Crítica | O Chamado 3

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Os nossos monstros sempre retornam para nos assustar. Ao começar a sessão de O Chamado 3, em sua época de lançamento, lembro-me bem de uma das leituras sobre o assunto, o livro Da Natureza dos Monstros, de Luiz Nazário. O autor descreve que em nosso universo imaginário, os mortos sempre retornam, mais cedo ou mais tarde, para o convívio social, geralmente assumindo formas variadas para cobrar dos vivos, a paz prometida que não foi encontrada no além neste caso, Samara, do fundo do poço, não consegue esquecer e precisa retribuir tudo o que lhe fizeram durante a vida. Nazário reflete que é a desforra diante das injustiças cometidas contra eles, alguns interessados em arreganhar para a tumba, novos companheiros. É dentro desta perspectiva que a franquia O Chamado retornou doze anos após o lançamento de seu desnecessário e equivocado segundo filme.

Samara está de volta, e desta vez, ela é múltipla, pois adentrou a zona da cibercultura e sua representação audiovisual que antes era exclusividade da fita maligna agora circula por computadores, celulares, etc. Pode estar até na sua lixeira do notebook, algo que ainda representa perigo para qualquer pessoa que mantenha contato com os breves minutos de imagens surrealistas, seguidos da ligação taxativa: “sete dias”. Assim, os personagens correm, gritam, buscam por socorro, aliam-se em prol do fim da saga vingativa da menina dos cabelos longos, mas antes tínhamos, mesmo em sua continuação, um elenco de bons atores e personagens.

Em O Chamado 3, todos parecem bem entusiasmados nos bastidores, haja vista a larga campanha de marketing com diversos featurettes sobre o desenvolvimento do filme e o retorno de várias pessoas da produção anterior para ocupar espaços profissionais técnicos, da maquiagem aos efeitos sonoros. No entanto, neste processo que inclusive permitiu a entrega do filme para o cineasta espanhol Javier Gutiérrez, o enredo sobre a lenda urbana de Samara, agora numa experiência coletiva que lhe permite ser mais abrangente na destruição de vidas, esqueceu de elementos básicos da dramaturgia: a construção de bons personagens, em prol da catarse. Escrito por Akiva Goldsman, David Loucka e Jacob Estes, o roteiro é repleto de escolhas equivocadas, diálogos questionáveis, ainda piores diante da dupla protagonista.

Não podemos reclamar, pelo menos, do visual, pois a direção de fotografia de Sharone Meir investe na iluminação verde musgo dos filmes anteriores, além de traços em azul, numa rememoração das origens de Samara, a água, o condutor universal amado por Hideo Nakata, diretor da versão japonesa e da continuação estadunidense. Transeuntes dos espaços concebidos pelo design de produção de Kevin Kavanaugh, temos Julia (Matilda Lutz) e Holt (Alex Roe), casal que precisa descobrir uma maneira de escapar da famosa maldição depois que acessam ao vídeo, mesmo não sendo culpados por chegar até o material tão macabro. Neste processo, antes temos uma promissora cena do ataque de Samara Morgan (Bonnie Morgan) num avião, proposta que logo se perde diante da pirotecnia, em detrimento do estabelecimento dramático do “conteúdo”. Logo mais, um professor universitário (Johnny Galecki) tem acesso ao mesmo material e diante da situação emergencial, busca jogar com a entidade, expondo-a ao seu experimento científico que pode acabar de vez com a durabilidade de tal espírito vingativo.

Só que como já é esperado, as coisas não dão certo: tanto no interior da proposta universitária quanto no desenvolvimento do filme, um tédio como entretenimento e uma vergonhosa experiência de cunho dramático. Ademais, os elementos estéticos não representam os problemas narrativos de O Chamado 3, produção que de fato peca no excessivo uso de jumpscare, descaradamente empregado por conta da ausência de outras estratégias dramáticas para aproximação do público com a trama. A maquiagem de Arjen Turten e os efeitos visuais da equipe de Marc Massicatte cumprem muito bem os seus papeis na edificação do monstro representado pela atriz contorcionista responsável pela versão de Samara a tentar sair do poço nos momentos finais de O Chamado 2.

A trilha sonora de Matthew Margeson envolve, mas não se aproxima da atmosfera importa por Hans Zimmer na composição para os filmes anteriores, principalmente por Margeson disputar bastante espaço com os efeitos sonoros ensurdecedores do design de som de P. K. Mooker. Diante do exposto, O Chamado 3 é uma produção que pode ser considerada equivocada, narrativa que não acrescenta em nada na mitologia de Samara, um dos personagens ocidentais mais marcantes do terror na década de 2000. Supostas complexidades são colocadas na história, tais como a presença de um padre e de uma mulher que habita uma casa assombrada, mas não funciona. A proposta do monstro do poço como um tema a ser estudado no espaço acadêmico é uma injeção interessante de ânimo para a franquia, mas os envolvidos não conseguiram utilizar os tópicos propostos, transformados em breves esboços de algo que poderia ser bom, mas não é.

O Chamado 3 (Rings) — EUA, 2017
Direção:
 F. Javier Gutiérrez
Roteiro: David Loucka, Jacob Estes, Akiva Goldsman
Elenco: Matilda Lutz, Alex Roe, Johnny Galecki, Vincent D’Onofrio, Aimee Teegarden, Bonnie Morgan, Chuck David Willis
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.