Crítica | O Cavalo Amarelo, de Agatha Christie

Lançado em novembro de 1961, O Cavalo Amarelo é diferente de tudo o que Agatha Christie havia escrito e que escreveria pela frente. Nele, temos no centro das atenções um drama conceitualmente inspirado nos romances macabros e sobrenaturais de Dennis Wheatley, que tinha grande prestígio no Reino Unido. O título da obra — que também é o nome de uma antiga e misteriosa propriedade na vila de Much Deeping, onde grande parte da trama se passa — é uma referência ao Livro do Apocalipse, que em seu sexto capítulo nos traz a seguinte descrição: “E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra“. É, portanto, sob a égide da morte (principalmente a morte realizada por forças inexplicáveis) que a autora irá desenvolver o seu enredo.

O interessante desse livro é que o seu caráter místico não é apenas uma sugestão espirituosa, citada no início e rapidamente abandonada em detrimento de uma explicação lógica, científica, palpável. O que de fato acontece é que o sobrenatural segue como principal assunto e principal desencadeador das mortes que ganham a investigação, e o leitor não sabe o que fazer diante dessas informações porque lidar com esse tipo de abordagem num livro de Agatha Christie é difícil, visto que a autora sabe esconder muito bem os seus segredos e suspeitos, fazendo-nos primeiro entrar por um tipo de jornada que, pelo menos no aspecto de “coisas misteriosas no meio de um lugar isolado, mas civilizado“, me fez lembrar de O Homem de Palha, embora não haja uma grande iconografia compartilhada pelo restante da população, sendo o fator místico centrado nas três velhas mulheres (tidas como bruxas) que moram no Cavalo Amarelo.

Há uma breve participação de Ariadne Oliver no romance, dando um sabor diferente à trama, porque acrescenta, mesmo em sua pequena participação, o olhar cômico, desajeitado e arguto de uma escritora de romances policiais, ajudando a dar o clique definitivo para Mark Easterbrook, que é quem assume a investigação dos crimes no livro após uma série de situações que acabam chegando até ele: o assassinado de um padre, uma lista de pessoas que adoecem ou morrem misteriosamente, mulheres com poderes paranormais e a ideia de “desejo de morte” que logo é plantada na cabeça do personagem (também um escritor, mas acadêmico: um historiador que está pesquisando sobre o Império Mogul) quando faz uma visita à misteriosa casa de Much Deeping. Como os crimes começam separados do investigador e só depois vão sendo acoplados à sua linha dramática, aumentando a noção de perigo vindo das bruxas, o leitor tem a oportunidade de ver diferentes atitudes e justificativas para o que está havendo com as pessoas, sem nunca perder de vista a “morte por sugestão” como a grande culpada pelos crimes.

Na reta final do livro, a autora vai descortinando de maneira excelente todos os mistérios, fazendo as devidas explicações para as mortes e principalmente nos surpreendendo pela revelação da identidade do assassino, da mesma forma que amarra as muitas pontas deixas pelos capítulos afora, dando um fechamento completo e satisfatório à história. Tirando dois pequenos momentos no desfecho que diminuíram um pouco a minha nota final (a saber: o favor exigido por Mr. Venables à polícia e a desconfortável e reticente cena final, entre Mark e Ginger), O Cavalo Amarelo é uma obra curta, de leitura muito prazerosa e que mexe com situações ainda mais difíceis de se nomear e descobrir antes que a autora faça a revelação definitiva. Uma fantástica brincadeira com o sobrenatural, mas sem perder a essência da Rainha do Crime.

O Cavalo Amarelo (The Pale Horse) — Reino Unido, 6 de novembro de 1961
Autora: Agatha Christie
Editora original: Collins Crime Club
Edição lida para esta crítica: L&PM Pocket (2013)
Tradução: Rogério Bettoni
256 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.