Crítica | O Cavalariço da Providence, de Georges Simenon

Quarto livro da série do Comissário MaigretO Cavalariço da Providence (1931) é aquele tipo de obra policial em que a trajetória de investigação e os perrengues pelos quais o investigador passa são muito mais importantes do que o próprio mistério em torno do crime. Esta, na verdade, é uma uma das características da escrita de Georges Simenon e um dos elementos que tornam a figura de Jules Maigret humana, reconhecível, a quem o espectador consegue se apegar muito facilmente, algo que, para essa premissa do autor, é imprescindível.

A absurda habilidade de Simenon em criar excelentes atmosferas com um número mínimo de páginas se vê logo no início desta obra, quando ele insere um amedrontador (e estranhamente aconchegante) tempo chuvoso nos canais do rio Marne, destacando-se aí a Comuna de Dizy, no Grande Leste francês, local onde o cerne da história se passa. Algumas passagens aqui nos lembram os temporais que Maigret enfrentou em Pietr, o Letão, mas nesse caso não há o senso de abandono e isolamento percebidos naquele livro. Por mais hostil que seja, frente a uma autoridade, o povo das cidades ao longo dos canais tornam a presença de Maigret quase aceitável e o fato de estamos no interior da França dá à aventura um senso diferente de comunidade, de relação das pessoas com o investigador e do próprio processo de investigação.

O assassinato de Mary Lampson, encontrada estrangulada num estábulo, faz com que Maigret seja colocado no caso e seu trabalho até descobrir o assassino dura de 4 a 8 de abril. O autor coloca o Comissário como um completo entranho em relação ao cenário, às nomenclaturas e funcionamento do ambiente de balsas, lanchas e eclusas, fazendo de Maigret o próprio leitor. Assim como o grandalhão com o cachimbo e ávido por uma boa cerveja, nós vamos descobrindo como é a dinâmica daquele lugar, espantando-nos quando algo de muito violento acontece em um espaço aparentemente tão “livre de problemas dessa categoria”, onde todo mundo conhece todo mundo.

Das embarcações, há destaque para o iate Southern Cross e claro, para a barcaça de tração animal Providence, da qual o cuidador dos cavalos (o famoso cavalariço do título, o Sr. Jean) passa progressivamente a ganhar espaço no livro, assim como o Capitão da SC, Sir Walter Lampson e seu imediato russo. Os personagens possuem uma certa reserva emocional, pelo menos até que algo muito próximo a eles começa a dar errado, e então as atitudes impulsivas e os longos discursos começam a aparecer. O miolo dessas relações não é exatamente muito fluído, mas todo o livro se mantém em um patamar onde coisas interessantes acontecem e nos chamam a atenção, às vezes desviando o nosso foco de um suspeito ou adicionando falsas provas para que a gente coloque outros nomes em nossa lista. Embora a identidade do assassino não seja o ponto em torno do qual o autor constrói todo o suspense, é inegável que na primeira metade do livro ele brinca com essa questão, mudando de tática no final.

Quando a revelação acontece, o leitor imagina que a obra começará a cair de qualidade, porque temos ainda algumas páginas pela frente. Mas não é isso que acontece. Tanto a base para o motivo do crime quanto a exploração mais intensa da personalidade do assassino, sua vida e sua visão de mundo são apresentados de maneira hábil por Simenon, fazendo do final da aventura uma espécie de elegia que se costura com solenidade e uma amarga paz ao encerramento das investigações. O Cavalariço da Providence é o tipo de livro policial que bebe muito do melodrama e que não se ressente em expor demais os seus personagens a fraquezas e às coisas mais mundanas possíveis. Um daqueles casos que a gente poderia muito bem ter acesso pelos noticiários ou por fofocas de cidade pequena.

O Cavalariço da Providence (Le Charretier de la Providence) — Bélgica, 1931
Série Comissário Maigret – Livro #4

Autor: Georges Simenon
Editora original: A. Fayard
No Brasil: Companhia das Letras (abril de 2014)
Tradução: André Telles
136 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.