Crítica | O Chamado (2002)

estrelas 4

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Quando as refilmagens de produções orientais emergiram no ocidente, graças ao processo global da agressiva indústria hollywoodiana, espécie de CIA do cinema mundial, com seus agentes espalhados ao redor do planeta, sempre a farejar o que tem feito sucesso e magnetizado com o público, um modo de operação foi estabelecido: tínhamos cineastas estadunidenses no comando das produções, importação dos próprios mestres do terror oriental, como foi o caso de O Grito e O Chamado 2, ou então, o convite destinado aos cineastas estrangeiros, sendo Alexandre Aja e Walter Salles dois casos pontuais na participação desta fase de refilmagens constantes que durou a década de 2000 em sua completude, tendo Espelhos do Medo 2, em 2010, um dos pontos de saturação extrema, uma redundância para o vocábulo, mas a minha necessidade em exaltar o quanto as releituras se tornaram cansativas e desnecessárias artisticamente.

Ao estrear em 2002, O Chamado abriu as portas para a tradução ocidental dos manuais de terror orientais. Foi uma época de fervor cultural no gênero terror, com novidades oriundas de todos os cantos possíveis, dando aos estadunidenses a criação de um selo chamado J-Horror, ou Horror Japonês, gênero da cultura nipônica que está nas bases dos filmes citados no parágrafo anterior, bem como nas diversas refilmagens realizadas depois da ascensão de Samara, personagens inspirada em Sadako, do filme ponto de partida, Ringu, dirigido por Hideo Nakata, criatura que conseguiu fundar a sua própria mitologia em território estadunidense, com resultados positivos, tanto na estética quanto nas questões dramáticas que nos leva aos debates e reflexões contextuais, temas que serão delineados mais adiante.

Quando entrevistado na ocasião do lançamento da produção, Nakata afirmou que o Japão é um país com a sua própria tradição de histórias fantasmagóricas, numa abordagem que se apoia na tarefa da crítica de cinema e subdivide o gênero em fases, ao apontar que nos anos 1940 e 1950, os monstros estavam no auge, seguidos das décadas de 1970 e 1980, estéreis em termos de produção, retomada nos anos 1990. A história da fita amaldiçoada é um dos grandes responsáveis por esse período de resgate dos temas de horror que caracterizam uma forma peculiar de articulação da tensão e do medo. Assim, em seu processo de tradução cultural, elementos ocidentais foram equilibrados para a transformação da história que mantém, em quase todos os aspectos, a mesma estrutura dramática.

Na trama, Rachel (Naomi Watts) é uma jornalista que decide investigar a estranha morte da sobrinha. Logo de início, a tia relativamente distante percebe que o acontecimento está relacionado aos amigos da garota, pessoas que assistiram a um vídeo, parte integrante de uma curiosa lenda urbana. Em sua concepção, o mito diz que todas as pessoas que assistiram ao seu conteúdo morrem sete dias depois, mas antes, recebem uma ligação com voz feminina que entoa o famoso “sete dias”. Mito urbano ou não, a situação se espalha como um vírus e a personagem precisa achar uma forma de resolver o caso, principalmente depois de um descuido que leva o seu filho Aidan (David Dorfman) a assistir ao material.

Diante do exposto, surge o questionamento: o que há de tão misterioso nesse vídeo? Para quem assiste, são alguns segundos de imagens aparentemente desconexas, com tons surrealistas e muito semelhantes ao mundo dos pesadelos. Numa transcrição cabal, temos a impressão de um eclipse, seguido da abertura de um poço observado por quem olha de baixo, do seu interior. Adiante, temos uma escada, aparentemente abandonada em algum lugar, encostada numa parede. Corta para uma cadeira vazia, centralizada no quadro, a janela de uma casa, grotescos insetos, uma unha arrancada do dedo por prego, a abertura descomunal de uma boca, de onde sai um intestino/cordão umbilical (não se sabe exatamente), além de pessoas aparentemente mutiladas, uma mulher no espelho, um suicídio e um poço. Após conferir tal conteúdo, a pessoa recebe a ligação e tem até sete dias para repassar a fita, ou será levada por Samara para o além.

É uma informação, no entanto, entregue aos poucos, pois tal como Rachel, somos informados dos detalhes aos poucos. É um processo de cumplicidade interessante, pois purgamos diante de sua catarse. Instigada, afinal, ela circula por sua vida pessoal com o faro jornalístico, a personagem estranha a forma como a sobrinha morreu, com uma terrível expressão no rosto. Ela escuta brevemente uma conversa de duas amigas apavoradas no funeral e ao vasculhar o quarto da sobrinha, encontra um recibo de uma empresa de revelação fotográfica. Sem pudor, vai ao estabelecimento e retira as fotos. Percebe que a sobrinha esteve num chalé com os amigos e que os integrantes das imagens estão com os seus rostos borrados. O mistério, então, começa a se tornar mais intenso e a narrativa assume o seu tom investigativo, cheia de pistas e situações para que nos tornemos ativos e como no jogo, completemos os dados para chegar a “verdade”.

Diante do exposto, Rachel também precisa assistir ao vídeo para entender o que pesquisa. Como resultado, ela precisa lutar duplamente contra o tempo para salvar não somente o seu filho, mas para se manter ilesa. E nesse processo de investigação é que o filme nos segura, pois é bem dirigido, dinâmico, inteligente e cria alguns quebra-cabeças imagéticos que possuem uma razão de ser. O seu antigo namorado, Noah (Martin Hendersen), parte de uma situação que parece não resolvida, é o pai distante do garoto, mas à medida que a narrativa avança, o personagem evolui, pois precisa tomar as rédeas da situação e assumir a postura que evita há tempos, ou seja, a paternidade negada de maneira sutil. Ele ajuda Rachel a desvendar o mistério, após a ida da jornalista ao chalé visitado pela sobrinha e conferir a fita amaldiçoada.

No caminho das respostas que tanto busca, Rachel descobre a história de Samara Morgan (Daveigh Chase), a responsável pela maldição do vídeo. É um conjunto de situações que envolve a morte da garota pelos pais adotivos, dentre eles, Richard Morgan (Brian Cox), jogada no poço e destinada a vagar pelo além em busca de retaliação pelo que lhe fizeram em vida. O “casal” desvenda o mistério, expõe publicamente a história, conscientes de que fizeram a coisa certa pela garota. A realidade, no entanto, é mais dura do que pensamos e Samara não está dispostas a terminar a sua trajetória metafísica. Assim, ela aniquila Noah alguns dias depois e deixar a jornalista sem saber como será o desfecho daquela história que parecia ter terminado, trama cheia de idas e vindas, orquestrada pelo cineasta Gore Verbinski, talentoso ao se guiar pelo roteiro de Ehren Krueger, dramaturgo que reorganiza um texto já estruturado, tendo como função a complexa tarefa de tradução cultural.

Assim, os diálogos se modificam, tal como as ações dos personagens. Há, entre as duas mães de ambas as narrativas, basicamente a mesma necessidade dramática. Manter-se ilesa em prol de seus filhos. É um tema que funciona dentro do que se convencionou a chamar de “universal”, uma ideia geral que atinge oriente e ocidente. Na versão estadunidense, por sinal, o realismo também não deixa de estar presente. Rachel é a protagonista, mas se comporta como um ser humano qualquer, cheia de falhas que a caracterizam como uma mulher normal, cheia de imperfeições. Rachel é intensa, mas não é perfeita. É uma mãe relapsa e com uma relação estranha com o pequeno Aidan, um menino silencioso e triste, uma espécie de imagem especular de Samara Morgan, a responsável pela maldição do vídeo. Jornalista de um veículo impresso, ela não tem escrúpulo algum quando a necessidade do furo ou as respostas para salvar a sua vida falam mais alto que os valores estabelecidos pelo que as pessoas taxam de “ética”, tendo como o bom disso tudo, a forma como tais personagens circulam nos espaços concebidos pelos elementos estéticos da história.

Com direção de fotografia de Bojan Bozelli, os enquadramentos e movimentos de câmera da narrativa trabalham de maneira eficiente na edificação da tensão, justaposta aos filtros azulados que nos remetem ao elemento condutor universal, a água, presença constante em O Chamado, refilmagem que contou com a condução sonora já tradicional de Hans Zimmer, um trabalho que pode ser considerado como bom, mas sem nada de muito especial. Os efeitos sonoros “berram” em algumas passagens, características que se tornaram a base do terror hollywoodiano, mesmo para os bons filmes. É um elemento basilar, trabalhado pela equipe de efeitos sonoros de J. R. Grubbs. O bom ritmo pode ser creditado ao eficiente manejo das imagens, tratadas pelo editor Craig Wood, lado a lado com a equipe de Charles Gibson, supervisor dos efeitos visuais, outra presença forte no filme, às vezes um pouco exagerada, mas com uso que não atrapalhou os elementos dramáticos da narrativa.

Barney Burn, responsável pela maquiagem, acerta não apenas na construção das mãos e pernas de Samara, o foco do horror físico em O Chamado, mas também nas olheiras do pequeno Aidan, garoto que se comporta como adulto e age numa demonstração clara de distúrbio comportamental. Os figurinos de Julie Weiss, veterana no sistema de produção hollywoodiano, refletem bem os perfis físicos e psicológicos de seus personagens. O design de produção assinado por Rosemary Brandenburg é outro ponto eficiente nesta refilmagem, pois consegue trazer elementos para os cenários e direção de arte sem deixar de dialogar com o projeto visual geral da produção. Os elementos que compõem a casa, a construção do poço, as ruas sempre molhadas de chuva, o ambiente de trabalho e a escola de Aidan, todos criados dentro de um visual unificado, o que transmite conexão aos espectadores. Os cenários de Tom Duffield merecem destaque dentro deste segmento, arquitetado de maneira genial para permitir que a história introduza os elementos do tal vídeo amaldiçoado.

Dentre os detalhes interessantes temos a imagem como uma ameaça a ser temida. O clima fantasmagórico é complexo, pois o mal é midiatizado, como numa crítica à televisão. Isso fica aparente quando Rachel visita a fazenda do pai de Samara e numa discussão, ele desabafa a sua opinião sobre os profissionais da mídia: “O que querem os repórteres? Pegam a tragédia de alguém e espalham como doença”. Há uma cena onde Rachel observa o edifício vizinho e todos os apartamentos visíveis estão com os seus televisores ligados, com as pessoas fazendo as mais diversas atividades. Numa era de depressão e solidão, a televisão se tornou o parente caladão e onipresente. A TV é o portal de Samara, parte de um esquema de destruição das nossas moléculas cerebrais, conforme aponta duas personagens logo na abertura. E o que dizer da família? Sem os padrões comuns estabelecidos pela sociedade tradicional esfacelada há eras, aqui encontramos uma mãe que precisa dar duro para manter o seu filho, sem a devida ajuda do pai onipresente e irresponsável. A busca pela maternidade parece um tema que tenta urgir no tecido narrativo de O Chamado, mas fica como tópico basilar da inevitável continuação, desta vez, comandada pelo cineasta que idealizou o projeto oriental, Hideo Nakata.

O Chamado (The Ring) — Estados Unidos, 2002
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Ehren Krueger
Elenco: Naomi Watts, Martin Henderseon, Daveigh, Rachel Bella, Lindsay Frost, Jane Alexander, Brian Cox
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.