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Crítica | O Castelo de Otranto, de Horace Walpole

O romance que inaugurou a literatura gótica.

por Leonardo Campos
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Uma história antiga e misteriosa. Uma mansão geralmente pomposa, com um dono caracterizado como vilão da narrativa. Nalgumas versões, mulheres tratadas como donzelas em perigo, um protagonista questionador de suas origens, muitas vezes herdeiro legítimo de um posto que lhe foi tomado indevidamente, em histórias envoltas por acontecimentos misteriosos, cheias de paralelos entre o que pode ser real e o que é sobrenatural. Assim é O Castelo de Otranto, romance de Horace Walpole, publicado em 1764, uma curiosa e irregular malha textual com intrigas, paixões, reviravoltas, personagens caricatos, elementos associados ao que se costumou definir como literatura gótica, enredos com visões fantasmagóricas, com figuras ficcionais perdidas em espirais generosos de loucura e incerteza. Considerada a obra que inaugura o estilo gótico literário, o romance em questão encontrou ressonâncias na posteridade, em especial, nas obras de Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Anne Radcliffe, dentre outros nomes do “terror”.

Produzida num contexto histórico de debates calorosos sobre a crença no extraordinário e uma forte tendência ao pensamento racionalista, O Castelo de Otranto unificou traços da fantasia e imaginação, parte da tradição até então, com elementos modernos, focados na reprodução realista da natureza. O resultado é uma ficção envolvente, com preâmbulo um tanto caótico e desinteressante, mas que ganha alguma força ao passo que revelações começam a pulular pelos parágrafos e o estabelecimento do clima opressor se torna cada vez mais macabro, com paisagens repletas de escuridão, masmorras, clima medieval assustador, criptas, dentre outros elementos que formaram a linguagem deste tipo de literatura, reforçada para resgatar um determinado cenário do imaginário, sufocado pela razão imperiosa, desinteressada em tons fantasiosos, influenciados por crenças espirituais consideradas ultrapassadas. Em linhas gerais, uma era de rompimento, tensão delineada ao longo do desenvolvimento do livro.

Na primeira versão, Horace Walpole apontou que o conteúdo é a tradução de um manuscrito medieval italiano, aparentemente com receio da possível recepção em torno de sua obra. Em sua história, conhecemos a trajetória de Manfred, o dono do castelo em questão, e sua família, desestruturada com a morte do jovem Conrad, seu filho, em vias de se casar com Isabella. Numa situação inesperada e misteriosa, um elmo gigantesco despenca e ceifa a vida do noivo, deixando a escolhida no altar. Ela, sem um pingo de ânimo para o casamento arranjado, glorifica internamente, em seus pensamentos, o acontecido, mas sofre depois que descobre que há planos nada interessantes por parte de seu sogro, um homem que agora quer se tornar seu marido, tendo em vista manter a linhagem da família intacta, em especial, pelo fato de Hipolita, sua esposa, não ter a possibilidade de lhe conceder filhos. Como há uma profecia que faz o personagem tremer de medo, o tal casamento lhe é a única opção viável.

Assim, ele se divorcia de sua esposa, arruma o casamento com Isabella, mas a moça foge, ajudada pelo camponês Theodore. Capturada posteriormente, Manfred pede ajuda do frade Jerome para penalizar o rapaz que colaborou com o ato da moça, mas uma reviravolta causa mais solavancos no romance: o religioso descobre uma marca no corpo do rapaz que revela a sua paternidade diante da figura. Novela mexicana? Mais ou menos isso. Cavaleiros de outro reino aparecem, batalhas são travadas, mortes, crises, fortes paixões, com um final relativamente otimista, com o herói a casar com a sua amada e ser feliz para a eternidade. Tal como o espectro de Shakespeare no clássico trágico que emulou a trama de Sófocles, O Castelo de Otranto demonstra a compreensão da atmosfera misteriosa de Hamlet e, num estilo muito próprio, reforça como Walpole leu os seus antecessores, mas concebeu a sua própria história, mostrando o quão forte podia ser o tom gótico na literatura, com suas temáticas proféticas e macabras, estabelecendo assim uma forte e longeva tradição de contação de histórias.

O Castelo de Otranto (The Castle of Otranto/Inglaterra, 1764)
Autor: Horace Walpole
Tradução: Alberto Alexandre de Martins
Editora no Brasil: Nova Alexandria (2010)
Páginas: 173

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