Home FilmesCríticas Crítica | O Charlatão (2020)

Crítica | O Charlatão (2020)

por Ritter Fan
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O curandeirismo existe desde que o mundo é mundo e nas mais diversas culturas. E o mesmo pode ser dito do charlatanismo – este nas mais diferentes áreas – que, na medicina, se vale basicamente da ignorância e/ou inocência das pessoas para prometer milagres, muitas vezes levando-as às morte. Um dos mais famosos curandeiros do Ocidente teve sua história quase que completamente apagada pelas brumas do tempo e O Charlatão, segundo longa da aclamada diretora polonesa Agnieszka Holland em dois anos, resgata esse conhecimento, mas não exatamente para estudar o personagem histórico e seus supostos feitos impressionantes.

Ao contrário, usando o título mais como ironia, o roteiro de Marek Epstein sedimenta a reputação e os tratamentos do herbalista polonês Jan Mikolásek que só precisava ver a urina de seus pacientes com a ajuda da luz do sol para identificar eventuais doenças e prescrever a cura por meio de plantas. Tendo tratado milhões de pessoas ao longo das décadas, inclusive autoridades máximas de seu país e também de diversos outros, Mikolásek é abordado no longa de maneira que qualquer traço de charlatanismo seja imediatamente afastado. Não que o roteirista ou a diretora necessariamente acreditem em seus literais superpoderes, pois isso não vem ao caso, mas sim porque o interesse deles é lidar com a opressão do governo comunista sobre qualquer um que estivesse em desconformidade com seus ditames e um curandeiro não-médico rico e que não depende do estado totalitarista e fantoche da União Soviética cai exatamente nessa rubrica.

Usando fatos reais, o longo começa a partir da morte do presidente Antonín Zápotocký que, tratado por Mikolásek (Ivan Trojan, na versão adulta e seu filho Josef Trojan, na versão jovem), era o último bastião de defesa do curandeiro que, ato contínuo, passa a ser vigiado pela polícia secreta. Flashbacks que começam na Primeira Guerra Mundial e vão abordando eventos formativos do protagonista passam, então, a criar a mítica ao redor do personagem. É essa história pregressa que, de um lado, completamente afasta – para fins deste filme, claro – o alegado charlatanismo de Mikolásek e, de outro, estabelece um lado sombrio em princípio completamente fictício em sua personalidade, possivelmente causado por trauma durante a guerra e que é explorado de maneiras diferentes ao longo de toda a narrativa, culminando em um momento no presente que é de cortar o coração.

No entanto, o foco mesmo de Holland é na suposta homossexualidade de Mikolásek, algo nunca exatamente comprovado, mas que sempre foi alvo de suspeitas em razão de seu casamento ter falhado e por seu assistente e braço direito, Frantisek Palko (Juraj Loj), apesar de casado, ter morado em sua mansão. Fictício ou não, é esse relacionamento que o roteiro descortina, com Holland trabalhando muito bem a conexão imediata entre os dois homens em um ambiente absolutamente tóxico para um relacionamento dessa natureza. Tanto Trojan (o pai) quanto Loj convencem em seus papeis, valendo especial destaque para o momento em que os deixam fluir seus sentimentos em uma sequência violenta, mas muito bem conduzida por Holland.

No entanto, o roteiro jamais coloca a homossexualidade como objeto da perseguição comunista. Isso fica restrito exclusivamente ao alegado charlatanismo de Mikolásek, o que acaba tornando a história de amor uma sub-trama que só vai gerar algum tipo de dividendo na dolorosa sequência final que não descreverei aqui para não entregar spoilers, mas que cria um abismo enorme entre expectativa e execução dentro da narrativa, algo que não é de forma alguma justificado pela construção do protagonista mesmo levando em consideração seu trauma e seus arroubos de violência. Com isso, o longa acaba sem que um fio condutor sequer exista, com o roteiro fazendo movimentos pendulares entre a prisão dos dois por acusações de charlatanismo e o amor que eles sentem, mas sem conjugar as histórias. Mesmo que seja possível metaforizar a perseguição que Mikolásek sofre por ser curandeiro com a perseguição que os homossexuais sofrem por sua orientação sexual, essa é uma ponte estranha para se cruzar dentro da proposta do longa, que mantém as duas narrativas realmente separadas, tangenciando-as somente no final e mesmo assim não como fruto de opressão totalitarista.

E, com isso, o filme, perde coesão estrutural e narrativa, passando a ser apenas uma muito bem executada cinebiografia de uma personalidade pouco conhecida, mas de passado fascinante, com pelo menos metade do foco em uma construção completamente ficcional de seu relacionamento com Palko. Por melhor que seja a direção de arte em reconstruir as décadas que são retratadas no longa e por melhores que sejam as atuações dos dois Trojans e de Loj, O Charlatão acaba por não encontrar uma voz que transcenda seu valor como rememoração sobre quem foi Jan Mikolásek.

O Charlatão (Charlatan – República Checa/Irlânda/Eslováquia/Polônia, 2020)
Direção: Agnieszka Holland
Roteiro: Marek Epstein
Elenco: Ivan Trojan, Josef Trojan, Juraj Loj, Daniela Vorackova, Jaroslava Pokorná, Miroslav Hanuš, Tomáš Jeřábek, Martin Myšička, Václav Kopta, Jan Budař, Joachim Paul Assboeck
Duração: 118 min.

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