Crítica | O Comprador de Fazendas (1951)

Livre adaptação do conto homônimo de Monteiro Lobato, lançado em seu livro Urupês, O Comprador de Fazendas (1951) esteve entre os primeiros filmes da década de 1950 que não direcionavam o seu foco para representar, aludir ou imitar motivos e abordagens do cinema americano, como tinha se tornado, e se manteria, a tônica de uma gorda produção do Cinema Brasileiro após os Ciclos Regionais dos anos 10 e 20. Tendo como fonte um material nacional e lançando mão de tipos, cenas e características nacionais, a obra de Alberto Pieralisi encontrava a comédia dentro de coisas imediatamente relacionáveis para qualquer espectador brasileiro, algo que Mazzaropi exploraria com bastante sucesso a partir da safra posterior, com o lançamento de sua comédia Sai da Frente (1952).

Exceto pelo final, O Comprador de Fazendas é bastante fiel ao hilário e excelente conto de Lobato. Claro que existem adições de pequenos dramas internos que são particulares do filme, mas eles funcionam muito bem onde aparecem, porque dialogam com a prova de fogo da malandragem na fita: de um lado, o proprietário Moreira (maravilhosamente interpretado por Procópio Ferreira) “maquiando” e tentando vender a improdutiva e despedaçada Fazenda do Espigão para o pintor de paredes que se finge de rico, o jovem Pedro Trancoso (Hélio Souto).

O roteiro foi certeiro ao identificar que a dinâmica de casal entre Moreira e Isaura (Henriette Morineau) garantiria muito mais elementos cômicos do que apenas a tentativa de venda da infértil fazenda. Partem desse núcleo também os melhores braços da comédia de costumes e da dinâmica familiar caótica, algo que o filme exibe exemplarmente. A postura dominadora de Isaura é a cereja do bolo para a aparentemente pacata, mas cativante e muito engraçada forma de agir de Moreira, com Procópio Ferreira interpretando o fazendeiro de modo humano, malandro e ao mesmo tempo vítima de uma situação que ele tentava controlar e ao mesmo tempo manipulava. Assim como na obra literária, o cerne da fita é mostrar a hipocrisia e o fingimento de classe, que muitos vestem apenas para dizer que possuem status ou algum tipo de respeito frente aos vizinhos, quando na verdade mal possuem o básico para viver.

Aqui, essa ideia não aparece no roteiro como um modelo crítico ou de profundas implicações sociais. A comédia é desde o início a alma do longa, mas é através de seu desenvolvimento que atitudes morais questionáveis (o velho “jeitinho brasileiro”) entra em cena e cresce, à medida que todos se enrolam ainda mais, procurando lucrar à custa dos outros. Presença da igreja, de diversos imigrantes em diferentes áreas de atuação e de relações de classe no meio desse vendaval encontram até uma boa cena com Luiz Gonzaga tocando sanfona e cantando, levando o enredo para o seu maior ponto de conflito, ou seja, o momento em que o pessoal do campo descobre quem de fato é Pedro Trancoso. E então volto a falar do mal ajambrado final do filme.

Pensando no público da época e num tipo conhecido de exigência cinematográfica, o final feliz aqui é compreensível. Mas definitivamente não está em pé de igualmente com a qualidade do restante da obra. Há que se elogiar o texto por conseguir levar a comédia até o final, por não negar a briga, a fuga do magoado Trancoso e a mudança brusca de comportamento e opiniões dos locais ao descobrirem que estavam no mesmo patamar de enganação que imaginavam colocar o outro. A montagem, os diálogos e a construção da última cena, porém, desanimam o espectador e minam a qualidade do filme, que mesmo assim, mantém-se como uma das nossas melhores comédias de alma brasileira, falando de pessoas do campo, de costumes sociais bem brasileiros e de um tipo de alpinismo social mal-caráter que hoje conhecemos tão bem.

O Comprador de Fazendas (Brasil, 1951)
Direção: Alberto Pieralisi
Roteiro: Gino De Santis, Guilherme Figueiredo, Alberto Pieralisi, Mario del Río (baseado no conto de Monteiro Lobato)
Elenco: Procópio Ferreira, Henriette Morineau, Hélio Souto, Margot Bittencourt, Jaime Barcellos, Sérgio Britto, Lia de Aguiar, Elísio de Albuquerque, Jackson De Souza, Vitalina Gomes, Luiz Gonzaga, Marcos Lyra, Paulo Matozinho, José Mercaldi, Garibaldino Ono, Carlos Ortiz, Erminio Spalla, Vicente Troise, Marilu Vasconcelos, Paulo Vitalino
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.