Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Castelo Animado

Crítica | O Castelo Animado

por Ritter Fan
697 views (a partir de agosto de 2020)

Depois de A Viagem de Chihiro, que surgiu exclusivamente na fertilíssima mente de Hayao Miyazaki, o cineasta foi buscar inspiração no romance de fantasia O Castelo Animado da britânica Diana Wynne Jones (que se tornaria uma trilogia), publicado em 1986. Mas, como com O Serviço de Entregas da Kiki, Miyazaki usou o romance apenas como pontapé inicial para suas elucubrações imagéticas, já que há uma distância bem grande até mesmo temática entre a obra original e adaptação, com o diretor e roteirista aproveitando para fazer mais um filme de conotação antibelicista com crítica mirando na invasão americana ao Iraque em 2003.

A história base é enganosamente simples, com Sophie (Chieko Baishô), menina insegura que não se acha bonita e que trabalha em uma chapelaria sendo amaldiçoada pela Bruxa das Terras Devastadas (Akihiro Miwa) e acordando no dia seguinte como uma senhora de 90 anos. Desesperada, ela se auto-exila e acaba sendo albergada pelo castelo do título, do misterioso mago Howl (Takuya Kimura) que se move pela Terra graças ao rabugento, mas simpático fogo Calcifer (Tatsuya Gashuin) e que conta com o jovem Markl (Ryūnosuke Kamiki) como uma espécie de mestre de cerimônias. Tematicamente, temos não só o pano de fundo condenatório da guerra, o que abre espaço para o diretor divertir-se com suas máquinas aladas, com nações em conflito sendo vistas de maneira distante e constante interferência de Howl, como também a velha história de amadurecimento – notadamente de uma menina – que é tão cara a Miyazaki e que, aqui, é trabalhada de maneira consideravelmente diferente em razão do envelhecimento instantâneo da jovem, acrescentando um aspecto importante da sociedade nipônica, que é o respeito às tradições e aos mais velhos e reunindo elementos que parecem saídos de O Mágico de Oz, como o mago sem coração e um espantalho.

Na medida em que a narrativa se desenvolve, ela vai se tornando mais complexa, com o roteiro, como de costume, jamais tentando pegar na mão do espectador para explicar o que vemos. Muito ao contrário, Miyazaki faz o que sempre fez, ou seja, nos apresenta a um mundo expansivo já 100% criado e arremessa o espectador lá dentro sem preâmbulo, sem didatismos e deixa sua história correr solta, introduzindo mais personagens fascinantes como o mais do que eficiente espantalho Cabeça de Nabo (Yō Ōizumi) e a ameaçadora feiticeira Suliman (Haruko Katô) em seu suntuoso castelo. Mas há uma progressão cuidados que funciona muito bem, com exceção dos momentos finais a partir do ponto em que Sophie retira Calcifer do Castelo Animado, com resultados catastróficos, que não parece manter a concatenação lógica seguida até aquele ponto, de certa forma lembrando a revelação tirada da cartola de A Viagem de Chihiro.

Mais uma vez, porém, o visual e a originalidade das criações de Miyazaki e equipe são absolutamente cativantes. Não só a simpática Sophie é imediatamente encantadora em suas duas versões (na verdade, mais do que duas, já que há um processo de rejuvenescimento interessante ao longo da projeção), como Howl consegue ser uma fusão de mago, príncipe e monstro que fascina sempre que aparece, especialmente em sua versão alada. O pequeno Markl e o fogoso Calcifer, porém, são os destaques em termos de personagens, especialmente o segundo que é quase que literalmente o coração de toda a gigantesca estrutura que movimenta. Falando nela, o Castelo Animado é algo inacreditável, uma daquelas criações audiovisuais que eu poderia ficar observando os detalhes por horas e horas a fio sem me cansar. Misturando estruturas de castelo, casa, aparências de seres biológicos e mais uma infinidade de partes móveis em um simulacro steampunk que maravilhosamente colide e combina com os cenários citadinos no estilo europeu do começo do século XX, o grande artifício chamativo do longa é um delicioso e triunfal Frankenstein tecnomágico de se tirar o chapéu.

O Castelo Animado parece encerrar uma era para Miyazaki, já que seus filmes seguintes – lançados até o momento desta crítica, claro – teriam escopo reduzindo, ainda que também fascinantes. Parece ter sido aqui que o cineasta esgotou sua imaginação para criar mundos complexos de fantasia que misturam tecnologia, mágica e personagens cativantes em histórias que são, se realmente espremermos, cotidianas e repletas de belíssimas lições. Se for o último longa do diretor com esse escopo, ele sem dúvida alguma terá se despedido de maneira invejável das obras que carregam essas suas evidentes marcas registradas desde o deslumbrante Nausicäa do Vale do Vento.

O Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro – Japão/EUA – 2004)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki (baseado em romance de Diana Wynne Jones)
Elenco: Chieko Baishô, Takuya Kimura, Akihiro Miwa, Tatsuya Gashûin, Ryûnosuke Kamiki , Haruko Katô, Mitsunori Isaki, Yô Ôizumi, Akio Ôtsuka, Daijirô Harada
Duração: 119 min.

Você Também pode curtir

12 comentários

Juliano Oliveira 30 de abril de 2021 - 13:26

Lindos filmes, descobri bem por acaso ao flanar pela seção Kids do Netflix, procurando algo interessante para assistir com minha filha de 3 anos.
Ela amou “O mundo dos pequeninos”, acho que com imagens tão lindas como “O castelo animado”, com um detalhamento do mundo impressionante.
“A viagem de Chihiro” também é uma obra de peso – a viagem no trem tem cenas lindas, e os diálogos na casinha de campo ao fim da linha são bem profundos.
Ótima crítica. Lembrando aos interessados que estão todos disponíveis na Netflix.

Responder
planocritico 30 de abril de 2021 - 17:47

Esses filmes do Estúdio Ghibli são maravilhosos. Se não viu ainda, sugiro assistir Meu Amigo Totoro, que também tem no Netflix, com sua filhinha. Tenho certeza de que vocês vão adorar.

Abs,
Ritter.

Responder
Juliano Oliveira 2 de maio de 2021 - 14:55

Já assistimos sim. Ela amou ver os “floquinhos de poeira”.
E eu amei ver o cuidado ao retratar a arquitetura tradicional japonesa (sou arquiteto), a vida no campo e o respeito ao meio ambiente. Filmes maravilhosos.

Responder
planocritico 3 de maio de 2021 - 02:32

Ah, que legal! Eu e minhas filhas adoramos Totoro!

Abs,
Ritter.

Responder
Fórmula Finesse 26 de abril de 2021 - 17:49

Cansei de “voltar a fita” para ver mais detalhes do castelo, a animação é de despencar o queixo! Para mim, superior a “Viagem de Chihiro.

Responder
planocritico 27 de abril de 2021 - 17:11

Sim, o castelo é absolutamente incrível!

Acho que fica empatado com Chihiro, para mim.

Abs,
Ritter.

Responder
Fernando Barroso 23 de abril de 2021 - 14:58

Castelo Animado é minha obra preferida do Studio Ghibli. Assiti no cinema quando foi lançado no Brasil e foi um deleite. Acho também que Joe Hisaishi está no seu auge, sendo na minha opinião sua melhor parceria com o mestre Miyazaki. O final não é o ideal, mas não chega a comprometer a beleza do filme como um todo.

Responder
planocritico 24 de abril de 2021 - 18:10

Eu ainda tenho Totoro como minha favorita do Ghibli. Não exatamente a melhor, mas sem dúvida a preferida.

Abs,
Ritter.

Responder
WAGNER ANDERSON SOARES RODRIGU 21 de abril de 2021 - 09:59

Apesar de uns inevitáveis erros aqui e ali, este é um filme lindo e carismático, um entretenimento singular, mais uma prova da capacidade humana de produzir coisas poéticas, criativas, e inspiradoras. No final, o que ficou na minha cabeça foi a frase de Sophie para Hawl no final : “O coração é um fardo pesado para se carregar”…E acho que isso era tudo o que Miyazaki queria dizer no final das contas com esse filme, que nós somos todos agraciados, mas também enfeitiçados pela nossa própria humanidade, é um feitiço que pode nos tornar belos e fortes, mas também pode ser uma maldição que nos torna velhos, vulneráveis, ou até monstruosos(figurativa e literalmente), e apesar de tudo isso, esse é um fardo que vale a pena carregar. Como o próprio mestre disse, ao ser perguntado porque esse era seu trabalho preferido : “Foi onde eu acho que consegui expressar com mais clareza a mensagem que sempre quis passar, de que a vida vale a pena ser vivida, não importa o quão difícil ela seja às vezes”.

Responder
planocritico 21 de abril de 2021 - 19:20

É um filme belíssimo que Miyazaki, para mim, só não soube encerrar com propriedade como foi o caso de Chihiro.

Abs,
Ritter.

Responder
JujuExaltado 21 de abril de 2021 - 04:05

Eu tiraria dois Hal’s por causa de sua conclusão que considero muito confusa, desarranjada e saloba.

Aliás, se não fosse o carinho que sinto por Sophie, eu colocaria como o pior filme do Miyazaki.

Miyazaki já disse que não entende o amor humano e por isso tem dificuldade de trabalhar com o tema. Então por que ele não desiste? Pois realmente, sempre que ele se aventura neste sentimento o seu trabalho perde muito a qualidade.

Acho que o filme teria muito a ganhar se ele focasse no problema da estética: Sophie liberta a sua personalidade quando perde a pressão de ser uma jovem atraente, enquanto que Howl e a velha bruxa lutam contra a velhice com o medo de perderem a sua beleza.

Mas então Hayao se perde todinho, todinho mesmo. Tudo por que tentou conectar a guerra, o medo da morte e da velhice, com o amor… E ele não é capaz de reproduzir isso.

Responder
planocritico 21 de abril de 2021 - 19:27

Interessante seus pontos. Não detectei esse problema não, mas, olhando em retrospecto, de fato o lado da construção do amor que Miyazaki faz é corrido.

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais