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Crítica | O Condenado à Morte e Um Ardil, de Guy de Maupassant

por Luiz Santiago
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O presente compilado traz críticas para dois contos do escritor francês Guy de Maupassant (1850 – 1893). O primeiro deles, O Condenado à Morte, é um de seus escritos pouco conhecidos aqui no Brasil, e a pouca notoriedade que recebeu veio pelo fato de ter sido base para uma recriação literária de Tolstói, em seu incrível conto Custa Caro. O segundo, Um Ardil, já é  bem mais conhecido e inclusive foi publicado aqui no Brasil em pelo menos uma coletânea bem distribuída pelo país. Boa leitura a todos e não deixem de comentar ao final da crítica!
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O Condenado à Morte

Le Condamné à Mort

Na primeira coluna (à esquerda) o início do conto (Le Condamné à Mort).

O meu maior “erro” em relação à leitura desse O Condenado à Morte, foi chegar a ele após o maravilhoso Custa Caro, de Tolstói, que realiza uma reescrita literária em cima desse trabalho de Maupassant. O que o autor francês faz aqui é uma crítica bem-humorada à maneira como o Estado lida com as suas questões mais urgentes, especialmente quando se trata de punir criminosos. Na trama, encontramos um narrador que dá conta de suas experiências viajando pela costa sul da Europa, chegando, pois, a Mônaco, onde essa história verdadeiramente se passa.

O ponto central é o lado absurdo e improvável que a realidade às vezes nos traz. E nesse argumento do autor há uma imensa verdade, basta olharmos como as leis, as prioridades dos governantes, suas preocupações (ou não) com os gastos públicos e a forma como tratam importantes questões legais — junto aos seus mais diversos auxiliares — nos rodeia hoje em dia. Todos os países do mundo têm esse seu lado bizarro de tratar algum tipo de situação, e é nessa seara que Maupassant planta a sua semente falando de um homem que comete um assassinato, é condenado à morte, mas seu país não tem nem o instrumento e nem os profissionais para dar cabo de tal sentença.

A principal discussão de contexto que eu vejo em torno desse conto, puxando para a realidade brasileira (porém, no entendimento geral desse tema, vemos um tema discutido em muitos lugares do mundo), é sobre o destino que o Estado dá aos que já passaram pela punição de seus crimes, trazendo-nos velhas questões sobre a reinserção dos ex-presidiários à sociedade, discussão que parece nunca esgotar a quantidade de camadas e empecilhos em torno dela, nunca conseguindo um real avanço. O curioso é que para esse resultado final positivo acontecer, é necessário que haja um processo ativo, dinâmico, ocupacional e até mesmo de formação no período do cumprimento da pena. Mas para os sádicos da vigilância punidora de mão única, que colocam todos os tipos de crime num mesmo pacote e que enxergam tudo pela ótica da invalidação ou extermínio do indivíduo (“bandido bom é bandido morto“) a condenação deve ser eterna.

O que se perde nesse pensamento, é o custo extra que o tal indivíduo causa, e aí podemos inclusive atribuir a ele outros tipos de custo para além do financeiro. Em vez de tentar fazer com que esse indivíduo pudesse ter novamente alguma função social, o rei e seus conselheiros acabaram criando todo um ambiente onde o condenado à morte e depois à prisão perpétua literalmente dependesse do Estado para manufaturar uma máscara a fim de encobrir a incompetência do próprio Estado. Uma daquelas ironias que nos deixam amargurados após o riso, porque faz parte da nossa própria forma de tratar condenados em nossa realidade.

O Condenado à Morte (Le Condamné à Mort) — França, 10 de abril de 1883
Autor: Guy de Maupassant
Publicação original: Gil Blas
13 páginas

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Um Ardil

Une Ruse

Na primeira coluna (à esquerda) o início do conto (Une Ruse). No final da terceira coluna, a assinatura-pseudônimo de Maupassant: Maufrigneuse.

O conto Um Ardil foi originalmente publicado no jornal Gil Blas de 25 de setembro de 1882 , com Maupassant utilizando o pseudônimo de Maufrigneuse, o que era comum em suas publicações nesse periódico. Posteriormente, o conto apareceu na segunda edição da coletânea Mademoiselle Fifi, de 1883. Também vale destacar suas outras famosas republicações, uma no Le Voleur de 6 de outubro de 1882, sob o título Um Drama Doméstico (Un Drame de Ménage); outra no suplemento La Lanterne de 17 de agosto de 1884 e por fim, a republicação no L’Intransigeant Illustré de 23 de outubro de 1890. Apesar de não ser uma história genial do autor, trata-se de um intrigante, cômico e sombrio conto sobre fidelidade, amor, traição e casamento.

A história se passa à beira de uma lareira, entre um médico e sua paciente. Ela, uma idealista, defende firmemente que o adultério é um grande defeito e que não faz nenhum sentido que uma pessoa faça isso à outra. O médico, por sua vez, é um cínico com toques de praticidade, e defende que as coisas são bem mais complicadas quando se trata de um casamento. Para ilustrar sua visão, ele conta à paciente uma história que aconteceu com ele, tempos atrás.

Maupassant nos preparara rapidamente para uma narrativa dentro da narrativa, e o leitor se diverte com o tom de suspense empregado na aventura que o médico conta. Ele diz que certa noite, uma mulher chegou em sua casa, chorando, dizendo que seu amante acabara de morrer de uma parada cardíaca. O médico a seguiu e, de fato, constatou a morte. O marido da mulher estava prestes a voltar do clube, o que deixava a situação ainda mais tensa. Médico e paciente começaram a entrar em pânico, temendo que a esposa fosse apanhada em situação de adultério (o homem morto estava nu). Pois bem, é dessa impressão de que “as coisas podem dar muito errado a partir de agora” que o miolo da trama se ergue.

A solução encontrada pelo doutor para livrar a pele de sua paciente adúltera é muito inteligente, tétrica e consideravelmente engraçada, fazendo-nos pensar um tantinho mais na relação dele mesmo com a mulher a quem estava ajudando. A história é interessante, mas não alça um voo de qualidade muito grande. A melhor parte é mesmo a trajetória misteriosa, que infelizmente acaba desaguando num final consideravelmente anticlimático.

Um Ardil (Une ruse) — França, 25 de setembro de 1882
Autor: Guy de Maupassant
Publicação original: Gil Blas
Edição lida para esta crítica: Bola de Sebo e Outros Contos (Martin Claret, 2001)
Tradução: Pietro Nassetti
11 páginas

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