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Crítica | O Castelo Animado

por Ritter Fan
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Depois de A Viagem de Chihiro, que surgiu exclusivamente na fertilíssima mente de Hayao Miyazaki, o cineasta foi buscar inspiração no romance de fantasia O Castelo Animado da britânica Diana Wynne Jones (que se tornaria uma trilogia), publicado em 1986. Mas, como com O Serviço de Entregas da Kiki, Miyazaki usou o romance apenas como pontapé inicial para suas elucubrações imagéticas, já que há uma distância bem grande até mesmo temática entre a obra original e adaptação, com o diretor e roteirista aproveitando para fazer mais um filme de conotação antibelicista com crítica mirando na invasão americana ao Iraque em 2003.

A história base é enganosamente simples, com Sophie (Chieko Baishô), menina insegura que não se acha bonita e que trabalha em uma chapelaria sendo amaldiçoada pela Bruxa das Terras Devastadas (Akihiro Miwa) e acordando no dia seguinte como uma senhora de 90 anos. Desesperada, ela se auto-exila e acaba sendo albergada pelo castelo do título, do misterioso mago Howl (Takuya Kimura) que se move pela Terra graças ao rabugento, mas simpático fogo Calcifer (Tatsuya Gashuin) e que conta com o jovem Markl (Ryūnosuke Kamiki) como uma espécie de mestre de cerimônias. Tematicamente, temos não só o pano de fundo condenatório da guerra, o que abre espaço para o diretor divertir-se com suas máquinas aladas, com nações em conflito sendo vistas de maneira distante e constante interferência de Howl, como também a velha história de amadurecimento – notadamente de uma menina – que é tão cara a Miyazaki e que, aqui, é trabalhada de maneira consideravelmente diferente em razão do envelhecimento instantâneo da jovem, acrescentando um aspecto importante da sociedade nipônica, que é o respeito às tradições e aos mais velhos e reunindo elementos que parecem saídos de O Mágico de Oz, como o mago sem coração e um espantalho.

Na medida em que a narrativa se desenvolve, ela vai se tornando mais complexa, com o roteiro, como de costume, jamais tentando pegar na mão do espectador para explicar o que vemos. Muito ao contrário, Miyazaki faz o que sempre fez, ou seja, nos apresenta a um mundo expansivo já 100% criado e arremessa o espectador lá dentro sem preâmbulo, sem didatismos e deixa sua história correr solta, introduzindo mais personagens fascinantes como o mais do que eficiente espantalho Cabeça de Nabo (Yō Ōizumi) e a ameaçadora feiticeira Suliman (Haruko Katô) em seu suntuoso castelo. Mas há uma progressão cuidados que funciona muito bem, com exceção dos momentos finais a partir do ponto em que Sophie retira Calcifer do Castelo Animado, com resultados catastróficos, que não parece manter a concatenação lógica seguida até aquele ponto, de certa forma lembrando a revelação tirada da cartola de A Viagem de Chihiro.

Mais uma vez, porém, o visual e a originalidade das criações de Miyazaki e equipe são absolutamente cativantes. Não só a simpática Sophie é imediatamente encantadora em suas duas versões (na verdade, mais do que duas, já que há um processo de rejuvenescimento interessante ao longo da projeção), como Howl consegue ser uma fusão de mago, príncipe e monstro que fascina sempre que aparece, especialmente em sua versão alada. O pequeno Markl e o fogoso Calcifer, porém, são os destaques em termos de personagens, especialmente o segundo que é quase que literalmente o coração de toda a gigantesca estrutura que movimenta. Falando nela, o Castelo Animado é algo inacreditável, uma daquelas criações audiovisuais que eu poderia ficar observando os detalhes por horas e horas a fio sem me cansar. Misturando estruturas de castelo, casa, aparências de seres biológicos e mais uma infinidade de partes móveis em um simulacro steampunk que maravilhosamente colide e combina com os cenários citadinos no estilo europeu do começo do século XX, o grande artifício chamativo do longa é um delicioso e triunfal Frankenstein tecnomágico de se tirar o chapéu.

O Castelo Animado parece encerrar uma era para Miyazaki, já que seus filmes seguintes – lançados até o momento desta crítica, claro – teriam escopo reduzindo, ainda que também fascinantes. Parece ter sido aqui que o cineasta esgotou sua imaginação para criar mundos complexos de fantasia que misturam tecnologia, mágica e personagens cativantes em histórias que são, se realmente espremermos, cotidianas e repletas de belíssimas lições. Se for o último longa do diretor com esse escopo, ele sem dúvida alguma terá se despedido de maneira invejável das obras que carregam essas suas evidentes marcas registradas desde o deslumbrante Nausicäa do Vale do Vento.

O Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro – Japão/EUA – 2004)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki (baseado em romance de Diana Wynne Jones)
Elenco: Chieko Baishô, Takuya Kimura, Akihiro Miwa, Tatsuya Gashûin, Ryûnosuke Kamiki , Haruko Katô, Mitsunori Isaki, Yô Ôizumi, Akio Ôtsuka, Daijirô Harada
Duração: 119 min.

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