Crítica | O Comboio do Medo (1977)

Sorcerer-on-the-Bridge_plano critico O Comboio do Medo (1977)

Alguns diretores sofrem após um grande sucesso. Alcançar reconhecimento absoluto cria uma certa obrigação de atingir o mesmo nível no filme seguinte. Existem diversos casos que atestam isso: como o fracasso de Martin Scorsese em New York, New York, filme seguinte a Taxi Driver; e o fiasco de Michael Cimino com seu O Portal de Paraíso, obra que sucedeu O Franco-Atirador. As obras citadas, na opinião deste crítico, não são ruins ou medíocres, mas seu nível de qualidade é tão longe das obras anteriores que decepcionaram público e parte da crítica.

O material de análise desta crítica, O Comboio do Medo, é um exemplo disso. O diretor William Friedkin comandou, em sequência, duas obras que entraram para a história do cinema: Operação França, vencedor do Oscar; e O Exorcista, um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. O longa seguinte a esses sucessos, O Comboio do Medo, não atingiu a expectativa do público, resultando em um enorme fracasso de bilheteria. A consequência foi o enterro do movimento da Nova Hollywood, que tinha o diretor como um dos principais nomes. No entanto, tal resultado foi injusto, uma vez que a obra possui vários pontos positivos. 

O filme apresenta quatro homens fugitivos que escolhem para uma cidadezinha na América Central para se esconder. Nilo (Francisco Rabal) é um matador profissional. O terrorista Kassem (Amidou) viu os seus amigos serem presos e mortos pela polícia após explodirem um banco em Jerusalém. Victor Manzon (Bruno Cremer) é um banqueiro francês que deixou o seu país para escapar de uma acusação de fraude. O ladrão Jackie Scanlon (Roy Scheider) foge da máfia depois de um assalto que deu errado. Após sofrerem com a corrupção da polícia local e as péssimas condições de vida, eles encontram uma chance única de conseguir uma alta quantia em dinheiro e fugir dali: transportar dois caminhões cheios de nitroglicerina por uma estrada perigosa na selva.

Enquanto O Salário do Medo, objeto do remake de Friedkin, possui uma abordagem antiimperialista e até mesmo anti-sistema, Comboio do Medo apresenta uma história intimista, explorando como o desespero pode levar um homem a desafiar seus próprios limites. Portanto, a obra apresenta um embate entre homem e natureza. As belas tomadas aéreas do filme servem não apenas para situar a ação, mas também para destacar como aqueles pilotos são nada diante da selva. Isso resulta em um acertado tom niilista, o mesmo do livro de Georges Arnaud, abordando como o homem que se sujeita a profissões de tamanho risco já é um homem morto, convivendo sempre com o medo.

Durante a viagem daqueles homens, a paleta de cores assume tons de verde para destacar a mata densa que os rodeia, mas também trazendo o azul o estado de desespero e isolamento dos personagens. A fotografia prioriza planos abertos e subjetivos, ressaltando a complexidade dos movimentos dos caminhões. O melhor exemplo disso está na excepcional cena da travessia pela ponte. Friedkin inteligentemente usa um plano geral extremo, intercalado com um plano subjetivo de dentro do caminhão e um contra plongée, para destacar a fragilidade da ponte, a inclinação dos veículos e o peso dos automóveis, criando tensão pela possibilidade de queda a qualquer momento.

Além disso, o uso do som é impecável. O design de som ressalta os ruídos do caminhão, como a troca de marcha e aceleração, e os sons da floresta, como do vento batendo nas árvores ou do vento durante uma tempestade, criando uma atmosfera de medo e insegurança. Já a trilha sonora, composta pela banda Tangerine Dream, serve para dar ritmo ao filme, com seu teclado e sintetizadores. Nas cenas de maior suspense, Friedkin acerta ao abrir mão de trilha para focar nos ruídos, sendo a estratégia mais inteligente para colocar o público na ponta da cadeira.

Outro elemento técnico que merece aplausos em O Comboio do Medo é a direção de arte. A cidade da América Centrall exala podridão, seja financeira ou moral, com suas ruas imundas e ambientes escuros, contrastando com a elegância que a maioria deles vivia antes. Aliás, a escolha de Friedkin por rodar a maior parte do longa no continente americano insere veracidade ao filme. Nada no longa soa artificial, até mesmo durante as cenas mais complexas, como a da ponte, cenário incrivelmente montado pela direção de arte, facilitando a imersão.

Com tamanho foco na parte técnica e na jornada pela selva, o roteiro, escrito por Walon Green, acelera a apresentação dos personagens e o encontro deles. Os motivos para aqueles homens fugirem e sua estadia na América Central são desenvolvidos de maneira excessivamente direta, funcionando para direcionar o longa para seu foco, a viagem dos caminhões, mas impedindo um desenvolvimento melhor dos personagens. Com isso, fica difícil adquirir empatia por aqueles homens, uma vez que são rasos. Compreendemos o desespero dos protagonistas, mas nuances de suas personalidades acabam não sendo exploradas.

Com essa escolha do roteiro, o elenco não possui espaço para interpretações profundas, mas Roy Scheider, Bruno Cremer, Francisco Rabal e Amidou destacam com precisão o pessimismo de seus personagens, com olhares cansados e postura encurvada. Destaque maior para Scheider, aumentando a insanidade de Scanlon com a aproximação do terceiro ato, obcecado pelo dinheiro que se aproxima. No fim, ao comparar roteiro e direção, o longa soa mais como um exercício estético do que como uma obra com a intenção de contar uma grande história, funcionando com maestria no primeiro quesito, mas sendo superficial no segundo.

Apesar dos deslizes do texto, o término de O Comboio do Medo casa perfeitamente com o tom niilista da obra, arrancando Scanlon de um pequeno momento de felicidade e dando a ele o mesmo destino dos outros: a morte. O fato é que viver com medo é ser morto em vida. Muitos temem morrer trabalhando, outros receiam morrer sem trabalho. O que nos diferencia em um sistema tão caótico é a duração da existência de cada um.

O Comboio do Medo (Sorcerer) – EUA, 1977
Direção: William Friedkin
Roteiro: Walon Green (baseado na obra de Georges Arnaud)
Elenco: Roy Scheider, Bruno Cremer, Francisco Rabal, Amidou, Ramon Bieri, Karl John, Friedrich Von Ledebur, Chico Martinez, Joe Spinnell, Rosário Almontes
Duração: 121 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.