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Crítica | O Caso Richard Jewell

por Michel Gutwilen
543 views (a partir de agosto de 2020)

Nesta década, Clint Eastwood trabalhou incansavelmente o mote do homem comum que se tornou um herói norte-americano. Em 2014, Sniper Americano acompanhou o conflito interno de atirador de elite durante a Guerra do Iraque. Dois anos depois, Sully contou a história de um piloto que salvou centenas de vidas após fazer um “milagre” durante um pouso forçado. Mais recentemente, 15:17 – Trem Para Paris misturou ficção e realidade ao retratar como um jovem militar impediu um atentado terrorista. 

Novamente — e sem jamais soar repetitivo — O Caso Richard Jewell é sobre mais uma dessas figuras injustiçadas e perseguidas pelo sistema que, para Clint, não merecem cair no esquecimento. Mais do que isso, o próprio ato de escolher ficcionalizar suas histórias através do cinema é como uma medalha de honra do diretor para esses homens.

Richard Jewell (a revelação Paul Walter Hauser) é uma daquelas pessoas que acredita cegamente na lei. Até por isso, ele foi demitido de seu emprego como guarda de uma universidade, pois sua fiscalização era excessiva demais com os alunos. Posteriormente, sendo contratado para cobrir um evento de música durante as Olimpíadas de 1996, em Atlanta, Jewell conseguiu identificar uma mochila abandonada com uma bomba dentro. Seus esforços fizeram com que o número de casualidades decorrentes da explosão reduzisse drasticamente, transformando-lhe em um herói. Todavia, sua vida vira de cabeça para baixo quando a mídia e o FBI passam a acreditar que ele seja o principal suspeito do ataque.

Seguindo a mesma linha conservadora, porém autocrítica, de seus últimos filmes — como em A Mula — Clint ataca diretamente duas das grandes instituições norte-americanas. Para isso, ele personifica as figuras do FBI em Tom Shaw (Jon Hamm) e a mídia em Kathy Scruggs (Olivia Wilde), personagens propositalmente unidimensionais que representam tal falência institucional. Assim, o que importa para eles é conseguir o furo jornalístico ou achar um culpado, mesmo sem a convicção de estar fazendo o justo, apenas para uma própria validação. 

Enquanto isso, Jewell é o oposto desses dois, personificando a inocência de um americano médio cego pelo patriotismo: um sulista branco, de poucos amigos, que vive com a mãe e possui um certo fascínio pelo armamentismo. Mesmo se passando na década de 90, é muito interessante como Clint enxerga um paralelismo com a contemporaneidade, na qual a maior ameaça para os Estados Unidos parece não residir mais na figura do elemento externo, mas em seus próprios cidadãos. Atualmente, qualquer pessoa que tenha essas características é vista como um potencial receptáculo de uma cultura incel lone wolf. Já Richard, é só um grande “bobão”. 

Justamente por criar esse contraste entre polos tão opostos — a ingenuidade de Jewell e a malícia do sistema — é como se o veterano diretor estivesse estabelecendo uma relação de causa-consequência para os fenômenos de hoje. Quantos homens dedicaram suas vidas em prol de um país que deu as costas para eles e, por isso, se tornaram os verdadeiros vilões? 

Entretanto, O Caso Richard Jewell não lida só com o drama. De todos os trabalhos recentes de Eastwood, esse é o que traz mais traços de comédia, apesar de nunca se assumir totalmente neste sentido. Obviamente, muito disso se deve a diversas sequências absurdas decorrentes da natureza do protagonista e sua mãe (uma emocionante Kathy Bates), que se preocupam com um tupperware sendo levado como prova pelo FBI. 

Além disso, é curioso observar como o advogado de Jewell, Watson Bryant (Sam Rockwell), participa na narrativa. Se cada personagem é a personificação de alguma coisa, é como se aquele advogado representasse o próprio Clint Eastwood. Ambos assumem o papel de defender o oprimido pelo sistema, mas, ao mesmo tempo, parecem ter uma irônica consciência da caricatura que Jewell é. 

No fim, O Caso Richard Jewell pode parecer um filme apenas preocupado em trazer uma mensagem anti-imprensa e governo. Contudo, sua principal preocupação parece ser com a ingenuidade daqueles homens que ainda possuem uma fé imaculada nas instituições. Se, durante a década, Clint tratou de exaltar o herói em cada cidadão comum, agora, quase com 90 anos (2019), ele parece se questionar: quem quer ser o herói de um sistema falido? Talvez apenas os lunáticos que possuem uma convicção inabalável nele.

O Caso Richard Jewell (Richard Jewell) – Estados Unidos, 2019
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Billy Ray, Marie Brenner
Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm, Olivia Wilde, Nina Arianda, Ian Gomez, Wayne Duvall, Dylan Kussman, Mike Pniewski
Duração: 132 mins.

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21 comentários

Andries Viljoen 23 de janeiro de 2021 - 21:35

Como produtor de histórias reais, Clint Eastwood faz um Filmaço.

Impossível não se colocar no lugar do protagonista e não se emocionar com o sofrimento da mãe, que vê o bom filho sendo destruído, sem piedade alguma, por uma máquina que se diz tão correta e metódica, e que faz análises tão rasteiras, sem lastro algum, baseando-se apenas em premissas inconsistentes e julgamentos superficiais.

Não há dúvida de que Richard Jewell era uma pessoa inocente cuja vida e foram destruídas por diversos veículos de comunicação, além da própria FBI e a sociedade como um todo.

Furo de reportagem vs. ética jornalística?
Baseado em um artigo homônimo escrito por Marie Brenner para a revista “Vanity Fair”.

O Caso Richard Jewell oferece um belo exercício de repensar a prática jornalística, assim como foi nacionalmente o famoso “Caso Escola Base”, no qual o motorista de um centro educacional de São Paulo foi acusado por abusar de crianças, sendo que era inocente. Ou então o filme Spotlight, trama vencedora do Oscar de Melhor Filme em 2016, que mostrou a investigação feita por um grupo de jornalistas de abusos sexuais/emocionais/psicologicos de crianças por ”padres”, acobertados pela Igreja Católica.

Esse filme de Clint Eastwood, sobre atentado terrorista durante Jogos Olímpicos de 1996, denuncia consequências concretas da falsificação dos fatos. O roteiro do diretor mostra o lado controverso da polícia, da imprensa e o drama que isso pode causar numa pessoa e sua família.

A trama de Eastwood é baseada em uma rica história, um conteúdo que deve ser repensado, acontece que a execução que poderia ter sido melhor executada.

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Sóstenes - Toty 26 de maio de 2020 - 00:39

“a inocência de um americano médio cego pelo patriotismo: um sulista branco” muito com o resumo.

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JCésar 8 de janeiro de 2020 - 14:35

Hauser fez uma atuação de gala.

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Michel Gutwilen 9 de janeiro de 2020 - 11:36

Impressionante como muitos atores poderiam ter deixado o personagem caricato (afinal, ele é MUITO ingênuo), mas ele consegue passar uma profunda sinceridade para o papel. Você acredita em toda aquela inocência absurda dele. Coisa linda.

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Jordison Francisco 7 de janeiro de 2020 - 13:50

Um filme de terror para o nosso tempo atual…
E se alguém decidisse que você era culpado de um crime horrível? E se a notícia dissesse que você era culpado e seus amigos, vizinhos e colegas de trabalho acreditassem nisso? E se a polícia tentasse intimidar você em uma confissão quando você era completamente inocente o tempo todo?

Esta é a verdadeira história de Richard Jewell, um homem inocente que foi cancelado pela mídia muito antes de existir a cultura de cancelamento. Excelente atuação de Paul Walter Hauser e Kathy Bates e, claro, dirigido com maestria por Clint Eastwood.

O fato de isso se basear em uma história verdadeira torna ainda mais impactante emocionalmente. A vida de um homem e de um herói é destruída pela mídia por nenhuma razão aparente além de tentar prender um crime hediondo à pessoa mais conveniente. Parece ser a história do nosso tempo. Todas as apresentações deste filme fizeram com que as pessoas da vida real fossem baseadas na justiça.
Paul Walter Hauser foi incrivelmente brilhante como Richard Jewell e suscitou o máximo de simpatia que alguém pode na tela grande. Kathy Bates também fez um grande sucesso, pois a mãe emocional que vê o filho ser injustamente acusada pelo governo dos Estados Unidos e pela mídia. Não é sempre que você tem três performances de destaque em um filme, agora Sam Rockwell também merece algum reconhecimento pelo excelente trabalho que ele fez como advogado e amigo íntimo de Richard Jewell.

Esta foi uma história que contém uma mensagem pesada para esse dia e hora, e Clint Eastwood a retrata de uma maneira que certamente permanecerá com os telespectadores por um longo tempo.

É muito oportuno e chega em um momento em nosso país e o mundo inteiro em que a mídia escolhe quem eles querem divinizar e quem eles querem destruir sem se importar com quem machucam. Clint Eastwood criou uma crítica eloquente, e abrasadora, em que a mídia dominou a sociedade. Ele não é Oliver Stone que vem com conspirações ultrajantes e faz de todos um vilão. O filme diz que estamos esquecendo que neste país você é inocente até que PROVEM seja culpado e não o contrário.

Se você não está assustado com este filme, não está prestando atenção.

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Michel Gutwilen 8 de janeiro de 2020 - 18:29

Excelente crítica, Jordison. Clint é demais mesmo, e boa comparação com o Stone.

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Jordison Francisco 6 de abril de 2020 - 10:09

Que bom ajudar. Clint é muito eficiente. São poucos que sabem como agir assim.

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John Locke 5 de janeiro de 2020 - 02:19

OFF: quando sai a crítica de Dracula??

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 5 de janeiro de 2020 - 08:22

Apenas na segunda quinzena.

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Gabriel Carvalho 2 de janeiro de 2020 - 00:14

Top 3 dos maiores cineastas norte-americanos vivos.

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Victor Martins 2 de janeiro de 2020 - 10:38

Scorsese
Tarantino
Clint Eastwood

Suponho que seja esse o seu TOP 3, e não dá pra discordar, apesar de achar que esses novos filmes do Clint não chegam nem perto de Os Imperdoáveis

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Matthew Murdock 2 de janeiro de 2020 - 12:29

Acho Menina de Ouro (2004) a obra-prima dele.

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Anônimo 7 de janeiro de 2020 - 22:27
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Gabriel Carvalho 10 de janeiro de 2020 - 05:22

Wenders não é americano.

E o caso do De Palma é o clássico de sempre: dificuldades para financiar os seus filmes. Mas ele lançou “Domino” ano passado, mesmo que com muitos problemas de bastidores. Scorsese “consegue” – ele penou para fazer “O Irlandês” – porque ele é o maior dos maiores, mas de resto… vai ser cada mais difícil para esses cineastas mais antigos conseguir lançar seus filmes. Robert Zemeckis, por exemplo, está sendo cogitado para dirigir o remake do Pinóquio – o seu último nem mesmo estreou por aqui. Herzog teve que participar de Mandalorian para pagar os seus filmes mais recentes. Cronenberg não lança nada desde “Mapa Para as Estrelas” e já relatou esse problema.

De qualquer forma, considero De Palma gigante e sou um grande admirador do seu trabalho enquanto diretor. Como admiro o do Carpenter e de outros, que estão vivos, mas não estão mais lançando filmes como antes.

Anônimo 10 de janeiro de 2020 - 11:14
Diego/SM 12 de janeiro de 2020 - 23:54

CAramba, justa homenagem ao “desaparecido” De Palma – ao lado do Scorsese e do Coppola, o outro grande do trio de “diretores mafiosos” de Hollywood, e do qual também sou grande fã (especialmente por “Carlito´s Way”, filme que me marcou demais – até mais do que os também ótimos e clássicos “Scarface”, “Os Intocáveis” e “Missão Impossível”…)

Gabriel Carvalho 2 de janeiro de 2020 - 16:22

Quase…

Brian de Palma
Martin Scorsese
Clint Eastwood

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Cahê Gündel 🇦🇹 8 de janeiro de 2020 - 10:10

A minha teria

Scorsese
Tarantino
PTA

Responder
Lucas Casagrande 16 de janeiro de 2021 - 11:53

Não considero o Brian de Palma dos melhores, mas só de vc não ter colocado o supervalorizadasso Tarantino eu já gostei e muito do seu comentário

Eastwood e Scorsese são inquestionáveis hahhaha

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Michel Gutwilen 2 de janeiro de 2020 - 13:59

Gabriel, se um dos outros dois não for o James Gray não precisa nem olhar mais na minha cara! 😠

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Gabriel Carvalho 2 de janeiro de 2020 - 16:22

Eu estava pensando mais na galera velha.

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