Crítica | O Castelo no Céu

Após o grande sucesso de Nausicaä do Vale do Vento (1984), os realizadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, ao lado dos parceiros Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma formalizaram a parceria artística e fundaram o Estúdio Ghibli, em 15 de junho de 1985. O primeiro produto vindo dessa união apareceu já em 1986 e foi chamado de O Castelo no Céu, longa escrito e dirigido por Miyazaki que não apenas nos deixa bem claro os caminhos filosóficos do artista, como também lança as muitas sementes que se tornariam a tônica do Ghibli no decorrer dos anos — e aqui eu estou falando do belíssimo uso e composição da trilha sonora até a paixão pela aviação e a abordagem de temas que relacionam a humanidade, seu meio social e o mundo natural que o cerca.

A chave para o grande mistério da obra está nos seus gloriosos créditos de abertura. Há uma imediata indicação de que uma lenda está para ser contada, e o cineasta nos apresenta, em animação ao estilo de entalhe em madeira, a versão de “História da Civilização” para este Universo. Notem que a primeira coisa que aparece quando esse conto se inicia é uma força da natureza: o vento. Nos planos seguintes, vemos a humanidade fazer uso desse elemento, criar máquinas voadoras, desenvolver-se de modo grandioso e então conquistar os céus não apenas pelo voo, mas também colocando castelos, cidades inteiras na atmosfera. Uma catástrofe, porém, acontece (ao que tudo indica, uma grande guerra) e toda essa Era da Civilização cai por terra, abrindo as portas para uma outra, que com o tempo passa igualmente a dominar o céu. A ideia de ciclo, mesmo na condução da História e formação das sociedades está dada. E este conceito é uma das muitas recorrências não só nos longas do Ghibli, mas em obras reflexivas do cinema oriental como todo, gerando um tipo de abordagem temática (e filosófica) que conhecemos como cinema de fluxo.

O flerte do diretor com o steampunk nesse filme não é apenas estético. Ele propositalmente se baseou nas duas primeiras Revoluções Industriais, fez pesquisa geográfica, fotográfica e arquitetônica no Vale de Rhondda, no País de Gales (por influência de Takahata) e procurou ao máximo entrelaçar as reais conquistas humanas de um período de grandes transformações na Europa e depois no mundo, a um conceito maior, do homem com a natureza e das invenções do homem com todos os aspectos do espaço que ele ocupa + aquilo que ele constrói ou escolhe como essencial em suas relações interpessoais. O resultado? Um drama de busca por algo perdido e por uma identidade ancestral que o anime estrutura em bases fantasiosas ou místicas de um lado, e em uma base realista e crítica de outro.

Talvez por isso que o roteiro (infelizmente) não se preocupa tanto com detalhes contextualizadores para Sheeta (Keiko Yokozawa) e seu sequestro no início do filme. A colocação da família da garota naquela terra e o seu misterioso sequestro aparecem como um fato consumado, e o espectador precisa acompanhar a história a partir dali, o que pode gerar alguma confusão inicial pela ausência de informações. O mesmo impasse observamos no final, mas agora em relação à preciosa pedra, seus poderes e sua interação com Sheeta e com aquela civilização perdida. Entendemos que o Castelo no Céu que dá título ao filme é o mais antigo — por ser o único que restou — de um passado brilhante da humanidade nesse Universo, mas as interpretações ligadas ao sobrenatural ficam a cargo do espectador. Como o próprio roteiro brinca com narrativa bíblica, hindu (Ramayana) e faz ligações com As Viagens de Gulliver (1726), o espectador mergulha nessa missão e observa valores de diversas fontes se aglutinarem e darem sentido aos personagens, às suas ações e ao destino do mundo em que vivem.

Contrastando exteriores mais simples com interiores vitorianos muitíssimo bem detalhados (não só nos desenhos, mas também nas cores), o diretor faz em  O Castelo no Céu uma viagem de amadurecimento de dois jovens de origens distintas, mas com uma visão de mundo que abarca paz, amor e felicidade, cabendo aí o respeito àquilo que lhes garante a vida. Eles descobrem o gostam e o que querem para si, mas não sem presenciar uma grande destruição, aprendendo que reinar verdadeiramente sobre algo é deixar que este algo viva, mesmo que isso signifique libertá-lo, afastar-se dele para sempre e talvez nunca mais vê-lo.

“O castelo no céu” do filme é também aquela beleza ou riqueza que acende em muitos a ideia de possessão e exploração. O que define grupos ou pessoas é o que eles pretendem fazer (e como querem fazer) com esse precioso bem. Vejam que Pazu, o governo, os piratas e os soldados queriam chegar a Laputa, cada um com agendas diferentes, a maioria de linha predatória. Ter experiências, para alguns, não é o bastante: é preciso possuir, é preciso enriquecer explorando, é preciso exibir aos demais e justificar qualquer horror posterior apenas com a mentira civilizacional daqueles que matam a memória ou extinguem aquilo que lhes dá vida: “eu sou superior…”. No filme, aprendemos com Sheeta e Pazu que ter não necessariamente é a melhor coisa. Em algum momento será preciso separar-se dos amigos piratas e ser honesto consigo mesmo, dando sentido para o que foi aprendido na traumática jornada da vida, e ser feliz sem precisar destruir nada, nem ninguém.

O Castelo no Céu (Tenkû no shiro Rapyuta) — Japão, 1986
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Mayumi Tanaka, James Van Der Beek, Keiko Yokozawa, Kotoe Hatsui, Minori Terada, Fujio Tokita, Ichirô Nagai, Hiroshi Ito, Machiko Washio, Takuzô Kamiyama, Yoshito Yasuhara, Sukekiyo Kameyama, Ryûji Saikachi, Tarako, Eken Mine, Hôchû Ôtsuka, Toshihiko Seki, Megumi Hayashibara, Masashi Sugawara
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.