Crítica | O Chamado da Floresta (2020)

História de resiliência e amizade, O Chamado da Floresta é uma aventura inspirada no romance de Jack London, publicado em 1903, revisitado em outras ocasiões ao longo da história do cinema. Tendo Harrison Ford como protagonista amigo do cachorro Buck na versão mais recente, o filme é a comprovação do interesse das plateias por tramas sobre homens, cães, famílias e relacionamentos humanos. Sob a direção de Chris Sanders, veterano em animações e produções voltadas para o conteúdo “família”, a tradução intersemiótica do clássico literário teve Michael Green como roteirista responsável por adaptar o conteúdo para o público e as possibilidades narrativas recentes, em especial, os efeitos visuais deslumbrantes, preocupados com algo além do flerte aleatório com a tecnologia, numa preocupação notável com o desenvolvimento dramático da saga dos personagens, mesmo que o resultado neste setor não tenha conseguido alcançar um patamar satisfatório.

Basicamente, O Chamado da Floresta é um drama com toques de aventura sobre um cachorro, Buck, levado de sua casa na Califórnia, enquanto morava com o Juiz Miller (Bradley Whitford), homem que não deseja mais o cão “bagunceiro”. Ao ser colocado de “castigo”, Buck é sequestrado por homens interessados em seu porte. Ele acaba no Alasca em plena época da febre em torno da extração de ouro. Será no ambiente gélido que ele conhecerá seus próximos donos, Perrault (Omar Sy) e Françoise (Cara Gee), carteiro que depois o cede para John Thorton (Harrison Ford), um homem amargurado pela perda do filho, tragédia que teve como consequência a separação com a sua amada esposa. A sua existência, como nos apresenta o título da história, recebe o chamado da floresta. Lá, ele fará amizade com o personagem de Ford, aprenderá e ensinará algumas lições e acaba por se tornar uma espécie de rei da floresta, com filhotes e simbiose com outros animais que não fazem parte da sua raça, mas o acolhem como parte da família.

No que tange aos aspectos estéticos, os já citados efeitos visuais são incríveis, somados ao cuidadoso trabalho de Janusz Kaminski na direção de fotografia, pensada de maneira cuidadosa na captação de elementos físicos para a inserção dos complementos virtuais. Acompanhados da trilha sonora de John Powell, os personagens seguem as suas trajetórias numa condução musical adequada para o conteúdo proposto pelo roteiro, transformado em filme por Sanders e sua equipe. Há movimentadas cenas com avalanches, organizadas pela edição também antenada com as necessidades narrativas, além de interiores de cavernas e captações noturnas com a floresta iluminada pelas criaturas naturais que transformam a produção num festival de belos quadros para contemplarmos enquanto a história dos protagonistas avança. Há personagens que aparecem e depois somem sem arcos muito definidos, mas ainda assim o filme funciona.

Ademais, mesmo genérico, O Chamado da Floresta é um filme muito bonito de se ver, narrativa capaz de ser encantadora se o espectador adentra no pacto da trama e se deixa levar pela mensagem edificante, algo que a realidade infelizmente nos  impediu de se apegar atualmente, em meio ao processo de tentativa de sobrevivência em nossa era da descrença. Quando digo genérico, quero reforçar que a produção é “aquela trama” que nós já acompanhamos diversas vezes em outros filmes, com mudança apenas no espaço cênico e nome dos personagens, mas estrutura narrativa similar e repetitiva. Se houver boa vontade e simpatia do público, a aventura funciona com um ótimo entretenimento para todas as idades, tendo ainda algumas questões que podem ganhar abordagens mais filosóficas, caso haja a devida troca simbólica entre a mensagem exibida e a decodificação do espectador e seu conhecido de mundo.

Antes do encerramento, devo dizer o quão surpreendente são os efeitos visuais desenvolvidos pela equipe de Richard Clegg, supervisor responsável pela presença de Buck a todo tempo em CGI surpreendente, algo que para o leitor ter ideia, só descobri depois que terminei de assistir ao filme, enquanto dois amigos conversavam na saída da sessão e comentavam curiosidade de bastidores. Não apenas o cachorro, mas os demais animais, tais como o deslumbrante e realista urso e o lobo que até certo ponto, ocupa a posição de antagonista. São imagens em perfeita simbiose com o desempenho dramático dos atores. Soube que algumas pessoas questionaram a “humanidade” do cachorro, algo que não faz sentido, afinal, em se tratando de cinema e literatura, onde fica o espaço da alegoria e da liberdade criativa, elementos que em paralelo, promovem a fantasia comum para a chamada magia do cinema?

O Chamado da Floresta (Call of The Wild) — Estados Unidos, 2020
Direção: Chris Sanders
Roteiro: Jack London, Michael Green
Elenco: Adam Fergus, Alex Solowitz, Anthony Molinari, Brad Greenquist, Bradley Whitford, Cara Gee, Colin Woodell, Dan Stevens, Daniel Aryeh, David M Sandoval Jr., Harrison Ford, Jean Louisa Kelly, Karen Gillan, Karl Makinen, Kirk Geiger, Micah Fitzgerald, Omar Sy, Scott MacDonald, Stephanie Czajkowski, Terry Notary
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.