que se tornou um herói norte-americano. Em 2014, Sniper Americano acompanhou o conflito interno de atirador de elite durante a Guerra do Iraque. Dois anos depois, Sully contou a história de um piloto que salvou centenas de vidas após fazer um “milagre” durante um pouso forçado. Mais recentemente, 15:17 – Trem Para Paris misturou ficção e realidade ao retratar como um jovem militar impediu um atentado terrorista. 

Novamente — e sem jamais soar repetitivo — O Caso Richard Jewell é sobre mais uma dessas figuras injustiçadas e perseguidas pelo sistema que, para Clint, não merecem cair no esquecimento. Mais do que isso, o próprio ato de escolher ficcionalizar suas histórias através do cinema é como uma medalha de honra do diretor para esses homens.

Richard Jewell (a revelação Paul Walter Hauser) é uma daquelas pessoas que acredita cegamente na lei. Até por isso, ele foi demitido de seu emprego como guarda de uma universidade, pois sua fiscalização era excessiva demais com os alunos. Posteriormente, sendo contratado para cobrir um evento de música durante as Olimpíadas de 1996, em Atlanta, Jewell conseguiu identificar uma mochila abandonada com uma bomba dentro. Seus esforços fizeram com que o número de casualidades decorrentes da explosão reduzisse drasticamente, transformando-lhe em um herói. Todavia, sua vida vira de cabeça para baixo quando a mídia e o FBI passam a acreditar que ele seja o principal suspeito do ataque.

Seguindo a mesma linha conservadora, porém autocrítica, de seus últimos filmes — como em A Mula — Clint ataca diretamente duas das grandes instituições norte-americanas. Para isso, ele personifica as figuras do FBI em Tom Shaw (Jon Hamm) e a mídia em Kathy Scruggs (Olivia Wilde), personagens propositalmente unidimensionais que representam tal falência institucional. Assim, o que importa para eles é conseguir o furo jornalístico ou achar um culpado, mesmo sem a convicção de estar fazendo o justo, apenas para uma própria validação. 

Enquanto isso, Jewell é o oposto desses dois, personificando a inocência de um americano médio cego pelo patriotismo: um sulista branco, de poucos amigos, que vive com a mãe e possui um certo fascínio pelo armamentismo. Mesmo se passando na década de 90, é muito interessante como Clint enxerga um paralelismo com a contemporaneidade, na qual a maior ameaça para os Estados Unidos parece não residir mais na figura do elemento externo, mas em seus próprios cidadãos. Atualmente, qualquer pessoa que tenha essas características é vista como um potencial receptáculo de uma cultura incel lone wolf. Já Richard, é só um grande “bobão”. 

Justamente por criar esse contraste entre polos tão opostos — a ingenuidade de Jewell e a malícia do sistema — é como se o veterano diretor estivesse estabelecendo uma relação de causa-consequência para os fenômenos de hoje. Quantos homens dedicaram suas vidas em prol de um país que deu as costas para eles e, por isso, se tornaram os verdadeiros vilões? 

Entretanto, O Caso Richard Jewell não lida só com o drama. De todos os trabalhos recentes de Eastwood, esse é o que traz mais traços de comédia, apesar de nunca se assumir totalmente neste sentido. Obviamente, muito disso se deve a diversas sequências absurdas decorrentes da natureza do protagonista e sua mãe (uma emocionante Kathy Bates), que se preocupam com um tupperware sendo levado como prova pelo FBI. 

Além disso, é curioso observar como o advogado de Jewell, Watson Bryant (Sam Rockwell), participa na narrativa. Se cada personagem é a personificação de alguma coisa, é como se aquele advogado representasse o próprio Clint Eastwood. Ambos assumem o papel de defender o oprimido pelo sistema, mas, ao mesmo tempo, parecem ter uma irônica consciência da caricatura que Jewell é. 

No fim, O Caso Richard Jewell pode parecer um filme apenas preocupado em trazer uma mensagem anti-imprensa e governo. Contudo, sua principal preocupação parece ser com a ingenuidade daqueles homens que ainda possuem uma fé imaculada nas instituições. Se, durante a década, Clint tratou de exaltar o herói em cada cidadão comum, agora, quase com 90 anos (2019), ele parece se questionar: quem quer ser o herói de um sistema falido? Talvez apenas os lunáticos que possuem uma convicção inabalável nele.

O Caso Richard Jewell (Richard Jewell) – Estados Unidos, 2019
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Billy Ray, Marie Brenner
Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm, Olivia Wilde, Nina Arianda, Ian Gomez, Wayne Duvall, Dylan Kussman, Mike Pniewski
Duração: 132 mins.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.