Crítica | O Chamado Selvagem, de Jack London

Uma das mais populares obras do escritor americano Jack LondonO Chamado Selvagem é também conhecido por uma variedade de títulos aproximados aqui no Brasil, como O Grito da Selva, O Chamado da Selva, O Apelo da Selva, O Chamado da Floresta e apenas Chamado Selvagem. Inicialmente serializado no The Saturday Evening Post, em 1903, o livro foi publicado pela Editora Macmillan ainda no mesmo ano, e desde então passou a gozar de tremendo sucesso, contando com inúmeras reedições e também adaptações para o cinema.

No centro das atenções está um cão de nome Buck, cruzamento de São-Bernardo com Pastor Escocês (ou Collie Escocês, que pela descrição dada no livro sobre os pelos do animal, me pareceu ser especificamente um Rough Collie). Buck vivia na casa do Juiz Miller em Santa Clara Valley, Califórnia, e é a partir de sua perspectiva, mas não narração, que temos imediatamente contato com uma mudança que se passava naquela região: a Corrida do Ouro de Klondike (1896 – 1899). Além do contexto histórico real, a obra traz uma abordagem visualmente bastante poderosa e emocionalmente cativante, algo que o autor retira de sua própria experiência de quase um ano no Yukon, como minerador, e dela cria uma aventura de fronteira mista de nuances pastoris passando por uma famosa abordagem literária nos Estados Unidos: a do herói mítico que retorna à natureza. Vemos muito disso nos dramas dos “Homens Solitários do Oeste“, mas aqui, essa perspectiva é aplicada ao cão protagonista, dando a obra uma classificação de fábula misturada com alegoria.

O estilo de London é objetivo e já nas primeiras páginas o leitor percebe que está diante de uma saga de sobrevivência, percepção que a partir do meio do livro receberá como adicional uma linha meio filosófica, meio realista de retorno ao primitivismo, levantando questões que a extensa fortuna crítica da obra já apresentou ao longo dos anos, como a discussão do que é inato ou adquirido ou a abordagem simbólica (e arquétipa!) de diversos personagens no decorrer da caminhada de Buck, onde os críticos sempre destacam Charles, Hal e Mercedes como símbolos da vaidade e da ignorância, enquanto John Thornton, Pete e Hans representam lealdade, pureza e amor. Em nenhum momento temos a impressão de que o autor está correndo para encerrar um tema ou uma parte da jornada, tampouco sentimos falta de uma exploração psicológica dos personagens, o que é realmente surpreendente porque temos aqui um livro curto, com muitos personagens (entre humanos e cães) e todos eles recebem um bojudo desenvolvimento do começo ao fim. E se isso é verdade para os humanos, torna-se ainda mais forte quando se trata dos cães.

O poder de criação de imagens do autor é imenso, e mesmo que ele não dê detalhes minuciosos de todo o espaço geográfico percorrido pela matilha (não é um Dersu Uzala da vida), certamente consegue nos passar uma visão clara e rica dessas terras, do passar dos dias sob a neve, da chegada da escuridão mais cedo em momentos do ano e de como os viajantes se comportam nesse espaço: quando comem, por que brigam (a luta entre Buck e Spitz é uma das mais brilhantes e intensas passagens do livro) e qual o estado físico dos cães, especialmente após uma briga — ou, como no começo, após os espancamentos que ficam na memória do leitor até o final da narrativa. É realmente difícil se esquecer de um homem de jaqueta vermelha e porrete na mão batendo num cachorro; ou do infame Hal espancando um Buck praticamente morto de cansaço, assim como seus companheiros. Seja através do sangue e da violência ou da compaixão e amor, o autor nos envolve com grande intensidade em cada uma das passagens.

Eu confesso que partilhei, por algumas páginas, de uma das críticas negativas feitas a O Chamado Selvagem à época de seu lançamento: a estranheza de uma atribuição de sentimentos “não naturais” (ou emocionalmente exagerados) a um animal, dentro de uma narrativa mais realista. Aos poucos, porém, fui percebendo como essa escolha do autor se encaixava no todo, desde a representação de momentos específicos dos cães puxando um trenó de cartas e encomendas pela neve, até o lado mais fantasioso, onírico ou fabular do volume, que faz jus ao título da obra e completa a discussão sobre a influência do espaço sobre o indivíduo, e aquilo que a experiência pode fazer adormecer e desaparecer ou também acordar em alguém. Há motivos de sobra no livro para justificar o endurecimento sentimental, físico e emocional de Buck, assim como a exibição de sua parte “não natural”, que é a linha moral exposta pelo autor. Todavia, isso faz sentido aparecer aqui porque é uma leitura de fora a partir de uma revolucionária mudança de vida e de ações do animal. É uma interpretação ou adaptação de sentimentos, digamos assim.

O final do livro é de cortar o coração, mas também traz uma alegria difícil de exprimir. Buck completa a sua jornada de cão civilizado para um cão primitivo, que está profundamente conectado com a floresta e que dela tira não apenas o seu alimento, a sua água, a sua diversão, mas também o verdadeiro sentido de sua existência. Um sentido mascarado pela domesticação e só após muito sangue, porretes, machados, presas e dores é que foi descortinado nele. As visões ancestrais podem incomodar alguns leitores, mas para a proposta do livro, faz o mais absoluto sentido delas existirem. Buck agora tinha voltado para casa de corpo e alma. Ele atendeu ao chamado selvagem. E se tornou uma lenda.

O Chamado Selvagem (The Call of the Wild) — EUA, 1903
Autor: Jack London
Publicação original: The Saturday Evening Post, 1903
Editora original: Macmillan
Edição lida para esta crítica: Editora Hedra, 2012
Tradução: Roberto Amado
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.