Crítica | O Chamado (Ringu)

estrelas 4

O Japão é um país repleto de tradições. Do haikai ao anime, conhecemos diversas formas de produção artística do país, bem como a sua forma peculiar de trabalhar o homem em seu cotidiano. A vida e a morte também são peculiarmente contempladas, desde mangás de horror como Uzumaki a filmes do gênero como Ringu (1998).

O terror japonês caiu nas graças do público ocidental em meados da década de 90, e a partir de então tornou-se até um clichê cinéfilo falar da “superioridade do terror japonês”. Para mim, o horror asiático é bom porque privilegia a psicologia, trabalha mais a alma e a atmosfera do macabro ao invés de se preocupar em opor anjos e demônios ou jorrar rios de sangue para uma câmera cambaleante.

Especialmente no horror japonês, o mal é um fato consumado, existe, e não necessariamente quer destruir a tudo o que vê pela frente. Como vemos em Ringu, às vezes o mal se contenta em fazer parte de um maldoso jogo mortal… A vida e a morte convivem normalmente, uma aceitando a existência da outra, sem as penas, temores e demonizações pregados pelo cristianismo ocidental. Bem, essa percepção cultural diferente, além de diferentes condições antropológicas, podem explicar a força tremenda que o horror japonês possui, e o que faz os filmes desse país serem considerados bons, embora na maior parte das vezes a soma de todos os elementos internos da obra não seja muito satisfatória.

Ringu, de Hideo Nakata, foi um enorme sucesso de bilheteria dentro e fora do Japão, e sua trama chamou a atenção de Hollywood, que comprou os direitos para um remake, dirigido em 2002 por Gore Verbinski. O filme conta a história de um grupo de pessoas que morrem tragicamente após assistirem a um misterioso curta-metragem em um VHS. Uma jornalista passa a investigar o caso, e após ela mesma assistir à obra amaldiçoada, sua investigação se torna a luta pela própria vida. Entre o mundo sobrenatural e um bom suspense dramático, Nakata criou uma obra de impacto sobre o espectador porque atinge a própria percepção de bem, mal e vingança.

Ringu não é um filme bem trabalhado artisticamente, e há quem diga ser esta crueza e escuridão fotográficas uma opção do diretor para intensificar o suspense. Nesse caso, a escolha não foi das melhores, e todo bom cinéfilo sabe que tons escuros imperando sobre a película não é garantia de boa atmosfera de horror. A despeito da fotografia, os planos e os ângulos usados no filme são de uma precisão matemática, e não só mostram precisamente o que deve ser mostrado, como dão uma grande fluidez interna ao filme. No plano externo, a montagem se caracteriza por takes médios na primeira parte do filme; um pouco mais longos e vazios durante o seu desenvolvimento; e híbridos, a partir das sequências em Oshima. Da mesma forma, o uso dos sons e da pontual trilha sonora variam a intensidade e importância cênica durante a projeção.

A história de Ringu se sustenta pelo roteiro bem trabalhado e por não fazer guerras sobrenaturais. A ironia da morte e a relação dos humanos com a perspectiva de morrer são trabalhados em crescendo, e muito me lembrou o ritmo cada vez mais intenso que vemos, por exemplo, em Os Pássaros. Mesmo que não haja uma aula de atuações e a presença da personagem infantil seja pouco justificável, nenhuma dessas coisas atrapalham o desenvolvimento do filme ou diminuem o seu valor. Ringu é um ótimo exemplar do mercado macabro japonês. O resto só sabe quem assistiu ao filme.

O Chamado (Rigu) – Japão, 1998
Direção: Hideo Nakata
Roteiro: Hiroshi Takahashi (baseado na obra de Kôji Suzuki)
Elenco: Daisuke Ban, Hiroyuki Sanada, Hitomi Sato, Katsumi Muramatsu, Miki Nakatani, Nanako Matsushima, Rikiya Otaka, Yoichi Numata, Yuko Takeuchi, Yutaka Matsushige
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.