Crítica | O Clube dos Canibais

A cinematografia brasileira durante bastante tempo, dialogou com temáticas tão específicas de nossa realidade social e cultural que o terror ficou de fora do circuito por eras. A nossa referência no segmento eram os filmes de Zé do Caixão, realidade modificada depois que alguns cineastas começaram a investir no gênero como uma alegoria para as questões que nos incomodam cotidianamente. O Clube dos Canibais segue esta linha alegórica e traz uma narrativa surpreendente, esteticamente bem conduzida e com crítica social ferrenha sem nenhuma sutileza ou poesia. O que se estabelece do começo ao fim é a calamidade de nossa realidade, prato cheio para alimentar o desenvolvimento desta história macabra repleta de camadas para a nossa interpretação e debate.

Dirigida por Guto Parente, também responsável pelo roteiro, a produção aborda a relação de Otávio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios), casal que tem como hábito matar e devorar os seus empregados. Ocupantes de uma microscópica camada da sociedade brasileira, isto é, a zona dos privilegiados, a dupla vive luxuosamente numa mansão localizada pelos arredores de Fortaleza. A vida social é badalada, repleta de eventos elegantes onde a elite encontra-se constantemente para dialogar com vinhos caros, queijo de qualidade, música sofisticada e outros benefícios de quem consegue manter o seu padrão de vida à partir do suor e sofrimento alheio.

Eles fazem parte de um grupo seleto, liderado pelo cínico Borges (Pedro Domingues), um homem poderoso e cheio de contatos influentes, responsável por ditar as normas sociais deste tecido composto por pessoas de caráter duvidoso. O ritual do casal é sempre o mesmo. Eles combinam a execução da seguinte maneira: após o empregado, na função de caseiro, passar breve tempo na mansão, Gilda arruma uma estratégia para seduzi-lo e leva-lo para cama. O marido, na noite anterior, narra para tal empregado que fará uma viagem para a capital e deixa como missão o cuidado que o funcionário precisa ter com a sua esposa.

Seduzida, a vítima é dizimada na cama enquanto promove um festival de sexo para Gilda, geralmente com uma machadada na cabeça, pelas costas. Isso, sem antes, Otávio se masturbar e chegar ao orgasmo diante de uma postura voyeur, antes de cometer o ato criminoso. Sempre abastecidos, o casal alimenta-se de suas vítimas e vive uma existência cheia de entraves, crises, etc. Certo dia, as coisas se complicam quando Gilda é testemunha de uma situação envolvendo Borges, um homem que parece causar breve temor ao seu marido. Na tentativa de chantageá-lo, ela acaba se complicando. Deste ponto em diante, as coisas começam a ficar tensas e incertas. É o momento de cada um garantir a sua sobrevivência, seja física ou social.

Os canibais em cena não se limitam apenas ao casal protagonista. O clube de homens distintos frequentado por Borges e Otávio, representação de uma elite que morre de medo de perder o seu posto privilegiado, é, na verdade, formado por um grupo de homens brancos que se alimenta, alegoricamente e gastronomicamente, da carne e dos sangue de seus funcionários, vítimas pobres, negras e periféricas. É um horror absoluto, simbólico e cruel, retrato de quem vive uma realidade diária sofrida e macabra. Unificados por um ideal, este grupo se reúne em sessões fechadas, discretas, num festival de fazer arrepiar. Entre espetáculos de sexo, sangue e morte, junto ao pão e vinho da mesa farta, eles bridam a lealdade que os unem, homens supostamente “devotos aos mais nobres e elevados valores universais”.

Montado por Luiz Pretti e Ricardo Pretti, O Clube dos Canibais consegue ir além da crítica social que grita, berra e  esperneia, mostrando-se um exercício eficiente da linguagem cinematográfica, conduzido musicalmente por Fernando Catatau, tão profícuo e qualificado quanto a direção de arte assinada por Lia Damasceno, elementos que justapostos, dão ao filme uma intensa unicidade. Ademais, destaque para o desempenho sincero de Jonas (Zé Maria), funcionário que fará o ciclo do casal mudar radicalmente as suas estratégias de funcionamento. Ele é selecionado dentro do padrão habitual do casal, questionador em relação aos familiares próximos, aos hábitos de saúde, dentre outras questões que definem ou não se ele será parte da próxima refeição.

Com um roteiro conectado com tensões dramáticas crescentes, O Clube dos Canibais é uma experiência visualmente eficiente. Os absurdos e perversidades das mentes doentias que gravitam em torno da história narrada são captados pela direção de fotografia de Lucas Barbi, responsável por registrar as imagens sanguinolentas e os horrores de um grupo que compartilha do gozo de devorar os seus semelhantes, considerados inferiores, tal como um rolo compressor. Sem sutilezas, o filme expõe de maneira ousada e astuta, o projeto de extermínio de uma elite que afirma ser necessária a “extinção dos flanelinhas”, expressada em diálogos aparentemente absurdos, mas extraídos de situações verdadeiras, não distantes de nosso cotidiano nesta terra do mito da democracia racial, terreno das exclusões e contradições sociais.

O Clube dos Canibais — (Brasil, 2018)
Direção: Guto Parente
Roteiro: Guto Parente
Elenco: Alcântra Costa, Ana Luiza Rios, Breno Baptista, Bruno Prata, Fátima Muniz, Fernando Piancó, Galba Nogueira, Gustavo Lopes, Juliana Carvalho, Júnior Martins, Karita Gardenia, Lc Galetto, Luis Henriques, Mara Nívea, Marco Goulart, Pedro Domingues, Rodrigo Capistrano, Rodrigo Fernandes, Tavinho Teixeira, Zé Maria
Duração: 81 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.