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Crítica | O Cavaleiro Solitário (1985)

por Ritter Fan
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Então ouvi a quarta Criatura: “Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.
– Livro do Apocalipse

Quando os anos 80 começaram, mesmo considerando que 1980 trouxe Cavalgada dos Proscritos, de Walter Hill, o faroeste de verdade estava praticamente morto como gênero. Mesmo assim, a exata metade da década viu o lançamento de duas obras que, de suas próprias maneiras, tornar-se-iam clássicos: Silverado, um western “limpo” lembrado por seu elenco formado de futuras estrelas do Cinema e O Cavaleiro Solitário, que marca o retorno de Clint Eastwood ao seu tipo mais famoso de personagem, o pistoleiro misterioso, calado e brutalmente eficiente. Uma das maiores bilheterias daquele ano, o filme protagonizado e dirigido por Eastwood pode até não ter sido responsável pelo renascimento do gênero em si, mas é até hoje um filme que mostra muito claramente que o faroeste sempre tem boas histórias para serem contadas.

Mais ainda do que um faroeste elegante e de altíssima categoria, O Cavaleiro Solitário é uma prova cabal de que o uso de clichês não é, por si só, algo ruim como muita gente costuma apregoar. O clichê – ou seja, aquele artifício ou caracterização usada infinitas vezes nas mais variadas obras das mais diferentes naturezas – pode ser a base, a fonte de inspiração para a criação de obras cinematográficas de peso, bastando, para isso, que haja cuidado no roteiro e na direção, além de nas demais peças que fazem uma obra audiovisual funcionar de maneira azeitada. Afinal, o longa de Eastwood é uma sucessão dos mais reconhecíveis clichês possíveis do gênero: o pistoleiro durão, misterioso, invencível e carismático chegando do nada para salvar um grupo de pessoas (Os Sete Samurais está aí para provar que essa base narrativa é imortal), os mineradores oprimidos por uma grande e inescrupulosa corporação, o grupo de pistoleiros contratados para eliminar o “problema” e assim por diante, inclusive duelos sensacionais no meio da rua única das cidades típicas da época, som destacado das esporas quando os pistoleiros caminham e muito “foco Sergio Leone” no rosto encardido dos personagens.

Vou além ainda. Eastwood não usa apenas clichês do gênero faroeste, mas sim, mais especificamente, os clichês que caracterizaram a longeva carreira do cineasta e ator como pistoleiro em faroestes. O misterioso Pastor que aparece em um assentamento minerador depois que a jovem Megan Wheeler (Sydney Penny) pede ajuda divina é, sem tirar nem por, o “Homem Sem Nome” da inesquecível Trilogia dos Dólares protagonizada por Eastwood, com quase os mesmos elementos sobrenaturais que vemos em O Estranho sem Nome, o primeiro longa de faroeste protagonizado e dirigido por Eastwood, tudo isso embalado em uma estrutura que, muito mais do que apenas tangenciar Os Brutos Também Amam, parece homenagear o grande marco do gênero dos anos 50, inclusive repetindo, de sua própria maneira, o icônico final em que Shane vai embora da cidade que “limpou”, apesar dos chamados de uma criança.

O roteiro de Michael Butler e Dennis Shryack é, portanto, uma aula magna de como construir um texto em cima de alicerces de um gênero e, mais especificamente, olhando para o ator principal e usando tudo o que sempre o caracterizou para lapidar tais alicerces. Com isso, o espectador já começa a experiência em um local mental absolutamente confortável e reconhecível, especialmente considerando que, à época, esse filme não só marcaria o retorno de Eastwood ao gênero (de verdade, pois desconsidero, para fins desses comentário, seus faroestes modernos, passados contemporaneamente) desde Josey Wales, o Fora da Lei, quase 10 anos antes, como também seria seu penúltimo filme dessa natureza, já que ele encerraria essa faceta de sua longeva e variadíssima carreira em seu ponto mais alto com o magnífico Os Imperdoáveis, sete anos depois.

Aproveitando-se da fotografia em locação nas montanhas geladas de Idaho e na cidade histórica de Columbia, na Califórnia, a fotografia de Bruce Surtees, que já havia trabalhado com Eastwood como diretor desde O Estranho sem Nome (e antes ainda com Eastwood apenas ator), é essencial para a narrativa evocadora dos clássicos do gênero. As tomadas em planos gerais de uma fronteira selvagem, mas que já começa a sofrer interferência humana funcionam para criar a perfeita oposição entre os mineradores clássicos, que usam o rio, peneiras e muito suor para achar ouro com a mineração industrial comandada pelo inescrupuloso magnata Coy LaHood (Richard Dysart) e seu filho Josh (Chris Penn), algo que marca o começo da obra com o silêncio da natureza sendo interrompido pela cavalgada dos empregados de LaHood para aterrorizar o assentamento.

O lado sobrenatural é, em larga escala, muito bem trabalhado, sem as obviedades de O Estranho sem Nome, mas nem sempre acertando na discrição. Se os tiros nas costas do Pastor já dão um bom sinal sobre quem ele é, a citação bíblica que usei para abrir a presente crítica dita por Megan exatamente na hora em que ele chega ao assentamento exagere um pouco na obviedade, ainda que sem dúvida seja um toque interessante. Mais interessante, ainda, é a forma como o Pastor hipnotiza todos os mineiros com sua valentia primeiro ao salvar Hull Barret (Michael Moriarty) e, depois, ao enfrentar o gigantesco Club (Richard Kiel, o Jaws de 007), especialmente as duas mulheres que vivem sob a proteção de Hull, Sarah (Carrie Snodgress) e sua filha Megan, de 14 anos. Existe uma ousada tensão sexual em relação às duas que o roteiro consegue resolver de maneira muito elegante, com Eastwood usando apenas imagens indiretas que evitam quebrar toda a magia que o filme faz renascer.

O Cavaleiro Solitário é, sem dúvida alguma, um marco tardio do gênero e um bem-vindo retorno de Eastwood ao tipo de personagem que impulsionou sua prolífica carreira. Irresistível do começo ao fim, com soluções narrativas básicas, mas muito eficientes que quase sempre mantém o espectador em sua zona de conforto, o longa é definitivamente a prova de que o faroeste sempre tem excelentes histórias para serem contadas, mesmo quando elas são uma estupenda reunião de diversas outras clássicas histórias.

O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, EUA – 1985)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Michael Butler, Dennis Shryack
Elenco: Clint Eastwood, Michael Moriarty, Carrie Snodgress, Richard Dysart, Chris Penn, Sydney Penny, John Russell, Richard Kiel, Doug McGrath, Chuck Lafont, Jeffrey Weissman, S. A. Griffin, Jack Radosta, Robert Winley, Billy Drago, Jeffrey Josephson, John Dennis Johnston, Charles Hallahan, Marvin J. McIntyre, Fran Ryan, Richard Hamilton, Terrence Evans
Duração: 115 min.

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